O miligrama prodigioso

El miligramo prodigioso Imagen tomada de http://cvc.cervantes.es/actcult/arreola/confabulario/prodigioso.htm

Quando eu estava na escola secundaria duas das muitas palavras utilizadas para insultar me chocavam. Uma delas era auto-suficiente. Seus estigmas provinham daqueles processos de mea culpa para ingressar na União de Jovens Comunistas onde os aspirantes se criticavam mutuamente por não se comportarem – o tempo todo – como parte de um coletivo. Outro termo pejorativo era consciente, o qual naquele contexto indicava alguém muito intelectualizado, dado aos livros e aplicado nas questões docentes. Os bons alunos eram tachados de “conscientones” e sobre os líderes naturais que surgiam em cada grupo caía também à mancha da auto-suficiência. Melhor não se destacar e não se esforçar excessivamente… Aquelas desqualificações pareciam nos advertir.

Prestar culto a mediocridade individual gera sociedades medíocres. Vilipendiar os talentosos e os empreendedores atrasa o desenvolvimento de uma nação. O capital profissional não se constrói somente com títulos, licenciaturas e pós-graduações, mas deve surgir de uma população que venere o conhecimento. Torna-se imprescindível também que a inteligência não seja algo a ser escondido, quase com vergonha ou pudor. Todos somos cientistas e descobridores em potencial, necessitados de um ambiente onde nossas capacidades encontrem respeito. Um país de cientistas deve mostrar seus laboratórios e suas vacinas; porém também garantir que a gente comum possa patentear suas conquistas e obter recompensas – materiais e espirituais – por seu gênio.

Poderá haver em Cuba muitos graduados universitários, porém enquanto estes não encontrarem reconhecimento social verdadeiro, salarial e legal por seu trabalho, muito dificilmente poderemos nos chamar uma nação de ciência. Entristece que se ergam mais estátuas e se dediquem mais praças a pessoas que empunharam o facão ou as armas ao invés dos que salvaram vidas com seus microscópios e seringas. O miligrama prodigioso do saber requer um meio ambiente onde se multiplicar. Esse terreno fértil carrega a semente da educação, a irrigação de imaginar uma vida melhor por meio da descoberta científica e o imprescindível abono da liberdade.

*<<Uma formiga censurada pela leveza de suas cargas e por suas freqüentes distrações encontrou numa manhã, ao se desviar novamente do caminho, um miligrama prodigioso. >>Sem se deter na meditação das conseqüências do achado, pegou o miligrama e colocou-o nas costas. Certificou-se com alegria de uma carga justa para ela. O peso ideal daquele objeto dava uma estranha energia ao seu corpo; como o peso das asas no corpo dos pássaros>> Tirado de: “O miligrama prodigioso”, em Arreola, Juan José, Narrativa completa, México, Alfaguara, 1997)

* Obrigada a Universal Thinking Forum por me levar a esta reflexão… E muitas mais.

Tradução por Humberto Sisley

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