Carnet ou passaporte

Foto: Silvia Corbelle

O bairro todo o chama pelo peculiar apelido herdado do seu avô basco. Vertical em questões ideológicas, sempre deixou claro que era um “homem da causa”. Reunião atrás de reunião, informe atrás de informe, denúncia atrás de denúncia, poucos o superavam nas provas de fé ao sistema. Também se caracterizava pelo rosto sombrio frente aos inconformados e o abraço ágil para os que compartilhavam da sua ideologia. Foi assim até uma semana.

A árvore genealógica deu frutos e o combativo homem acaba de tirar seu passaporte espanhol. No seu núcleo do Partido Comunista lhe deram a escolha: a nacionalidade estrangeira ou continuar militando nessa organização. Fiel, porém sem ser tonto, optou pela primeira. Desde apenas uns dias estréia sua nova vida sem carnet nem estatutos. E já começou a dar umas piscadelas para os dissidentes da vizinhança: “Tu sabes que sempre poderás contar comigo” insinuou-se ontem a um a quem vigiava até a pouco.

Organização partidária curiosa que se pavoneia de exercer a solidariedade internacionalista, porém não quer em suas fileiras comunistas com duas nacionalidades. Pelo menos a visão estreita está ajudando a conversão de certos extremistas em “estrangeiros mansos”. Dada a rapidez com que mudam, fica a pergunta se antes acreditavam no que faziam ou eram simples oportunistas. Talvez ao preferirem um passaporte comunitário só estejam escolhendo outra máscara, um novo tom para sua pele camaleônica.

Tradução por Humberto Sisley

 

Um dia sem os trabalhadores por conta própria

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    O sonho da razão produz monstros.                                                                                                                   Francisco de Goya

O dia começou com certa atmosfera de pesadelo. O cafezinho da manhã faltou porque o vendedor com a garrafa térmica e os copinhos de papelão não estava na esquina. Arrastando os pés caminhou então até a parada de ônibus enquanto prestava atenção se chegava algum táxi coletivo. Nada. Nem um velho Chevrolet vinha pela avenida, nem as engenhosas caminhonetes que têm capacidade para até doze passageiros eram vistas no lugar. Após uma hora de espera conseguiu subir ao ônibus irritado pela falta de um cartucho de amendoim para aplacar “o cão” que ladrava em seu estômago.

Não fez quase nada em sua jornada de trabalho. A diretora não conseguiu chegar por que a mulher que cuidava de sua menina se ausentou. Outro tanto aconteceu com o administrador que teve um pneu do Lada estourado e, para cúmulo,  a borracharia do seu bairro amanheceu fechada. No intervalo do almoço as bandejas de comida tinham apenas o próprio peso de tão vazias. O carroceiro que oferecia os vegetais e os alimentos com que se incrementa o almoço não havia passado. O chefe de relações públicas tinha um ataque de nervos, pois não pôde imprimir as fotos que precisava para um visto. Na porta do estúdio mais próximo um cartaz de “não abrimos hoje” tinha arruinado seus planos de viagem.

Decidiu regressar a pé até em casa para evitar a espera. O filho lhe perguntou por algo para merendar, porém o padeiro não havia aparecido com seu pregão estridente. Tampouco o quiosque de pizzas funcionava e uma incursão pelo mercado agrícola lhe retornou apenas prateleiras vazias. Cozinhou o pouco que encontrou e para esfregar usou um pedaço de camisa velha devido à ausência dos comerciantes que vendiam escovas. Para cúmulo o ventilador não quis ligar e o consertador de eletrodomésticos não havia aparecido na oficina.

Encostou-se num charco de suor e desconforto, desejando que ao despertar estivessem de volta estas figuras que sustentavam sua vida: os trabalhadores por conta própria, sem os quais seus dias são uma sequencia de privações e desgostos.

Traduzido por Humberto Sisley

E tu, filho, não te destaques

Foto: Silvia Corbelle

Preparavas a bolsa para a escola enquanto ouvias a cantilena da tua mãe: “Não te metas em nada porque depois te envolvem num montão de coisas”, gritava-te da cozinha. Desse modo ias para o turno matutino da escola recolhido em ti para que não te vissem. Soava o toque para as aulas e lá estava a professora de história com sua versão maniqueísta do passado. Sabias que não era como ela contava porque havias lido outras versões nos livros do teu avô, porém te calavas… Para não enfrentares problemas.

A voz se tornou grossa e já eras soldado no serviço militar obrigatório. Tinhas aprendido a lição de sobrevivência. Foi assim quando o oficial vociferou e pediu maior dedicação, repetiste mentalmente “melhor não se fazer notar”. Passar indene, não te implicar e evitar que te percebessem eram tuas premissas nessa idade. Não deste uma idéia, não sugeriste nenhuma mudança e teus chefes só tiraram da tua boca um estudado: ordene! Depois chegaste a universidade onde o objetivo foi obter diploma, graduar-te sem te meter em complicações.

Nasceram teus filhos e desde pequenos lhes lês a cartilha da simulação. “para ver se não se destacam porque isso só traz complicação”, aconselha-os desde que possam te entender. Com essa atuação prolongas o ciclo da simulação em tua prole, como uma vez teus pais fizeram contigo.

Contudo, não saíste ileso. Não eras o patife que conseguiu enganar os outros, mas sim enganaste a ti mesmo. De tanto te conteres, enfeitar tuas expressões e evitar te pronunciares te converteste no homem medíocre que és hoje, num ser domesticado pelo sistema.

Tradução por Humberto Sisley

Cosita

Foto: Silvia Corbelle

Saiu de Banes numa manhã quente e poeirenta. Com uma roupa de baixo e o endereço de seus parentes em Havana na bolsa. Quando o trem chegou à Estação Central Cosita respirou fundo e encheu os pulmões desse cheiro de petróleo queimado típico da capital. “Estou na placa*” disse a si mesma com sensação de vitória. Passariam seis meses e voltaria aquele lugar com uma advertência policial e uma peça de máquina de lavar roupas para embarcar com ela no trem.

Cosita instalou-se na sala da prima e começou a catar garrafas plásticas e pedaços de nylon nos latões de lixo mais próximos. Fazia flores artificiais com eles os quais vendia para comer e “dar algum” aos parentes de Havana. Fez uma pesquisa no bairro procurando homens solteiros – mesmo que fossem mais velhos – aos que se oferecia como “uma mulher limpa, que faz de tudo numa casa” porém não conseguiu nenhum compromisso. Sabia que tinha os dias contados até que a polícia a detivesse na rua e descobrisse que ela era uma ilegal. Uma “palestina” a mais, como muitos residentes da capital denominam as pessoas do oriente do país.

Capturaram-na numa tarde chuvosa e cinzenta quando vendia suas flores nas cercanias de um mercado agrícola. Impuseram-lhe uma multa por atividade econômica ilícita e lhe advertiram que tinha 72 horas para abandonar a capital. Todavia Cosita não podia ir. Havia conseguido que a presenteassem com a metade de uma lavadora Aurika e não tinha transporte para levá-la. Um vizinho também lhe deu um velho armário para meninos, sem portas nem gavetas. Eram todas as propriedades materiais conseguidas durante sua aventura em Havana e não iria deixá-las para trás.

Os caminhoneiros pediam muito para transportar seus “tesouros” até Banes. Já não podia vender seus adornos de nylon e os parentes que a haviam acolhido temiam uma nova multa por ter uma ilegal em casa. Cosita partiu numa noite fria de dezembro com seu pedaço de lavadora e o bolso tão vazio como quando chegou. O armário ficou abandonado no corredor e alguém usou suas tábuas para tapar uma janela por onde a chuva entrava. A madeira do cabide substituiu o da escova quebrada e os pregos foram reutilizados numa cadeira.

Cosita, em Banes, sonha em regressar a Havana. Conta aos amigos sobre seus dias na “capital de todos os cubanos” e sublima aquele “móvel para meninos de boa madeira” que conseguirá trazer algum dia – como troféu – até seu povoado.

*Placa: uma das formas populares de se referir a Havana

Tradução por Humberto Sisley

Uns dias com Nauta

“Longa é a fila, mas anda rápido” alguém me disse nas cercanias de um escritório da Cubacel. Depois de uma hora e vários gritos do segurança contra quem nos amontoávamos na porta consegui entrar. A funcionária tem cara de sono e me adverte que só é aberto o correio eletrônico Nauta, porém que “de nenhum modo se configura a conta num celular”. Provoco-a um pouco: “não importa, eu sei fazê-lo, já baixei o manual da Internet”. A espetadela funciona porque me pergunta curiosa: “Ah, sim… Poderias ajudar uma amiga minha que não sabe com fazê-lo?”.

Não se surpreenda leitor, estamos em Cuba onde o restritivo e o caótico se misturam. Onde a mesma entidade que deveria ajudar seus clientes acaba por pedir assistência a estes. Assim sendo ajudei a amiga na ativação do e-mail.

Depois da confiança ganhada passei a tirar um pouco de informação da insípida senhora. “Certo é que também ofereceram Internet nos celulares”, deixo sair como um comentário a mais. Um estalo da língua e um “não te iludas” chegam da escrivaninha. Então arremeto: “Bom, se isto é pelo cabo venezuelano imagino que ampliaram o serviço”. Aí foi quando a funcionária insinuou “esse cabo é para outra coisa”, enquanto colocava o dedo indicador no olho significando “vigilância”.

Vou para casa tropeçando a cada passo por olhar a tela do celular e o conteúdo das novas mensagens. A primeira coisa que faço é escrever para vários amigos e familiares lhes advertindo: “este correio eletrônico @nauta.cu não é confiável nem seguro, porém…” E a seguir uma longa lista de idéias para a utilidade de uma caixa de correio carente de privacidade mas que posso revisar a qualquer hora do meu próprio celular. Peço a vários conhecidos que me inscrevam em serviços de notícias nacionais e internacionais por e-mail. Passada apenas uma hora um aluvião de informações e colunas de opinião engordavam minha caixa de entrada.

Passo os próximos dias buscando as nuances do serviço, seus limites e potencialidades. Concluo que para enviar fotos é muito mais barato que o anterior caminho do MMS. Antes, a única possibilidade consistia em mandar uma imagem pagando 2.30 CUC (2 USD) e com uma eventual lentidão desesperadora. Agora se pode atualizar tanto o Flickr, TwiPic como o Facebook através do serviço de publicação por correio eletrônico despendendo 0,01 CUC por cada kilobyte subido. Uma foto media para a web não supera os 100kb.

Entre suas potencialidades também ressalta a possibilidade de se manter um fluxo de longos textos – além dos 160 caracteres de um SMS – com usuários da Cubacel que já tenham ativado o serviço. Nas primeiras 48 horas consegui fazer cadeias de notícias para outros ativistas em vários locais de Cuba. Até agora todas as mensagens chegaram… Mesmo que o contrato do Nauta mantenha a ameaça de interromper o serviço se forem realizadas destes “atividades (…) contra a independência e a soberania nacional”.

Além disso, fiz testes de várias províncias da efetividade da conexão GPRS, necessária para receber e enviar correios, Tanto em Havana, como Santiago de Cuba, Holguín, Camagüey e Matanzas pude me conectar sem grandes problemas. A não ser em alguns pontos da rodovia onde nem sequer há sinal para realizar chamadas o resto das tentativas ocorreu com êxito.

Nem todas as notícias são boas

Coincidentemente ao novo serviço de correio eletrônico dos celulares nota-se uma piora no envio de SMS. Centenas de mensagens que nos últimos dias não chegaram aos seus destinatários, ainda que prontamente cobradas pela empresa telefônica, apontam para censura ou o colapso das redes. Preferiria acreditar que se trata do último não fosse porque entre os mais prejudicados se encontram: ativistas, opositores, jornalistas independentes e demais cidadãos incômodos.

Por outro lado não devemos pecar por ingenuidade. Nauta tem o esboço de uma rede carnívora que engole informação e processa nossa correspondência com fins de vigilância. Muito provavelmente contem um filtro por palavras chave e observa minuto a minuto certas contas pessoais. Não descarto a publicação em meios oficiais do conteúdo de mensagens privadas que o governo estime conveniente. Tampouco o roubo de identidades para fazer danos ao prestígio de alguns clientes ou o uso da informação – como correios eletrônicos de publicação em redes sociais – para se fazer passar por eles.

Devemos ter em conta todas essas possibilidades ao usar este novo serviço, pois não existe independência alguma entre a empresa de telefonia e os órgãos de inteligência do país. De modo que cada palavra escrita, cada nome referido, cada opinião enviada usando Nauta poderia terminar nos arquivos da Segurança de Estado, então lhes facilitando o trabalho.

Depois de uma semana com Nauta minha impressão é que se trata de uma fissura que se abre. Pela qual podemos projetar a nossa voz, mas que também poderia nos abduzir. Imitação de web, internet deficiente, seu serviço fica muito longe do que exigimos como cidadãos do século XXI.

Não obstante sugiro utilizar esta nova possibilidade e pressionar seus limites, como te mos feito com as mensagens só de texto. Usado com cautela, porém com consciência cívica, este caminho pode nos ajudar a melhorar a qualidade e a quantidade da informação que recebemos e a nossa presença nas redes sociais. O próprio nome já o diz: se não nos deixam ser internautas… Pelo menos arrisquemos ser nautas.

Tradução por Humberto Sisley

Por que não quero ser federada ?

Foto: Silvia Corbelle

O congresso da federação das Mulheres Cubanas terminou há alguns dias. No encerramento um homem pronunciou as palavras finais. Porém este não foi o único, nem o último erro de cálculo de uma organização estagnada e marcada pela ideologia.

Depois de escutar as sessões no palácio das Convenções ratifico minha decisão de não ser federada. Por quê?

  • Repudio o tratamento de “presidente eterna” que é dado à figura de Vilma Espín, pois toda ostentação de perpetuidade num cargo me parece – pelo menos  – ridículo.
  • Não quero fazer parte de uma entidade cuja bandeira mostra um indivíduo uniformizado. Como não sou soldado não me vejo representada como uma miliciana com fuzil.
  • Não acredito numa organização feminina que tem como princípios a fidelidade a uma ideologia, a um partido e a um homem.
  • Suspeito que uma parte das 4 milhões de mulheres que compõem a FMC entrou em suas fileiras por puro automatismo, como um trâmite obrigatório pelo qual se passa uma vez feitos quatorze anos.
  • Desconfio de uma federação que se beneficia da falta de liberdade de associação que impede as cubanas de criarem outras organizações.
  • Conheço a dupla cara da FMC que diz repudiar a violência contra as mulheres, porém jamais condenou os atos de repúdio sofridos pelas Damas de Branco.
  • Reputo como ineficiente o trabalho de uma entidade que em 50 anos desde sua fundação não conseguiu que as mulheres chegassem a postos de poder onde realmente se tomam as decisões que afetam o país.
  • Estou cansada de que reduzam as mulheres – nestes congressos femininos – a seres preocupados com panelas e frigideiras, mambisas dispostas a entregar seus filhos como carne de canhão ou peças da engrenagem produtiva… Abnegadas, belas e obedientes.
  • Sou uma mulher do século XXI, não mostro meus ovários com vitimismo, mas sim com orgulho e não posso ser membro de uma organização que é a correia de transmissão do poder em relação às mulheres.
  • Quando for legal se associar por credos, afinidades, gêneros e outros tantos pontos de contato, aí sim estarei com minha progesterona e minhas demandas numa federação feminina verdadeira.

Tradução por Humberto Sisley

Desafios da imprensa cubana

“O diário não falava sobre você…” Canta Joaquín Sabina enquanto leio o jornal Granma. Como quase sempre uma efeméride na manchete de hoje. Uma homenagem a uma figura do passado, um lembrete, a frase que alguém disse faz quarenta ou cinqüenta anos. Todas as páginas têm esse fedor rançoso do jornalismo que não quer se aventurar no presente, que evita o hoje e o agora.

A imprensa oficial cubana não pode se reformular porque se suicidaria. Para informar sobre a realidade nacional teria que renunciar ao seu papel de propaganda ideológica. Não basta que mude o estilo dos seus sítios digitais, acrescente novas assinaturas em suas reportagens ou mantenha as cartas de leitores com denúncias sobre burocratas e corruptos. Deve ir mais além e se despojar dos compromissos políticos adquirindo a verdade com sua única obrigação. Porém isso… Isso sabemos que não pode fazer.

Espero mais da imprensa que está por surgir ou se consolidar do que um “novo jornalismo oficial”. Porém também estou consciente de que o trabalho informativo, precário e ilegal, feito pela sociedade civil deve melhorar. A informação não é trincheira nem arma de ninguém. Os acontecimentos não devem ser narrados a partir do que queremos, mas sim tal como ocorreram.

A variedade temática por sua parte não se mostra de nenhum modo contrária a defesa da liberdade nem dos direitos humanos. Existem muitas formas de dizer e dizer bem. Então devemos procurar modos de informar que nos façam chegar mais aos leitores do pátio*. Criatividade, atrevimento e diversidade de pontos de vista nos ajudariam a sermos melhores profissionais de imprensa. Vale à pena percorrer este caminho.

Da minha parte já estou dando os primeiros passos. A contagem regressiva para esse meio digital, que vem sendo preparado há quatro anos, começou. Um novo desafio profissional se avizinha, porém não será solitário, mas sim acompanhado por uma equipe de pessoas talentosas que querem fazer jornalismo com maiúsculas.

Nas próximas semanas este blog pessoal se transformará – frente aos vossos olhos – num veículo de IMPRENSA. Agradecemos as palavras de ânimo.

Tradução por Humberto Sisley