Quem vigiam?

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Seu próprio vizinho o vigia. Ninguém confirmou, não leu em nenhum informe e tampouco tem amigos policiais que lhe tenham advertido. Simplesmente não é tonto. Sempre que abre a cortina da sua casa uma cabeça assoma da porta ao lado. De cada cinco vezes que entra ou sai da sua moradia pelo menos em três encontra um ancião, vizinho do lado, fingindo que rega as plantas do corredor. Os vasos de plantas estão com excesso de água, porém o guardião improvisado continua regando mais e mais. Também faz perguntas, muitas perguntas sobre os temas os mais diversos: E… Onde comprastes isso que levas na bolsa? Faz pouco que tua sogra não te visita, não é? Dessa forma que tem seu delator particular, uma célula de inteligência – de apenas um membro – enfocada na sua existência.

No dia dos pais o vizinho informante passou sozinho. Nenhum dos seus filhos veio vê-lo para comemorarem juntos. A verdade é que nunca ninguém o visita, a não ser faz algum tempo, dois homens com cabelo estilo militar. Porque o ancião tem fama de ser alguém que nem a própria família suporta. Está “mais só que a batida de uma hora” dizem dele os outros residentes do lamentável edifício. No meio da tarde o vigiado bateu na porta do seu vigilante para presentear-lhe com um pedaço de bolo. “Para que proves, minhas filhas trouxeram”… Disse-lhe saboreando a vitória de sentir-se satisfeito e acompanhado. Um brilho rápido de culpa passou pelos olhos do abelhudo. Talvez a consciência, talvez. A noite já estava de volta a sua tarefa de observar quem saía e entrava da casa adjacente.

Numa fórmula não escrita, porém muito freqüente, a maioria das pessoas envolvidas na delação de outros cubanos também exibe uma grande frustração em sua vida pessoal. Não que cada desafortunado vá se converter num informante da Segurança do Estado, porém o fracasso é um caldo de cultura do qual se aproveitam os recrutadores de informantes. Com esses indivíduos formam uma tropa de choque disposta a destruir o outro. Nos bairros os mais estremados tendem a serem os que têm uma vida familiar e afetiva mais desastrosa. Não é uma regra… Fique claro… Porém como se repete!

Ao seu vizinho aposentado, ressentido e solitário deram a tarefa de vigiá-lo. Outorgaram-lhe poder sobre sua vida, uma ascendência que este desfruta e saboreia a cada dia. O poder de arruinar sorrisos, de redigir informes que algum dia leve para o cárcere este insuportável pai e marido feliz que vive do outro lado da parede.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

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