Tiananmen novamente

, La Habana | 30/09/2014

El hombre del tanque se hizo internacionalmente conocido al ser captado de pie ante una columna de tanques en la revuelta de Tiananmen (1989)

Poucas vezes se pode adormecer a memória. As lembranças não conhecem permissões nem autorizações, retornam e ponto. Durante um quarto de século o Governo chinês tratou de apagar os acontecimentos da Praça Tiananmen, porém agora são evocados pelos milhares de jovens que protestam nas ruas de Hong Kong. É difícil não pensar naquele homem com sua sacola de compras postado em frente a um tanque, enquanto se olha esta gente que exige a demissão de um funcionário tão impopular como servil a Pequim.

Vinte e cinco anos tentando limpar a história oficial daquela outra convulsão social, que terminou na mais brutal repressão, não adiantaram muito. Estas ruas repletas de pessoa pacíficas, porém saturadas, demonstram-no. Contudo, também existem diferenças grandes entre a revolta de 1989 no gigante asiático e as manifestações atuais em sua “região de administração especial”. A mudança fundamental é que estamos sendo partícipes nas nossas televisões, diários digitais e redes sociais de cada momento vivido pelos hongkongneses. A falta de informação que cercou os protestos na Praça Tiananmen agora tem a sua contrapartida numa aluvião de tuits, fotos e vídeos que saem de milhares de celulares.

Por quantos anos o Governo da China tentará apagar o que hoje ocorre? Quanto reforçará a parede corta fogo para que dentro do país não saibam o que ocorre tão perto? A repressão violenta do passado só serviu para dar mais determinação e maior número de manifestantes nas ruas da ex-colônia britânica. Contudo, apesar das multidões e das inumeráveis telas digitais que brilham em meio à noite de Hong Kong, a memória se obstina em nos fazer voltar para um homem. Um indivíduo que voltava do mercado e que decidiu que as esteiras de um tanque não iriam esmagar o civismo que lhe restava. Vinte e cinco anos depois, a realidade devolveu o seu gesto.

Tradução por Humberto Sisley

As lições de Lope de Vega

, La Habana | 18/09/2014

Memoria flash

Um amigo, que visitava Cuba pela primeira vez, perguntou-me por que o Governo não conseguia acabar com o chamado pacote de audiovisuais distribuído ilegalmente. “Basta que detectem quem o faz e comercializa, para que possam impedi-lo”, especulava o jovem. Lembrei-lhe então da obra Fuenteovejuna, escrita por Lope de Veja. O importante dramaturgo espanhol narra em três atos como um povo se rebela contra o abuso de poder. Os habitantes se unem ante a injustiça e assumem juntos a autoria da morte do opressor local. “Quem matou o Comendador? Fuenteovejuna, senhor”, mostrou-nos o teatro do Século de Ouro e o pusemos em prática – ao menos – na compilação e distribuição de programas, documentários e outros materiais digitais.

Meu amigo escutava incrédulo a minha explicação, então lhe dei um exemplo mais concreto. Faz uns meses viajei a Espanha para participar de um evento de tecnologia. Antes de me despedir, meus familiares e amigos pediram-me algumas incumbências, como é comum num país tão carente. Contudo, diferentemente de outros tempos em que alguém partia com um monte de gabaritos de sapatos e medidas de roupa, desta vez os pedidos eram muito diferentes. O vizinho do terceiro andar queria a atualização do antivírus Avast e que lhe baixasse um curso de contabilidade de pequenos negócios. Dois primos anotaram os dados de um videojogo – com todos os seus updates – para que eu trouxesse. O marido de uma sobrinha pediu-me umas revistas em PDF sobre desenho industrial e quase todos coincidiram que uma cópia offline do sítio Revolico seria fantástica.

A lista de coisas para trazer tornou-se muito significativa para mim. Alternavam o sabonete e o desodorante – ausentes das lojas por estes dias – com os drivers para um laptop de um conhecido que perdeu os discos de instalação. O vendedor de doces da esquina pediu-me uma enciclopédia digital de confeitaria e um amigo que aprende utilizar precisava de um simulador para PC. Uma colega fotógrafa anotou que lhe baixasse uns apps de Android que permitissem retocar imagens e uma parenta que estuda inglês exigiu-me todos os capítulos de um Podcast para praticar esse idioma.

Dormi apenas umas horas nas duas noites que passei em Granada, pois a lista do que tinha que baixar da Internet era muito longa. Aproveitei a conectividade e fiz download de meia centena de palestras TED, para trazer para a Ilha um pouco deste vento fresco de empreendedores e gente criativa. Renomeei alguns arquivos para melhor encontrá-los nas numerosas pastas que continham os pedidos e regressei para Havana. Em menos de 48 horas as incumbências estavam entregues, até um curso de pilates em vídeo que me foi pedido pelo dono de um ginásio próximo e a galeria digital para um professor universitário que urgia imagens de arte egípcia. Todos estavam satisfeitos.

Passaram-se várias semanas e um dia me chegou a última atualização do pacote que estava circulando. Para minha surpresa as TEDTalk que estavam incluídas nela eram exatamente os mesmos arquivos que eu havia baixado da web e posteriormente renomeado. Desse modo pude comprovar que todos – de um ou outro modo – formamos parte e alimentamos esse quadro de notas alternativo que circula de mão em mão.

Pobre Comendador, já sabe que o pacote é “todos em um, senhor”, como nos ensinou Lope de Veja.

Tradução por Humberto Sisley

De gratuidades e escolas

, 12/09/2014

Estudiantes de primaria. (14ymedio)

O sinal do turno da manhã tocou e os meninos foram para a aula, seguidos por seus pais. O primeiro dia de aulas acaba com a alegria e alguns deixam umas lagriminhas caírem porque sentem saudades das suas casas. Isso aconteceu com a Carla que está iniciando o pré-escolar numa escola do Cerro. A menina teve sorte porque lhe coube uma professora que ensina a muitos anos no primário e domina bem o conteúdo que transmite. “Que sorte!”, pensaram os familiares da pequena imediatamente antes que outra mãe lhes advertisse: “porém cuidado com a professora que exige um pedaço da merenda que cada estudante traz de casa”.

Na tarde daquele 1 de setembro teve lugar a primeira reunião de pais. Depois das apresentações e das palavras de boas vindas, a professora enumerou tudo que fazia falta para comprar em aula. “Há que se coletar dinheiro para um ventilador”, disse sem ruborizar. Carla já havia sofrido com o calor da manhã, desse modo a mãe entregou os 3 CUC que lhe correspondia para que sua filha tivesse um pouco de frescor enquanto estudasse. “Também precisamos comprar uma escova e um esfregão para a limpeza, três lâmpadas de luz fria e um cesto de lixo”, enfatizou a auxiliar pedagógica.

A lista de pedidos e necessidades somou-se um desinfetante para o banheiro “porque não há quem suporte o cheiro”, assegurou a própria educadora. A cifra dos gastos começou a crescer e teve-se que juntar um cadeado porque “senão nos roubam as coisas quando não há ninguém na escola”. Para pintar o quadro negro um pai ofereceu um pouco de tinta verde e outro se comprometeu em consertar as dobradiças da porta que estava caída ao lado. “Recomendo-lhes que comprem a agenda dos meninos na rua, porque as que vieram neste ano são de um material de cebola que rasga ao se apagar”, acrescentou a mestra.

Ao terminar a reunião a família de Carla já contabilizava uns 250 pesos cubanos em gastos para apoiarem o ensino da menina, a metade do salário mensal do pai, que é engenheiro químico. Então a diretora da escola entrou na reunião e rebateu: “se alguém conhece um carpinteiro e quiser contratá-lo para que conserte a mesa do seu filho, pode fazê-lo”.

Tradução por Humberto Sisley

Quem entrou na universidade ?

, La Habana | 02/09/2014

Nuevos ingresos a la universidad. (14ymedio)

Nasceram em pleno Período Especial, viveram aprisionados na dualidade monetária e quando obtiverem seu diploma Raúl Castro já não estará no poder. São mais de cem mil jovens que acabam de ingressar no ensino universitário em todo o país. Em sua curta biografia incluem-se experiências educacionais, batalha de idéias e a irrupção das novas tecnologias. Sabem mais de X-Men que de Elpidio Valdés e só se lembram de Fidel Castro em velhas fotos e documentários de arquivo.

São os garotos do Wi-Fi e das redes piratas, criados com o pacote de audiovisuais e da antena parabólica ilegal. Passam madrugados conectados através de routers, metidos em videojogos de estratégia onde se sentem poderosos e livres. Quem tenta conhecê-los deve saber que tiveram professores emergentes desde a escola primária e através da tela de uma televisão lhes ensinaram gramática, matemática e ideologia. Contudo, terminaram sendo os cubanos menos ideologizados que hoje povoam esta Ilha, os mais cosmopolitas e com maior visão de futuro.

Ao chegar à secundária básica brincaram de arremessar o pão da merenda obrigatória enquanto seus pais passavam furtivamente o almoço através da cerca da escola. Tem uma capacidade física especial, uma adaptação que lhes tem permitido sobreviver ao meio: não escutam o que não lhes interessa, fecham os ouvidos ante as arengas dos matutinos e dos políticos. Parecem mais indolentes que os de outras gerações e realmente o são, porém em seu caso essa apatia se comporta como uma vantagem evolutiva. São melhores do que nós e viveram num país que nada tem a ver com o que nos prometeram.

Faz uns meses estes mesmos jovens protagonizaram o mais famoso caso de fraude escolar que tenha vindo a público. Quem duvida que entre os que conseguiram entrar no ensino superior, alguns tenham comprado as respostas de um exame de ingresso? Estão acostumados a pagar para aprovar, pois tiveram que apelar a ensino particular para que lhes ensinassem os conhecimentos que a escola deveria lhes dar. Muitos dos recém matriculados na universidade tiveram professores particulares desde a escola primária. São os filhos de uma nova classe emergente que usa seus recursos para que seus filhos alcancem uma escrivaninha a direita – ou a esquerda – da Alma Mater.

Estes jovens vestiram-se com uniformes em seus cursos escolares anteriores, porém batalharam para se diferenciar por uma camisa, numa mecha de cabelo descolorido ou através da calça abaixo das cadeiras. São os filhos de quem tinha apenas uma muda de roupa de baixo nos anos noventa, o que fez que seus pais tratassem de que: “não passem pelo mesmo” e tenham apelado ao mercado ilegal para vesti-los e calçá-los. Riem-se da falsa austeridade e não querem luzir como milicianos, gostam das cores intensas, dos brilhos e dos adornos de marca.

Ontem, quando inauguravam o curso escolar, receberam uma peroração sobre as tentativas do “imperialismo de sabotar a Revolução através da juventude”. Foi como um chuvisco que escorre sobre superfície impermeável. Tem razão o Governo em se preocupar, estes jovens que entraram na universidade nunca serão bons soldados nem fanáticos. A argila que os constitui não é maleável.

Tradução por Humberto Sisley

Sacolas de nylon ou a pensão de muitos

, La Habana | 29/08/2014

Vendedora de jabitas delante del mercado agrícola. (Luz Escobar)

“Preciso de óculos escuros”, disse-me Verônica no dia em que a encontrei na rua. Com quase setenta anos a senhora precisou de uma cirurgia de catarata há meses, agora tem que “cuidar dos olhos” segundo me explicou. Ela trabalha ao sol vendendo sacolas de nylon para os fregueses do mercado agrícola da Rua Tulipán. A claridade inclemente do meio dia prejudicou-lhe a vista, porém esse não é o pior dos seus problemas. “Temos um mecanismo de alarme para saber quando vêm os policiais, ainda que às vezes cheguem de civil e nos peguem desprevenidos”. No mês passado pagou uma multa de 1500 pesos por se dedicar a venda ilícita e nesta semana lhe deram uma carta de advertência por reincidir no mesmo delito.

Se alguém lê textos como o de Randy Alonso sobre a ausência de sacolas nas tendas arrecadadoras de divisas, poderia chegar a crer que o desvio deste recurso termina em mãos de comerciantes inescrupulosos. Contudo, basta conhecer Verônica para se dar conta que seu próprio negócio tem mais miséria do que lucro. Com quatro décadas trabalhadas como auxiliar de limpeza numa escola, a senhora agora recebe uma pensão que não supera os dez dólares ao mês.  Sem a revenda de sacolas teria que se dedicar a mendicidade, porém afirma que “antes morta do que pedir dinheiro pelas ruas”. Ela não é culpada, mas sim vítima de uma ordem de coisas que a empurraram para a ilegalidade para sobreviver.

Levar produtos nas mãos por falta de sacolas é algo que aborrece qualquer consumidor. Porém comprovar que um dos grandes porta-vozes do sistema atual desconhece os dramas humanos que levam ao desvio das sacolas de nylon irrita ainda mais. Não se trata de gente desalmada que se dedica a enriquecer com o fruto do desfalque do Estado, mas sim de cidadãos cuja indigência econômica os leva a revender qualquer produto que lhes chegue às mãos. Verônica agora mesmo está nas cercanias de algum comércio, com os velhos óculos escuros que lhe deram e murmurando: “tenho sacolas, tenho sacolas a um peso cada uma”.

Tradução por Humberto Sisley

Caricatura feminina

YOANI SÁNCHEZ, La Habana | 22/08/2014

Una mujer bebiendo. (14ymedio)

Uma mulher diz na televisão nacional que seu marido a “ajuda” em algumas tarefas domésticas. A frase poderia soar a muitos como a aspiração máxima de cada fêmea. Outra senhora afirma que seu esposo se comporta como uma “federada homem”, em alusão a Federação de Mulheres Cubanas (FMC) que hoje chega ao seu 54 aniversário. Eu, do lado de cá da tela, sinto pena alheia ante tanta mansidão. Ao invés das reivindicações urgentes que deveriam mencionar, só escuto esses agradecimentos que dirigem a um poder tão varonil como surdo.

Não se trata de “ajudar” a esfregar um prato ou cuidar das crianças, nem tampouco das ilusórias cotas de gênero que escondem tanta discriminação como uma bofetada. O problema é que o poder econômico e político continuam majoritariamente em mãos masculinas. Que porcentagem de proprietários de automóveis é de mulheres? Quantas propriedades rurais têm uma mulher como proprietária ou usufrutuária? Quantos embaixadores cubanos em missão no estrangeiro levam companheira? Alguém pode dizer o número de homens que pedem licença paternidade para se ocuparem dos seus filhos recém nascidos? Quantas jovens são detidas a cada dia pela polícia para serem advertidas que não podem caminhar com um turista? Quem assiste majoritariamente as reuniões de pais nas escolas?

Por favor, não tentem “nos enrolar” com cifras no estilo de que “65% dos nossos quadros e 50% de nossos dirigentes de base são mulheres”. O único fato que esta estatística aponta é que sobre nossos ombros agora recai mais responsabilidade, o que não significa nem maior nível de decisão nem direitos mais amplos. Ao menos em frase tão triunfalista fica esclarecido que são os “dirigentes de base”, pois já sabemos que a tomada de decisões em instâncias mais altas é feita por homens que cresceram sob os preceitos de que as mulheres são um adorno bonito para se ter a mão… Sempre e quando mantivermos a boca fechada.
Sinto pena pelo dócil e tímido movimento feminista que existe no meu país. Vergonha por essas senhoras com colares ridículos e maquiagem abundante que saem nos meios oficiais para nos contar que “a mulher cubana tem sido a melhor aliada da Revolução”. Palavras ditas no mesmo minuto em que um gerente de empresa assedia sexualmente sua secretária, que uma mulher golpeada não consegue uma ordem de afastamento para seu marido abusador, que um policial diz a uma vítima de acosso sexual: “bem, é que com essa saia que você vestiu…” E que o governo recruta tropas de choque para um ato de repúdio as Damas de Branco.

As mulheres são a parcela da população que mais motivos têm para gritar sua inconformidade. Porque meio século depois de fundada a caricatura de organização que é a FMC, não somos nem mais livres, nem mais poderosas e nem sequer mais independentes.

Tradução por Humberto Sisley

Chrome passa à legalidade em Cuba

YOANI SÁNCHEZ, La Habana | 21/08/2014El logo de Google Chrome.

O gigante Google autorizou ontem que os internautas cubanos possam baixar seu conhecido navegador Chrome. O anúncio acontece dois meses depois que vários diretores da empresa norte-americana visitaram Havana e puderam comprovar por si próprios as dificuldades de acesso a grande rede mundial sofridas pelos usuários do pátio*.

Entre os temas das conversações que nós de 14ymedio e Eric Schmidt diretor executivo do Google mantivemos, estavam precisamente estas restrições. Daí nossa satisfação ao saber que as opiniões de cidadãos interessados no livre fluxo de informação e tecnológia tenham influído na eliminação desta proibição. Obstáculo que enquanto esteve de pé afetou mais a população cubana que a um Governo que se encontra entre os grandes predadores da Internet do mundo.

Durante sua viagem a Cuba os quatros diretores do Google não só padeceram dos inconvenientes dos sítios digitais censurados pelas autoridades cubanas e dos elevadíssimos preços das conexões locais públicas, como também experimentaram as restrições impostas por sua própria empresa aos internautas da Ilha. Deve ter sido um trago bem amargo esse de tentar baixar Google Chrome e ver aparecer o aviso: “Este serviço não está disponível para o seu país”.

Os usuários cubanos, afortunadamente, não esperavam que a empresa norte-americana permitisse obter o programa de um IP nacional. Google Chrome, junto ao Mozilla Firefox e ao polêmico Internet Explorer, está há vários anos entre os navegadores mais utilizados em nosso país. Bastou que alguém trouxesse o instalador depois de baixá-lo gratuitamente numa viagem ao exterior, para que este começasse a se difundir de mão em mão – ou de memória USB à memória USB – e fosse instalado em centenas – milhares? – de computadores.

O que aconteceu agora é que passamos de usuários ilegais a uma confraria de mais de 750 milhões de pessoas que no mundo todo usam este programa de modo autorizado. A notícia é agradável, porém insuficiente. Serviços como Google Analytics, Google Earth e a loja de aplicativos Android esperam por um descongelamento semelhante. Oxalá não se tenha que esperar outra visita a Cuba de diretores do Google para que essas limitações sejam eliminadas!

*refere-se a Cuba como o pátio de um quartel

Tradução por Humberto Sisley