Pinos de boliche, caramelos e perigos

La Habana | 12/07/2014

Putin y Castro en la televisión cubana. (14ymedio)

“Estes são os últimos caramelos!”. O grito podia ser um simples pregão de um vendedor de guloseimas, porém o escutei faz vinte anos no meu pré-universitário no campo e foi à primeira evidência que tive do colapso da União Soviética. A que vociferava era a Olga, uma estudante que revendia o que lhe era dado pelas esposas dos técnicos russos radicados em Alamar. Ela era o elo entre nosso dinheiro cubano, cada vez mais desvalorizado, e uma série de produtos como doces e latas de conservas “Made in URRS”. Guardo esta adolescente na memória como um Tiresias cego, que nos antecipou o adeus “aos bolos” e nos advertia sobre o corte de suprimentos.

A velha relação com o Kremlin volta à memória nacional nestes dias em que Vladimir Putin visita Cuba. Vemos a delegação oficial na televisão nacional, com seu aspecto empresarial, de colarinho e gravata, que já não fala do marxismo-leninismo nem da ditadura do proletariado. Parecem diferentes, mas são tão iguais. O mesmo olhar de cima que uma vez tiveram quando sabiam que nossa Ilha era apenas mais uma pequena ficha no jogo do poder. Vem em busca de alianças para definir os contornos desses blocos que se recompõem – ante nossos olhos – num novo regresso da Guerra Fria. Estamos a um passo de voltar a nossa velha condição de satélite, diminuídos frente ao poder de Moscou, seu petróleo, o perdão da dívida que acaba de nos outorgar.

Nem um só comentarista oficial fez alusão ao perigo que permeia este aproximação nem a necessidade que o governo russo tem de utilizar a América Latina como “plataforma de lançamento” diplomático contra os Estados Unidos, seu velho inimigo. Em meio a esta renovada confrontação entre grandes, nós ficamos presos como uma parte descartável e negociável, chegado o momento. O risco é tal que volto a lembrar da Olga e dos últimos caramelos soviéticos que nos ofereceu naquele albergue. Aqueles doces em extinção prediziam um final, estas guloseimas que são anunciadas hoje, como um novo aeroporto e possíveis inversões russas no Porto de Mariel, comprometem nosso futuro. Não precisa ser cego nem Tiresias para se dar conta.

Tradução por Humberto Sisley

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