Há ’14ymedio’ para já, senhores da Segurança do Estado

, La Habana | 07/10/2014

El periodista Juan Carlos Fernández y la economista Karina Gálvez Chiú. (Fuente: Facebook)

À tarde de segunda-feira foi como outra qualquer para Juan Carlos Fernández. A água teimava em não chegar pelo encanamento, sendo assim a obtinha pouco a pouco do acúmulo mais baixo da sua casa. A família girava em volta da sogra, que vive uma longa agonia de meio ano, e de vez em quando este pinareño (habitante de Pinar del Rio) desajeitado e sorridente olhava seu telefone para ver se chegava alguma mensagem.

A rotina foi quebrada quando alguém bateu na porta e lhe estendeu uma citação policial. El Juanca – como os amigos lhe chamam – está acostumado com que a Segurança do Estado lhe chame para depor. Seu longo trabalho com a revista Convivência e seu inconformismo como cidadão o levaram em ocasiões inumeráveis aos calabouços e delegacias de polícia. Assim foi que nem se alterou e avisou a todos os que lhe estimam e querem.

Nesta manhã esteve finalmente, cara a cara, com uma oficial da polícia no Departamento Técnico de Investigação (DTI). O assunto a ser tratado era tão previsível como violador dos seus direitos. Sua colaboração com nosso pequeno diário digital foi o motivo do mais recente puxão de orelha que lhe deram.

“Lavraram-me um ato de advertência por trabalhar para uma publicação ilegal não registrada”, contou-me Juanca. Com essa mescla de picardia e humor que o caracteriza, sugeriu rapidamente à senhora “que permitissem a legalização de 14ymedio”. Claro que ela só respondeu com evasivas a sua proposta, porque o fato de não permitir a existência de meios não governamentais parece ser condição indispensável para manter a imprensa oficial, tão ruim do ponto de vista jornalístico que só por força de monopólio consegue ter alguns leitores.

“Vocês não são jornalistas”, a oficial espetou. No que Juanca respondeu rápido: “Tirando as diferenças tampouco Martí o era”.

Entre outras falsidades a polícia lhe disse que 14ymedio era um diário financiado pela USAID. Mesmo em se tratando de uma acusação repetida contra todo projeto independente, neste caso demonstra mais ignorância do que más intenções. Este diário, de modo público e transparente, tem uma estrutura empresarial que pode ser conhecida detalhadamente na seção sobre nós desta página digital.

Esta modalidade financeira foi precisamente uma das condições que nos pareceu indispensável para fazer um jornalismo renovado com um meio de imprensa sustentável. Diferentemente do Granma e de todos os outros jornais oficiais, nós não metemos as mãos nos cofres estatais para fazer propaganda política. Estamos esperando ansiosamente, isso sim, que nos permitam registrar nossa pequena empresa nos registros de sociedades de nosso país. Atrever-se-ão a permiti-lo?

  Estamos esperando ansiosamente, isso sim, que nos permitam registrar nossa pequena empresa (…) Atrever-se-ão a permiti-lo?

Queremos ter personalidade jurídica, pendurar um cartaz na porta da nossa redação e mostrar, sem medo, uma credencial do nosso meio de imprensa. Por que nos negam este direito? Não se dão conta de que uma imprensa seqüestrada por um partido não satisfaz a demanda informativa de um país plural e diverso como o nosso? Terão alguma vez o valor político de fazer uma lei para que o jornalismo independente passe da clandestinidade à vida pública?

Quando essa funcionária mente sem nos dar o direito à réplica, está fazendo uso da sua autoridade para cometer um verdadeiro abuso de poder. O qual se torna mais dramático pelo nível de desinformação em que vive imersa a maior parte da população cubana e, pelo visto, também a polícia política.

Abrigada em seu uniforme a oficial também disse a Juanca que nosso meio se dedicava a “difamar e denegrir os sucessos da Revolução”. Com esta afirmação a senhora disse claramente que neste país só podem existir meios que cantem loas ao sistema; e por outro lado faz entender que ela tem acesso privilegiado a 14ymedio, pois desde nosso nascimento em 21 de maio nos bloquearam nos servidores da Ilha. Senhora, você entra com proxies anônimos em nossa página? Ou, pior ainda, você fala do que nem sequer viu? Temo que se trate deste último.

Desafio também esta policial que me aponte uma só característica do atual sistema político cubano que lhe permita chamar de revolução. Onde está o dinamismo? O caráter renovador? O movimento?  Por favor, atualizem suas palavras – não por respeito a esta filóloga renegada que acredita na semântica dos termos – mas sim porque enquanto não confessem publicamente que estão encalhados na história, anquilosados e fossilizados, não poderão implementar as soluções que urgem nesta nação.

Durante o interrogatório nosso correspondente em Pinar del Rio também foi ameaçado que, se fosse visto exercendo o jornalismo, poderia ser detido e ter seu telefone e máquina fotográfica confiscados. Vá lá o baluarte ideológico que a informação coloca em risco! A verdade é que cada vez entendo menos.

Nesta situação a que chegamos tudo é possível. A repressão, no pior estilo da Primavera Negra de 2003; as espaldas arrebentando a porta; a continuação da campanha de difamação, que cada vez tem menos efeito… Isso e muito mais. O que não vai ocorrer é que, ante o medo e a pressão, deixemos de fazer jornalismo. Há 14ymedio para já, então é melhor que vão se acostumando a viver conosco.

Tradução por Humberto Sisley

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Informar é o de menos

YOANI SÁNCHEZ, La Habana | 12/08/2014

El Gran Hermano se erige en juez de la "objetividad" periodística.

Faz alguns anos conheci um correspondente estrangeiro radicado em Cuba que contava uma história absurda e reveladora. O Centro de Imprensa Internacional (CPI) o havia chamado para admoestá-lo sobre o conteúdo de um artigo. Ao receber a citação não se surpreendeu, pois tais chamadas de advertência são prática habitual dessa entidade encarregada do registro e controle dos jornalistas estrangeiros que vivem na Ilha. Tampouco podia se negar a comparecer, pois da CPI depende a expedição de credenciais para fazer de uma reportagem numa reserva natural até uma entrevista com um ministro. Sendo assim, lá foi.

O jornalista chegou ao edifício da central Rua 23, onde fica o CPI, e foi conduzido a um escritório com dois homens de semblante fechado. Depois de lhe servirem um café e falarem de outros temas, passaram ao cerne da questão. Reprovavam uma reportagem do jornalista onde havia citado Cuba como “a Ilha comunista”. A surpresa do correspondente foi enorme, pois os chamados de atenção anteriores que havia recebido eram por “reportar só mal da realidade cubana” ou “não tratar com respeito os líderes da Revolução”, porém nunca imaginou que desta vez iriam reclamar por exatamente o contrário.

De fato, os censores que lêem minuciosamente os artigos redigidos pelas agências estrangeiras, não haviam gostado nada do uso do adjetivo “comunista” para caracterizar o nosso país. “Mas aqui o Partido Comunista governa, não é verdade?”, o repórter perguntou incrédulo. “Sim, porém tu sabes que essa palavra sabe mal, não nos ajuda”, respondeu-lhe o funcionário mais graduado. O homem ficou boquiaberto por uns segundos enquanto tentava compreender o que lhe diziam e encontrar uma resposta que não fosse uma sonora gargalhada.

O correspondente sabia que incomodar o CPI podia trazer mais do que um simples puxão de orelhas. Nas mãos dessa instituição estão também as permissões para que os jornalistas estrangeiros possam importar um automóvel, alugar uma casa e – naquele momento – até comprar um condicionador de ar para sua casa. O dilema que tinha como informador era ceder e não voltar a escrever “a ilha comunista” ou entrar em conflito com a instituição onde tinha tudo a perder.

Os mecanismos de controle sobre a imprensa estrangeira vão mais além dos chamados de atenção do CPI. Basta que um correspondente se case na ilha, crie uma família nesta terra, para que sua objetividade passe a estar em dúvida. Os órgãos de inteligência sabem como manipular as cordas do medo que causam o dano ou a pressão sobre um ente querido. Dessa maneira conseguem temperar o nível de crítica desses correspondentes “amansados” em Cuba. As prebendas constituem também um estímulo poderoso para certos temas espinhosos não serem tocados em seus artigos.

Conheço uma jornalista estrangeira que cada vez que exibe uma nota de imprensa sobre a dissidência cubana, acrescenta um parágrafo onde esclarece que “o Governo considera esta oposição criada e assalariada por Washington”… Contudo, em seus textos falta uma frase que poderia mostrar outro ponto de vista aos leitores e que se resume em comunicar que “a dissidência cubana considera o Governo da Ilha como uma ditadura totalitária que não se submeteu ao escrutínio das urnas”. Dessa maneira os que consultassem a nota jornalística poderiam tirar suas próprias conclusões. Lamentavelmente o objetivo dos correspondentes como ela não é informar, mas sim impor uma matriz de opinião tão estereotipada como falsa.

As agências de imprensa precisam reforçar e revisar seus códigos éticos assiduamente quando se trata de Cuba. Deveriam regular o tempo de estadia dos seus representantes na Ilha, porque quando passam longos anos aqui criam laços afetivos que podem se converter em alvo de chantagens e pressões por parte do oficialismo. Um exame de objetividade – de vez em quando – não cairia nada mal, dada a possível coação ou síndrome de Estocolmo que poderiam ser sofridas por seus empregados. A credibilidade de um gigante da informação depende, ocasionalmente, de um individuo que valoriza mais o novo automóvel importado ou a sua jovem e bela companheira cubana, que o compromisso com o jornalismo.

Cuidado agências de imprensa estrangeiras! Seus representantes nestas terras sempre estão em risco de se converterem em reféns, primeiro, e depois em colaboradores do oficialismo.

Tradução por Humberto Sisley

Para sonhar mais alto

Já não lembro o título daquele filme, nem do diretor, nem sequer se o vi numa sala de cinema ou na tela de uma televisão. Só ficou uma cena, um momento curto no qual o protagonista tira o agasalho e dá para um amigo. Este acabava de lhe confessar que aquele presente, moderno e de couro, era o seu sonho. “Que tenhas sonhos maiores” disse-lhe enquanto entregava o objeto dos seus desejos.

Quando se realiza um projeto desejado por muito tempo, vem a sensação de que devemos nos traçar novas metas. 14ymedio.com tem sido minha obsessão por mais de quatro anos. Senti primeiro a necessidade de que nascesse contribuindo com sua informação para que os cubanos decidissem com maturidade seu próprio destino. Mais tarde chegou a pergunta de como consegui-lo e a partir daí traçar um cronograma tão necessário como difícil de ser cumprido.

Também veio uma longa etapa em que meus amigos me escutavam falar do tema e riam-se entre dentes. “A louca do jornal” mais de um haverá me alcunhado. A parte mais difícil, contudo, foi – e continuará sendo – dar vida real a esta fantasia. Os tropeços foram inumeráveis. Desde os impostos por um poder que vê um gesto de traição na informação, até enfrentar o ceticismo de alguns amigos. Porém as obsessões são assim, não tendem a se deixar vencer tão facilmente.

Hoje, realizei um sonho. Diferentemente daquele personagem do filme não é um presente de roupa, mas sim um espaço jornalístico no qual sou acompanhada por numerosos colegas. Nasce com o desejo de chegar a muitos leitores dentro e fora de Cuba, de oferecer um espectro completo de notícias, colunas de opinião e dados sobre a realidade da nossa Ilha. Dará muito trabalho, sem dúvida. Cresceremos pouco a pouco, cuidando de que a realidade acompanhe cada conteúdo publicado.

Agora já posso sonhar mais alto: em um ano talvez estejamos na banca da esquina. Quem sabe?

Tradução por Humberto Sisley

14ymedio

14ymedio_logo

Ontem discutia com um amigo sobre a importância do jornalismo na atual situação cubana. Ele queria me convencer para entrar em seu partido opositor e eu lhe lembrava que um informador não deve ter nenhum tipo de militância. Era uma conversa carinhosa e pontuada por piadas, porém esclarecendo as diferentes posições que devem ser assumidas por um informador e um político.

Agora aqui estou lembrando a conversa de poucas horas atrás e postando no meu blog pessoal o rosto e o nome de um sonho compartilhado. Um meio que esperamos que ajude e acompanhe a necessária transição que ocorrerá em nosso país. Um espaço dedicado a narração de uma realidade onde há gente como meu amigo, como também outras pessoas que aplaudem o atual sistema por convicção, oportunismo ou medo. Um espaço para contar Cuba do interior de Cuba.

Será um caminho difícil. Durante as últimas semanas temos vivido um adiantamento de como a propaganda oficial tentará nos satanizar por fazer este meio. De fato, várias pessoas da nossa equipe de trabalho já têm recebido as primeiras chamadas de advertência da Segurança do Estado. Contudo, não temos nada com que nos preocupar. 14ymedio nasce sem nada para ocultar. A informação sobre sua linha editorial, compromissos éticos e finanças poderá ser lida na página web que estará disponível a partir do próximo 21 de maio. Mesmo que quiséssemos que estivesse funcionando hoje mesmo, tenho que reconhecer que a tecnologia se mostra muito… Mas muito caprichosa, às vezes.

Para os que perguntam o porquê deste nome tão peculiar e diferente, o certo é que nascemos num décimo – quarto andar e num ano quatorze. Alem disso inclui o ípsilon que me acompanha por todos estes anos e o vocábulo “meio” com todas as suas conotações jornalísticas. Evitamos a apropriação do nome Cuba para usar em nossa rúbrica e em seu lugar escolhemos o mais universal dos códigos: os números.

Agora só falta que vocês gostem, gere polêmica e lhes brinde com informação. Obrigada antecipadamente!

Tradução por Humberto Sisley