A USAID boa e a USAID má

YOANI SÁNCHEZ, 03/11/2014Médicos cubanos en el interior del hospital de Monrovia, Liberia, de la USAID.

Faz apenas alguns meses vivíamos sob uma avalancha de propaganda oficial cujo alvo era a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). Aquelas siglas passaram a representar o inimigo com que nos assustavam na tela das televisões, nas tribunas e até nas próprias aulas. Contudo, para nossa surpresa, nesta semana se soube que alguns médicos cubanos trabalharão num hospital de campanha financiado por tão “terrível organismo”.

Mesmo que a imprensa oficial tenha evitado publicar as fotos que mostram nossos compatriotas junto à sigla da USAID, alguma outra escapou a censura. Imediatamente o relato de enfrentamento é detonado, a retórica do adversário faz água e fica em evidência todo o relativismo moral dos que fabricam as cruzadas ideológicas com que nos bombardeiam intenssamente pela mídia.

Alguém poderia pedir a Associated Press (AP) que vá o quanto antes investigar essa conspiração “secreta” entre a Praça da Revolução e uma agência que recebe “diretriz” do Departamento de Estado? Estamos querendo ver os rios de tinta que esta colaboração vai provocar, os “desnudamentos”, os memorandos secretos e as confissões de rosto velado que expliquem semelhante colaboração.

Contudo a resposta que darão os que rechaçaram o apoio da USAID a sociedade civil cubana, quando lhes parece muito bom que esta trabalhe ombro a ombro com as autoridades da Ilha, será que em questões humanitárias não há cores políticas. Como se informar e apoderar-se tecnologicamente não fosse também uma questão de sobrevivência neste século vinte e um. A própria imprensa oficial, por seu lado, aprestar-se-á a mostrar que quando se trata de salvar vidas os médicos cubanos estão dispostos a deixar de lado as diferenças. Porém nenhuma dessas é a explicação verdadeira.

O cerne da questão é que o governo de Raúl Castro está desejando dar e receber beligerância por parte do grande vizinho do Norte. O que não tolera e nunca aceitará é outorgar ou permitir que se reconheça beligerância em sua própria sociedade civil. Está ansioso pela foto de família com o Tio Sam, sempre e quando ninguém convide o sobrinho bastardo que é a população cubana.

O poder tem essas atrações para si mesmo, parecem querer nos dizer as imagens destes últimos dias. Se um jovem cubano recebe uma mensagem de texto que o convoca para um concerto alternativo, deve ter cuidado – segundo nos advertem os comentaristas oficiais em nossa telinha – porque o imperialismo pode estar por trás de cada letra. A mesma régua ética não é usada, não obstante, para medir um profissional de saúde que trabalha sob a tenda, sobre as macas e com as seringas financiadas pela USAID.

Como vão explicar a esses meninos que levam meses sendo assustados com a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, que agora seu pai ou tio que foi para a Libéria trabalha num hospital construído com fundos dessa agencia?

Quando Ronald Hernández Torres, um dos médicos cubanos que viajaram para a Libéria, escreveu na sua página do Facebook que “esta unidade conta com as melhores condições para o cuidado do paciente e os melhores profissionais de diferentes países trabalham ombro a ombro”, por acaso sabia que tudo isso está sendo custeado pelo mesmo organismo que é a última besta negra que o castrismo encontrou para nos assustar?

Como ocorre sempre, os gritos da histeria política acabam por sufocar as vozes que empunham argumentos. Mesmo que por regra geral a versão oficial termine se impondo, porque é a que insulta mais alto, isso não deve nos desanimar na busca das razões e na revelação das contradições do seu discurso.

Já sei que no fim do ano quando se fizer o balanço informativo das manchetes dos nossos jornais nacionais, ficará a impressão que o governo de Havana e a USAID são inimigos irreconciliáveis. Mas é mentira. A confrontação principal, que segue inabalável e sem ceder nem um centímetro, é esta que nasce do poder em Cuba em relação ao seu próprio povo.

Tradução por Humberto Sisley

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