Nascidos na laje.

YOANI SÁNCHEZ, La Habana | 28/10/2014

Fotograma de Madagascar(1994) filme dirigido por Fernando Pérez

Há cidades que tem uma vida subterrânea. Urbes com uma realidade que literalmente acontece sob o solo. Metrôs, túneis e porões… A vitória humana de ter conquistado centímetros da pedra. Havana não, Havana é uma cidade de superfície, pouco subterrânea. Contudo, sobre os tetos das casas, nos lajes mais impensáveis, levantaram casinhas, banheiros, cercados de porcos e gaiolas de pomba. Como se por cima dos tetos tudo fosse possível, inalcançável.

Ignácio tem a antena parabólica sobre a laje de um vizinho, está escondida sob uma parreira que dá uvas raquíticas e ácidas. A poucos metros alguém fez uma gaiola para prender cães de briga, que durante o dia buscam a sombra sedentos e chateados. Do outro lado da rua vários membros de uma família quebraram o muro que os ligava ao teto de uma velha oficina estatal. Fizeram sobre o local abandonado um terraço e um quarto de banho. Ao cair da noite jogam partidas de dominó enquanto a brisa do malecón chega até eles.

Carmita guarda todo o seu tesouro sobre a sua casa. Umas enormes vigas de madeira com as quais quer escorar os quartos antes que caiam. A cada semana sobe para ver como a chuva e o calor incharam a madeira e racharam as peças. Seu neto usa a laje para encontros amorosos quando a noite cai e os olhos apenas distinguem as sombras, mesmo que os ouvidos detectem os gemidos.

Todos vivem uma parte das suas existências lá em cima, em uma Havana que gostaria de ir ao céu, mas que consegue apenas elevar-se uns centímetros.

Tradução por Humberto Sisley

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As utopias e dissidências de Pedro Pablo Oliva

, 27/10/2014

Fragmento de 'Las extrañas divagaciones de Utopito', de la exposición de Pedro Pablo Oliva, Utopías y disidencias

Faz alguns anos visitei a casa estúdio do pintor Pedro Pablo Oliva. Havíamos apenas nos visto em alguma ocasião anterior, porém ele me chamou ao seu estúdio e me mostrou a obra em que dava os últimos retoques. Uma enorme tela vertical se levantava em frente a mim e o artista permaneceu em silêncio, sem nada explicar. No centro da tela duas figuras levitavam. Uma era Fidel Castro, translúcido como se o víssemos através de uma radiografia, avantajado e com certo ar fantasmagórico. Entre seus braços apertava até a asfixia uma garota lânguida que parecia querer escapar daquele aperto. Era Cuba, esgotada por companhia tão monopolizadora. Aos pés um grupo de cidadãos pequeninos e de olhos vazios observava – ou imaginava – a cena.

Nunca pude esquecer aquele quadro porque num limitado número de centímetros Oliva havia fixado o percurso nacional do último meio século. Seu atrevimento naquela obra me impactou como já o havia feito seu clássico El Gran apagón (1994), exibido quando os cortes elétricos eram mais do que uma metáfora artística. Agora, anos depois, soube do cancelamento da sua exposição Utopias e dissidências no Museu de Arte de Pinar Del Río. As justificativas oficiais insinuaram que na cidade não existiam “condições subjetivas favoráveis” para inaugurar a mostra. Uma forma rebuscada de rechaçar as imagens incômodas onde o personagem de Utopito questionava as ideologias e os sonhos a partir dos resultados.

Contudo, a tenacidade de Oliva sobrepujou os funcionários culturais e acaba de anunciar que a exposição censurada será, finalmente, feita em sua casa estúdio. De modo que seus admiradores pinareños e de toda a Ilha poderão desfrutar de uma parte das obras de Utopias e dissidências a partir de primeiro de novembro próximo, já que dado o pequeno espaço onde serão exibidas não pode incluir todas.

Nessa mesma sala onde um político inconsciente aperta a pátria até a sufocação, em poucos dias comprovaremos como ela consegue sair deste abraço mortal, seguir sua vida e continuar sua criação.

Tradução por Humberto Sisley

Há ’14ymedio’ para já, senhores da Segurança do Estado

, La Habana | 07/10/2014

El periodista Juan Carlos Fernández y la economista Karina Gálvez Chiú. (Fuente: Facebook)

À tarde de segunda-feira foi como outra qualquer para Juan Carlos Fernández. A água teimava em não chegar pelo encanamento, sendo assim a obtinha pouco a pouco do acúmulo mais baixo da sua casa. A família girava em volta da sogra, que vive uma longa agonia de meio ano, e de vez em quando este pinareño (habitante de Pinar del Rio) desajeitado e sorridente olhava seu telefone para ver se chegava alguma mensagem.

A rotina foi quebrada quando alguém bateu na porta e lhe estendeu uma citação policial. El Juanca – como os amigos lhe chamam – está acostumado com que a Segurança do Estado lhe chame para depor. Seu longo trabalho com a revista Convivência e seu inconformismo como cidadão o levaram em ocasiões inumeráveis aos calabouços e delegacias de polícia. Assim foi que nem se alterou e avisou a todos os que lhe estimam e querem.

Nesta manhã esteve finalmente, cara a cara, com uma oficial da polícia no Departamento Técnico de Investigação (DTI). O assunto a ser tratado era tão previsível como violador dos seus direitos. Sua colaboração com nosso pequeno diário digital foi o motivo do mais recente puxão de orelha que lhe deram.

“Lavraram-me um ato de advertência por trabalhar para uma publicação ilegal não registrada”, contou-me Juanca. Com essa mescla de picardia e humor que o caracteriza, sugeriu rapidamente à senhora “que permitissem a legalização de 14ymedio”. Claro que ela só respondeu com evasivas a sua proposta, porque o fato de não permitir a existência de meios não governamentais parece ser condição indispensável para manter a imprensa oficial, tão ruim do ponto de vista jornalístico que só por força de monopólio consegue ter alguns leitores.

“Vocês não são jornalistas”, a oficial espetou. No que Juanca respondeu rápido: “Tirando as diferenças tampouco Martí o era”.

Entre outras falsidades a polícia lhe disse que 14ymedio era um diário financiado pela USAID. Mesmo em se tratando de uma acusação repetida contra todo projeto independente, neste caso demonstra mais ignorância do que más intenções. Este diário, de modo público e transparente, tem uma estrutura empresarial que pode ser conhecida detalhadamente na seção sobre nós desta página digital.

Esta modalidade financeira foi precisamente uma das condições que nos pareceu indispensável para fazer um jornalismo renovado com um meio de imprensa sustentável. Diferentemente do Granma e de todos os outros jornais oficiais, nós não metemos as mãos nos cofres estatais para fazer propaganda política. Estamos esperando ansiosamente, isso sim, que nos permitam registrar nossa pequena empresa nos registros de sociedades de nosso país. Atrever-se-ão a permiti-lo?

  Estamos esperando ansiosamente, isso sim, que nos permitam registrar nossa pequena empresa (…) Atrever-se-ão a permiti-lo?

Queremos ter personalidade jurídica, pendurar um cartaz na porta da nossa redação e mostrar, sem medo, uma credencial do nosso meio de imprensa. Por que nos negam este direito? Não se dão conta de que uma imprensa seqüestrada por um partido não satisfaz a demanda informativa de um país plural e diverso como o nosso? Terão alguma vez o valor político de fazer uma lei para que o jornalismo independente passe da clandestinidade à vida pública?

Quando essa funcionária mente sem nos dar o direito à réplica, está fazendo uso da sua autoridade para cometer um verdadeiro abuso de poder. O qual se torna mais dramático pelo nível de desinformação em que vive imersa a maior parte da população cubana e, pelo visto, também a polícia política.

Abrigada em seu uniforme a oficial também disse a Juanca que nosso meio se dedicava a “difamar e denegrir os sucessos da Revolução”. Com esta afirmação a senhora disse claramente que neste país só podem existir meios que cantem loas ao sistema; e por outro lado faz entender que ela tem acesso privilegiado a 14ymedio, pois desde nosso nascimento em 21 de maio nos bloquearam nos servidores da Ilha. Senhora, você entra com proxies anônimos em nossa página? Ou, pior ainda, você fala do que nem sequer viu? Temo que se trate deste último.

Desafio também esta policial que me aponte uma só característica do atual sistema político cubano que lhe permita chamar de revolução. Onde está o dinamismo? O caráter renovador? O movimento?  Por favor, atualizem suas palavras – não por respeito a esta filóloga renegada que acredita na semântica dos termos – mas sim porque enquanto não confessem publicamente que estão encalhados na história, anquilosados e fossilizados, não poderão implementar as soluções que urgem nesta nação.

Durante o interrogatório nosso correspondente em Pinar del Rio também foi ameaçado que, se fosse visto exercendo o jornalismo, poderia ser detido e ter seu telefone e máquina fotográfica confiscados. Vá lá o baluarte ideológico que a informação coloca em risco! A verdade é que cada vez entendo menos.

Nesta situação a que chegamos tudo é possível. A repressão, no pior estilo da Primavera Negra de 2003; as espaldas arrebentando a porta; a continuação da campanha de difamação, que cada vez tem menos efeito… Isso e muito mais. O que não vai ocorrer é que, ante o medo e a pressão, deixemos de fazer jornalismo. Há 14ymedio para já, então é melhor que vão se acostumando a viver conosco.

Tradução por Humberto Sisley