Um manual ou um soneto?

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Faz muito tempo que li que a prova de fogo de um poeta era fazer um soneto. A camisa de força da métrica e a cadência obrigatória da sua composição salientavam o pior e o melhor dos que já haviam se exercitado nas lides da rima assonante. Confesso que com meus irreverentes dezessete anos me parecia que esses versos de onze sílabas, agrupadas em dois quartetos e dois tercetos, eram somente para aqueles que não haviam podido ser postos a prova na liberdade da poesia moderna. Exibição de novidade da qual me pavoneava, até que li Quevedo e a teoria de repudiar a combinação de “cuidado” com “enamorado” me foi ao chão.

Pois bem, tenho que lhes dizer que do mesmo modo que um soneto, não há nada mais difícil de escrever do que um manual técnico. Já sei, vocês rirão, dirão que qualquer um consegue redigir a bula de um medicamento ou as explicações de uso de uma máquina de lavar. Tentem ver se podem, experimentem para que vejam quão difícil é fazer um manual de instruções, e que este não contenha a mesma cantilena chata e sem graça que tantos outros têm. Perceberão então como é árduo conseguir não parecer muito didático nem petulantemente professoral para evitar que o tédio faça os leitores desistirem.

Conto-lhes isto porque acabo de terminar um manual sobre WordPress que se intitula “Um blog para falar ao mundo”. Quando repasso as mais de quatrocentas páginas que redigi, pergunto-me como encontrei – nesta Cuba instável – o tempo, a paz, e a destreza para terminar tal livro. Alguns amigos me dizem que incursionei num gênero menor… e isso me faz rir. Na realidade – revelo-lhes – só fiz meu próprio e delicado soneto, com vinte capítulos que vêm a ser como quatorze versos e alguns conselhos técnicos na falta de declarações de amor. Meu livro, lá vão as coincidências da vida, será lançado em Madrid no próximo 21 de maio, justamente onde nasceu aquele poeta de óculos arredondados e nariz aquilino. O mesmo insolente que escreveu “meu ardor pode nadar em água fria e perder o respeito à lei severa” , como se ao invés de um romance eterno narrasse o ato de gerir um blog de um país imerso na censura.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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