Território livre do Skype

Um artigo se somou a saga contra as TICs mantida pela imprensa oficial. Na quinta-feira passada uma reportagem contra a fraude eletrônica deixou muitos leitores de Juventud Rebelde com a sensação de que os celulares são uma fonte infinita de problemas. A explosão de acusações sobre planos desestabilizadores que chegam por SMS e os colapsos das redes provocados por manchetes que viajam de um celular para outro, agora se soma “o lucro pessoal” dos que fazem truques para pagar menos por uma chamada ou por uma mensagem de texto para o exterior.

Todo delito de fraude ou desfalque é condenável, legal e moralmente. Contudo, o contexto em que são cometidas estas infrações deve ser levado em conta. Vivemos sob um monopólio estatal – e absoluto – das telecomunicações. A única empresa de telefonia do país, ETECSA, não tem concorrentes no seu ramo e, portanto, fixa os preços muito acima das tarifas habituais no resto do mundo. Um minuto de chamada para o exterior chega a custar ao redor de duas jornadas de um salário mediano. Com uma população emigrada tão numerosa é fácil imaginar as necessidades de comunicação com o resto do mundo que temos na Ilha.

A isso se soma o limitado e escasso acesso a Internet. Sem contar com as novas facilidades de serviços como o Skype, muitos tem preferido recorrer a práticas fraudulentas a renunciar ao chamado para outros lugares do mundo. Penalizar os infratores que fizeram truque como o chamado bypass de voz não resolverá o problema. Não me imagino como uma senhora passada dos sessenta, com um filho emigrado, arriscando-se a ser multada por fraude telefônica quando poderia pagar apenas alguns centavos chamando via internet. Empurrar uma população ao delito, para depois condená-la por levá-lo a cabo, parece-me – pelo menos – puro cinismo.

Tradução por Humberto Sisley

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O “drone” de Miguel

Ninguém sabe como entrou com ele, com tantas restrições alfandegárias e paranóia governamental, mas Miguel tem um drone. Pequenino, parecido com um brinquedo de crianças e com câmera incluída. Em seus momentos de ócio este havanero de quarenta anos se dedica a explorar os pátios próximos e os terraços dos vizinhos com seu novo entretenimento. De tão diminuto apenas se nota quando sobrevoa o bairro, enquanto transmite imagens e vídeos para uma tela na casa do seu orgulhoso proprietário.

Agora é uma travessura, porém se Miguel e seu divertimento forem descobertos, algum dia, na melhor hipótese aparecerá na televisão oficial como “agente da CIA”. Nunca se sabe. Um tio seu de setenta anos foi detido na Rua por carregar um gravador de fita que pertencia ao jornal oficial onde trabalhava. Passou longas horas numa delegacia de polícia até que o próprio diretor do jornal teve que interceder por ele. O tempo voou e agora os objetos “do medo” são outros, porém as represálias soem serem as mesmas.

De qualquer maneira, além do presumível castigo, Miguel já averiguou algumas coisas importantes. Viu a piscina escondida por trás do muro alto do coronel seu vizinho, a antena parabólica que um ex-ministro tem no terraço da sua residência e até a carne que transborda do prato do rottweiler de um pintor que vive na esquina. Também observou, com a visão noturna do seu artefato, o homem que a cada madrugada mergulha no latão de lixo e sai com seus “tesouros” debaixo do braço. O segurança que dedica tempo para abrir os recipientes do armazém para roubar, sem que fiquem marcas no selo de segurança. Numa madrugada até captou o presidente do CDR traficando álcool de um hospital muito próximo.

Miguel está olhando Cuba do ar, através dos olhos do seu drone, e o que está vendo é um país partido em pedaços que não encaixam.

Tradução por Humberto Sisley

Alfredo Guevara em suas próprias palavras

Numa entrevista recente publicada na revista Letras Libres, Alfredo Guevara revelou o seu estado de ânimo meses antes da sua morte. O encontro, conseguido por intermédio do diretor de cinema Arturo Sotto, nos aproxima de um homem consciente de estar passando pela última etapa da sua vida. Suas palavras tentam buscar ou dar um sentido a sua existência, justificar alguns erros e exaltar certas conquistas.

Cáustico, porém cuidadoso, Guevara se aventura em temas do passado como as divisões no Movimento 26 de Julho e o enfrentamento com as forças do Partido Socialista Popular. Entre uma e outra piada vai desvelando – talvez sem o sugerir – detalhes de um poder formado em meio a traições e rivalidades. A cena de uma Célia Sánchez, que vivia com Fidel Castro numa casa do Vedado, pedindo a Guevara que tirasse “com chutes na bunda” os comunistas do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica (ICAIC), resvala nas palavras, sai como mais uma história.

A leitura desta entrevista me transportou imediatamente a uma manhã de domingo do ano de 2013 quando recebi um telefonema. Avisava-me de uma ocorrência policial na casa do recém falecido Alfredo Guevara. Durante a madrugada haviam chegado vários automóveis da policia e um mini ônibus do Departamento Técnico de Investigação (DTI), por uma suposta denúncia de tráfico de obras de arte. Na casa só estava a mulher que fazia o trabalho doméstico e um ancião aparentado longe com Guevara.

Poucos minutos depois de receber a notícia fomos verificar o que ocorria. Uns homens fornidos, alguns uniformizados e uma senhora que podia apenas articular palavras por medo, formavam a cena que vimos quando abriram a porta da mansão em uns centímetros. Com o velho truque de que procurávamos um “pedreiro”, tocamos a campainha e pudemos confirmar que alguma coisa muito grave estava sucedendo no interior. A notícia correu rapidamente e as vozes oficiais se apressaram a explicar o caso como um desfalque no patrimônio cultural da nação. Contudo muitos de nós não nos convencemos com a história.

Pelo testemunho dos que presenciaram o registro policial, soubemos que os agentes da ordem deram uma ênfase especial na busca de documentos. Esmeraram-se em desmontar tetos falsos, tatear debaixo dos colchões, explorar gavetas e arquivos com papéis. Estariam procurando algum documento ou escrito guardado por Alfredo Guevara? Fiz a pergunta a mim mesma milhares de vezes naquele dia. A entrevista dada a revista mexicana Letras Libres vem confirmar algumas das minhas suspeitas.

Estamos frente a um homem com ânsias de transcendência e com informação valiosa em suas mãos. Um ancião que é capaz de mostrar a re-escritura feita na história para fazê-la parecer mais heróica e mais sublime. Quando se refere ao livro de memórias de Fidel Castro – Guerrilheiro do tempo – conclui: “penso que ele tem a sua versão e eu tenho a minha; porém não quero nenhuma contradição. Quero ser muito cuidadoso, eu tenho medo…”. Um homem assim, muito provavelmente, guardava evidências de como as coisas realmente ocorreram. Revela algumas delas na excelente entrevista de Letras Libres.

Contudo, a maior das provas que Alfredo Guevara nos deixa não é uma foto, nem uma folha de papel escrita e assinada de próprio punho por alguém ou muito menos um documento oficial tirado de algum arquivo obscuro. Seu testemunho principal é a decepção percebida nas suas palavras, o toque amargo da sua ponderação, a lucidez final de não ter a ciência exata de saber se a história o absolverá ou o condenará.

Tradução por Humberto Sisley

Como se chama a tua rede?

El abrazo de la tecnología. (14ymedio)

Encontram-se numa esquina com a fisionomia marcada pela insônia e com as calças quase caindo nos joelhos. Têm menos de vinte anos e passaram a noite entretidos com a trama de um videojogo. Ao se cumprimentarem já não dizem um simples e popular “qué volá?” * nem murmuram um grunhido, falam mesmo na língua que melhor compreendem: “Como se chama a tua rede?” – diz o mais alto ao outro. “Bad Team” é a resposta que fica flutuando no ar.

Com essa simples troca os dois jovens se apresentaram e exibiram as credenciais que mais lhes importa no momento. Disseram-se o medular: o nome para se encontrarem no novelo de conexões sem fio que vai se tecendo sobre a cidade. Apesar das incursões policiais e dos altos preços de um roteador ou APN no mercado ilegal, as redes informatizadas proliferam. Servem de substituto a Internet ausente. Através delas se movimentam jogos, documentários, atualizações para sistemas operacionais, software pirata, revistas em formato PDF, música, vídeo-clips e a publicidade incipiente do setor privado.

“Isto ninguém para” diz um adolescente de dedos alongados e ágeis, talvez por tanta prática do mouse e teclado. É um dos criadores de uma rede extensa que sai de Havana Del Este, mete-se pelas vielas de Centro Havana e chega – com seus tentáculos digitais – no ponto certo de San Miguel Del Padrón. Quando uma ofensiva policial cai sobre uma parte para confiscar antenas e acessórios, logo percebem. “Começamos a notar que perdemos os usuários, que desconectam… E isso nos mostra que algo está ocorrendo”. Uma cumplicidade virtual os une.

O Governo tem razão em estar preocupado, estes jovens já estão vivendo no futuro.

Nota do tradutor: *equivalente cubano a: “e aí?”

Tradução por Humberto Sisley

Colheita de tempestades

Hoje, enquanto publico este texto, milhares de estudantes de Havana estão sentados frente a sua prova de matemática. O cronograma de ingresso na Universidade incorporou esta nova chamada depois de um escandaloso caso de fraude. O vazamento e a venda das questões acabaram por anular a prova anterior, três professores foram detidos e um número incerto de alunos investigados.

Mesmo que a prática fraudulenta seja comum nas escolas cubanas, este caso provocou uma profunda reflexão na sociedade, inclusive nos meios oficiais de comunicação. Temos visto na telinha dezenas de entrevistas de gente que repudia a falsidade de colar e a mentira da apropriação de conhecimentos. Todas as pessoas consultadas dizem ser contra semelhante fraude. Poucas, ou nenhuma, refletem sobre o ambiente de hipocrisias, duplicidades e simulações em que estes adolescentes, que agora têm entre dezesseis e dezessete anos, cresceram.

Esta fornada de alunos, justamente, foi educada sob alguns experimentos educacionais como os chamados professores emergentes. Há maior fraude que ter alguém em sala dizendo ser professor sem possuir os valores éticos nem os conhecimentos para exercer tão digna profissão? Como pedir-lhes honestidade se a tela da televisão por meio das quais receberam suas aulas, jamais conseguiu lhes transmitir códigos morais adequados? Estes rapazes que agora enfrentam uma prova de matemática são filhos diretos da minha geração, rodeada de resultados acadêmicos artificiais e de qualificações exageradas.

Vale a pena lembrar que durante décadas as escolas e os professores não conseguiram que suas turmas estivessem acima dos noventa pontos ou perto dos cem, eram questionados, tiravam-lhes a emulação e até recebiam sanções administrativas e materiais. Era a época em que todos deviam aprovar de qualquer maneira. Nesses tempos Fidel Castro lia da tribuna os resultados acadêmicos dos pré-universitários com altas notas, sabendo – em seu foro íntimo – que aquilo era uma grande mentira criada para ele.

Tornou-se freqüente que os professores ditassem as perguntas da prova com antecedência, passassem pela carteira dos que se demoravam mais para “soprar” as respostas, ou – simplesmente – saíssem da sala deixando os alunos sozinhos para que pudessem copiar as respostas uns dos outros. Para quem estudava com afinco sempre foi muito frustrante a cumplicidade de tantos professores e técnicos em educação com a prática da fraude acadêmica. Nós somos os pais desta geração que hoje é avaliada nas aulas havaneiras. Como poderiam ser diferentes? Como vamos pedir-lhes que não façam o que tanto viram ser feito?

Tradução por Humberto Sisley

Para sonhar mais alto

Já não lembro o título daquele filme, nem do diretor, nem sequer se o vi numa sala de cinema ou na tela de uma televisão. Só ficou uma cena, um momento curto no qual o protagonista tira o agasalho e dá para um amigo. Este acabava de lhe confessar que aquele presente, moderno e de couro, era o seu sonho. “Que tenhas sonhos maiores” disse-lhe enquanto entregava o objeto dos seus desejos.

Quando se realiza um projeto desejado por muito tempo, vem a sensação de que devemos nos traçar novas metas. 14ymedio.com tem sido minha obsessão por mais de quatro anos. Senti primeiro a necessidade de que nascesse contribuindo com sua informação para que os cubanos decidissem com maturidade seu próprio destino. Mais tarde chegou a pergunta de como consegui-lo e a partir daí traçar um cronograma tão necessário como difícil de ser cumprido.

Também veio uma longa etapa em que meus amigos me escutavam falar do tema e riam-se entre dentes. “A louca do jornal” mais de um haverá me alcunhado. A parte mais difícil, contudo, foi – e continuará sendo – dar vida real a esta fantasia. Os tropeços foram inumeráveis. Desde os impostos por um poder que vê um gesto de traição na informação, até enfrentar o ceticismo de alguns amigos. Porém as obsessões são assim, não tendem a se deixar vencer tão facilmente.

Hoje, realizei um sonho. Diferentemente daquele personagem do filme não é um presente de roupa, mas sim um espaço jornalístico no qual sou acompanhada por numerosos colegas. Nasce com o desejo de chegar a muitos leitores dentro e fora de Cuba, de oferecer um espectro completo de notícias, colunas de opinião e dados sobre a realidade da nossa Ilha. Dará muito trabalho, sem dúvida. Cresceremos pouco a pouco, cuidando de que a realidade acompanhe cada conteúdo publicado.

Agora já posso sonhar mais alto: em um ano talvez estejamos na banca da esquina. Quem sabe?

Tradução por Humberto Sisley

Ah… Tu não vens “no pacote”

Taxi colectivo

Pegar um táxi coletivo ao meio dia com a carroceria quente pelo sol e berrando em cada buraco é uma experiência que comove. Baixa-se a cabeça, apequena-se para poder sentar nos assentos improvisados. Fiapos da saia ou da calça pendurados num parafuso mal colocado, de uma ponta metálica que não deu tempo de bolear. Então chega a prova mais dura: compartilhar o gosto musical do chofer que se impõe em golpes de decibéis. Mas também é uma experiência psicológica singular, uma olhada jornalística que leva a refletir sobre esta realidade peculiar que habitamos.

Faz dias abordei um desses velhos “batiscafos” que rodam por Havana. Autêntico ferro velho, porém com os poderosos alto falantes de uma discoteca. O reggaetón ensurdecia. A maior parte das letras era sexista… Previsíveis, até que tocou uma que me fez pensar. O cantor ria-se de alguém e espetava: “ah… Tu não vens no pacote”. Duravam só alguns segundos. “ah… Tu não vens no pacote…”, porém eram suficientes. Referia-se talvez a outro músico ou artista que não aparecia na compilação dos chamados “combos”, seleções de audiovisuais distribuídos de modo alternativo e abominados pelo governo.

O que já chama a atenção no repertório popular: ficar fora do “pacote” rebaixa qualquer um ao último escalão de popularidade. Se determinado vídeo clip, documentário ou filme não estão incluídos nestas compilações isso é sinal da sua baixa notoriedade. O mais significativo é que quando as pessoas podem fazer sua própria “programação televisiva” neste gigabytes de telenovelas, documentários ou musicais… Nunca inclui os espaços oficiais. Ou seja, poder-se-ia lançar à Mesa Redonda* o ácido estribilho: “ah… Tu não vens no pacote”, como também ao noticiário principal, aos atos políticos e a quanto discurso ou declaração governamental transmitida pelos canais nacionais.

A voz do partido Comunista de Cuba ficou fora do “pacote”… Por ser chata, insossa  e repetitiva… E ter pouca credibilidade.

*Mesa Redonda: Tedioso programa de entrevistas da TV estatal.

Tradução por Humberto Sisley