As utopias e dissidências de Pedro Pablo Oliva

, 27/10/2014

Fragmento de 'Las extrañas divagaciones de Utopito', de la exposición de Pedro Pablo Oliva, Utopías y disidencias

Faz alguns anos visitei a casa estúdio do pintor Pedro Pablo Oliva. Havíamos apenas nos visto em alguma ocasião anterior, porém ele me chamou ao seu estúdio e me mostrou a obra em que dava os últimos retoques. Uma enorme tela vertical se levantava em frente a mim e o artista permaneceu em silêncio, sem nada explicar. No centro da tela duas figuras levitavam. Uma era Fidel Castro, translúcido como se o víssemos através de uma radiografia, avantajado e com certo ar fantasmagórico. Entre seus braços apertava até a asfixia uma garota lânguida que parecia querer escapar daquele aperto. Era Cuba, esgotada por companhia tão monopolizadora. Aos pés um grupo de cidadãos pequeninos e de olhos vazios observava – ou imaginava – a cena.

Nunca pude esquecer aquele quadro porque num limitado número de centímetros Oliva havia fixado o percurso nacional do último meio século. Seu atrevimento naquela obra me impactou como já o havia feito seu clássico El Gran apagón (1994), exibido quando os cortes elétricos eram mais do que uma metáfora artística. Agora, anos depois, soube do cancelamento da sua exposição Utopias e dissidências no Museu de Arte de Pinar Del Río. As justificativas oficiais insinuaram que na cidade não existiam “condições subjetivas favoráveis” para inaugurar a mostra. Uma forma rebuscada de rechaçar as imagens incômodas onde o personagem de Utopito questionava as ideologias e os sonhos a partir dos resultados.

Contudo, a tenacidade de Oliva sobrepujou os funcionários culturais e acaba de anunciar que a exposição censurada será, finalmente, feita em sua casa estúdio. De modo que seus admiradores pinareños e de toda a Ilha poderão desfrutar de uma parte das obras de Utopias e dissidências a partir de primeiro de novembro próximo, já que dado o pequeno espaço onde serão exibidas não pode incluir todas.

Nessa mesma sala onde um político inconsciente aperta a pátria até a sufocação, em poucos dias comprovaremos como ela consegue sair deste abraço mortal, seguir sua vida e continuar sua criação.

Tradução por Humberto Sisley

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