Como Chipre é longe !

YOANI SÁNCHEZ, La Habana | 03/07/2014

Ontem num ônibus, no calor do verão e na longa espera prévia da parada, dois homens comentavam o seu incômodo em voz alta. “Estou certo que não acontece em Chipre!”, dizia um para o outro e uma gargalhada percorreu o ônibus. Referia-se a um monólogo do humorista Nelson Gudín que se converteu num fenômeno viral nas redes alternativas de distribuição de audiovisuais. O ator encarna um bêbado que se queixa, entre outros muitos absurdos, do espaço que a mídia nacional utiliza para contar os problemas de outras nações, enquanto silenciam os nossos. A velha técnica do “cisco no olho alheio…” que constitui um dos pilares da imprensa oficial cubana.

O desemprego, a corrupção, os enfeites econômicos e o mal estar social… Em Chipre foram, em várias ocasiões, tema de debate e análise por vários participantes do Mesa Redonda. Para sustentar o axioma de que “lá fora é o inferno e aqui o paraíso”, o impopular programa televisivo deu ênfase especial às dificuldades atravessadas por este estado membro da União Européia. Dedicou-lhe tanto tempo e tantas reflexões que o personagem interpretado por Gudín acaba se perguntando: “Ah… Eu não sabia que nós vivíamos em Chipre?” A frase sarcástica quase passou a ser uma divisa em nossas ruas.

Basta que um funcionário atrase um trâmite para que uma voz irônica se ouça: “Este, com certeza, vem de Chipre”. Aquela senhora que ficou sem trabalho devido aos ajustes econômicos “na melhor hipótese é cipriota”, afirmam seus conhecidos com malícia. Nem falar das prateleiras vazias pelo desabastecimento que “não deve ser em Havana, mas sim em Nicósia”, como afirmava uma cliente frustrada faz uns dias. “Neste ritmo vamos conhecer mais sobre os antagonismos entre gregos e turcos que sobre nossos próprios problemas nacionais”, também afirmava um professor universitário frente aos seus alunos.

Por obra e graça dos ideólogos do jornalismo oficial, nossas preocupações principais já não têm o formato de uma Ilha do Caribe, mas sim dessa outra em um ponto longínquo do Mediterrâneo e onde todos os problemas se concentram.

Tradução por Humberto Sisley

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