Medo da palavra

grito

São maus tempos para a palavra, dias cinzentos para um filólogo. O problema principal não é a abundância de expressões vulgares que até se tornam reveladoras numa análise linguística e sociológica. O mais triste é a diminuição da linguagem articulada, o medo de pronunciar vocábulos e o mutismo que se amplia. “Homem que é homem não fala tanto” disse-me um vendedor nesta manhã quando insisti em saber se os bolinhos eram de goiaba ou coco.

O que está acontecendo com a linguagem? Por que esta aversão a se expressar de modo coerente e com frases bem estruturadas? É muito preocupante a tendência ao monossílabo e a utilização de sinais substituindo orações com sujeito e predicado. Quem terá dito a tanta gente que conversar é sinal de fraqueza? Adjetivar indica frouxidão? O fenômeno acontece entre homens jovens, pois nos códigos machistas a loquacidade refuta a virilidade. A pancada, a expressão facial ou um simples murmúrio substituíram as conversas fluidas e os complementos de muitos enunciados.

“Eu é que não discuto…” Pavoneava-se um senhor ontem quando um adolescente tentava lhe dizer algo. Enquanto gritava isto agitava as mãos como que advertindo que no lugar de palavras ele preferia o código dos pescoções. O pior é que para a grande maioria que assistia a altercação aquele indivíduo estava fazendo o certo: não falar tanto e passar para a briga. Por que para muitos discutir é ceder, argumentar evidencia fraqueza, tratar de convencer é coisa de covardes. Ao invés disso preferem o grito e o insulto, talvez herdado de tanto discurso político agressivo. Optam pelo grunhido quase animal e a bofetada.

São maus tempos para a palavra, dias de festa para o silêncio.

Tradução por Humberto Sisley

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One thought on “Medo da palavra

  1. A Europa ontem e hoje
    O capitalismo e a democracia tinham falhado catastroficamente nos anos 30.
    Muitos acreditavam que estava na altura de experimentar uma coisa diferente, nova, uma Europa comunista. Estavam enganados quem assim pensava. Apesar da devastação moral e física provocada pela guerra, os partidos comunistas perderam por larga margem as primeiras eleições que se realizaram no após guerra, quer na Alemanha, Áustria, Hungria, na Polonia perderam o referendo imposto. Na Checoslováquia só obtiveram 1/3 dos votos. Nos restantes nem eleições se realizaram.
    Mas quando se tornou claro que os resultados seriam muito piores nas eleições subsequentes de 1948, os lideres dos partidos comunistas dos vários países, por pressão do poder soviético e com o apoio deste, tomaram o poder através de golpes de estado, não mais realizando eleições livres e democráticas. Constata-se que a adesão das populações, apesar das promessas dos amanhãs que cantam, foi de recusa ao modelo proposto e só através da sua imposição unilateral pela via da repressão e do medo conseguiu estender o seu braço armado por toda a Europa do Leste.
    Hoje confrontados com uma grave crise económica e social que em alguns aspetos tem algumas semelhanças, exceto a guerra, a lição que se pode tirar é que mesmo em situações dramáticas, como a que hoje se vive na europa, o modelo comunista não seduz as pessoas como forma de poder politico. Podemos hoje afirmar com toda a legitimidade que esse modelo fracassou, e quem ainda procura ressuscita-lo congelou ou quer mesmo impor uma nova ditadura, onde só exista um único partido político, um único sistema de ensino, um único credo artístico, uma economia de planificação central, uma comunicação social uniforme, um único código moral e onde pensamento crítico não exista.
    Com todos os defeitos que a democracia tem, e são vários, mesmo assim de momento não há alternativa credível a substituí-la. O caminho é longo pelo que compete aos cidadãos lutar e exigir para que seja mais aberta, mais participativa e critica, como torna-la mais representativa dos seus anseios.
    XikoRibeiro

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