Informar é o de menos

YOANI SÁNCHEZ, La Habana | 12/08/2014

El Gran Hermano se erige en juez de la "objetividad" periodística.

Faz alguns anos conheci um correspondente estrangeiro radicado em Cuba que contava uma história absurda e reveladora. O Centro de Imprensa Internacional (CPI) o havia chamado para admoestá-lo sobre o conteúdo de um artigo. Ao receber a citação não se surpreendeu, pois tais chamadas de advertência são prática habitual dessa entidade encarregada do registro e controle dos jornalistas estrangeiros que vivem na Ilha. Tampouco podia se negar a comparecer, pois da CPI depende a expedição de credenciais para fazer de uma reportagem numa reserva natural até uma entrevista com um ministro. Sendo assim, lá foi.

O jornalista chegou ao edifício da central Rua 23, onde fica o CPI, e foi conduzido a um escritório com dois homens de semblante fechado. Depois de lhe servirem um café e falarem de outros temas, passaram ao cerne da questão. Reprovavam uma reportagem do jornalista onde havia citado Cuba como “a Ilha comunista”. A surpresa do correspondente foi enorme, pois os chamados de atenção anteriores que havia recebido eram por “reportar só mal da realidade cubana” ou “não tratar com respeito os líderes da Revolução”, porém nunca imaginou que desta vez iriam reclamar por exatamente o contrário.

De fato, os censores que lêem minuciosamente os artigos redigidos pelas agências estrangeiras, não haviam gostado nada do uso do adjetivo “comunista” para caracterizar o nosso país. “Mas aqui o Partido Comunista governa, não é verdade?”, o repórter perguntou incrédulo. “Sim, porém tu sabes que essa palavra sabe mal, não nos ajuda”, respondeu-lhe o funcionário mais graduado. O homem ficou boquiaberto por uns segundos enquanto tentava compreender o que lhe diziam e encontrar uma resposta que não fosse uma sonora gargalhada.

O correspondente sabia que incomodar o CPI podia trazer mais do que um simples puxão de orelhas. Nas mãos dessa instituição estão também as permissões para que os jornalistas estrangeiros possam importar um automóvel, alugar uma casa e – naquele momento – até comprar um condicionador de ar para sua casa. O dilema que tinha como informador era ceder e não voltar a escrever “a ilha comunista” ou entrar em conflito com a instituição onde tinha tudo a perder.

Os mecanismos de controle sobre a imprensa estrangeira vão mais além dos chamados de atenção do CPI. Basta que um correspondente se case na ilha, crie uma família nesta terra, para que sua objetividade passe a estar em dúvida. Os órgãos de inteligência sabem como manipular as cordas do medo que causam o dano ou a pressão sobre um ente querido. Dessa maneira conseguem temperar o nível de crítica desses correspondentes “amansados” em Cuba. As prebendas constituem também um estímulo poderoso para certos temas espinhosos não serem tocados em seus artigos.

Conheço uma jornalista estrangeira que cada vez que exibe uma nota de imprensa sobre a dissidência cubana, acrescenta um parágrafo onde esclarece que “o Governo considera esta oposição criada e assalariada por Washington”… Contudo, em seus textos falta uma frase que poderia mostrar outro ponto de vista aos leitores e que se resume em comunicar que “a dissidência cubana considera o Governo da Ilha como uma ditadura totalitária que não se submeteu ao escrutínio das urnas”. Dessa maneira os que consultassem a nota jornalística poderiam tirar suas próprias conclusões. Lamentavelmente o objetivo dos correspondentes como ela não é informar, mas sim impor uma matriz de opinião tão estereotipada como falsa.

As agências de imprensa precisam reforçar e revisar seus códigos éticos assiduamente quando se trata de Cuba. Deveriam regular o tempo de estadia dos seus representantes na Ilha, porque quando passam longos anos aqui criam laços afetivos que podem se converter em alvo de chantagens e pressões por parte do oficialismo. Um exame de objetividade – de vez em quando – não cairia nada mal, dada a possível coação ou síndrome de Estocolmo que poderiam ser sofridas por seus empregados. A credibilidade de um gigante da informação depende, ocasionalmente, de um individuo que valoriza mais o novo automóvel importado ou a sua jovem e bela companheira cubana, que o compromisso com o jornalismo.

Cuidado agências de imprensa estrangeiras! Seus representantes nestas terras sempre estão em risco de se converterem em reféns, primeiro, e depois em colaboradores do oficialismo.

Tradução por Humberto Sisley

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