Nascidos na laje.

YOANI SÁNCHEZ, La Habana | 28/10/2014

Fotograma de Madagascar(1994) filme dirigido por Fernando Pérez

Há cidades que tem uma vida subterrânea. Urbes com uma realidade que literalmente acontece sob o solo. Metrôs, túneis e porões… A vitória humana de ter conquistado centímetros da pedra. Havana não, Havana é uma cidade de superfície, pouco subterrânea. Contudo, sobre os tetos das casas, nos lajes mais impensáveis, levantaram casinhas, banheiros, cercados de porcos e gaiolas de pomba. Como se por cima dos tetos tudo fosse possível, inalcançável.

Ignácio tem a antena parabólica sobre a laje de um vizinho, está escondida sob uma parreira que dá uvas raquíticas e ácidas. A poucos metros alguém fez uma gaiola para prender cães de briga, que durante o dia buscam a sombra sedentos e chateados. Do outro lado da rua vários membros de uma família quebraram o muro que os ligava ao teto de uma velha oficina estatal. Fizeram sobre o local abandonado um terraço e um quarto de banho. Ao cair da noite jogam partidas de dominó enquanto a brisa do malecón chega até eles.

Carmita guarda todo o seu tesouro sobre a sua casa. Umas enormes vigas de madeira com as quais quer escorar os quartos antes que caiam. A cada semana sobe para ver como a chuva e o calor incharam a madeira e racharam as peças. Seu neto usa a laje para encontros amorosos quando a noite cai e os olhos apenas distinguem as sombras, mesmo que os ouvidos detectem os gemidos.

Todos vivem uma parte das suas existências lá em cima, em uma Havana que gostaria de ir ao céu, mas que consegue apenas elevar-se uns centímetros.

Tradução por Humberto Sisley

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