Três parâmetros, uma casa

Foto tomada de http://www.martinoticias.com/content/article/16994.html

Colocar zeros a direita parece ser o esporte preferido dos que hoje vendem casas em Cuba. Mercado cativo, enfim, o comprador poderá encontrar muitas surpresas no grande número de classificados. Desde proprietários que pedem por suas moradias somas astronômicas que não tem a ver com a realidade da demanda, até verdadeiras barganhas que dão pena frente tanta ingenuidade do negociador. Muitos com pressa de vender, alguns com faro apurado e percebendo que este é o momento de comprar uma casa na Ilha. É uma aposta de futuro, se der errado perdem quase tudo, porém se der certo ficam bem – por antecipação – com o amanhã. Os lentos se aperfeiçoam e os velozes correm na velocidade da luz. São tempos de ter pressa, o fim de uma era pode estar próximo… Asseguram os mais preparados.

Surpreende ver como os cubanos sem noções imobiliárias se lançam no comércio dos metros quadrados. Falam sobre seus espaços na maioria das vezes com uma abundância de adjetivos que inspiram graça ou temor. Desse modo que quando se lê “apartamento de um quarto em bairro central de Havana com quarto no piso intermediário” dever-se-á entender “quarto em casarão de Centro Havana com sótão de madeira”. Se falarem sobre jardim é melhor imaginar um canteiro com terra e plantas na entrada e até residências de cinco quartos depois de uma visita ficam reduzidas a dois quartos divididos por cartão prensado. A mesma desconfiança com que estas fotos são vistas nas redes sociais de gente agradável e jovem que busca parceiro deve ser aplicada aos anúncios de moradias aqui. Contudo, também se encontram verdadeiras pérolas em meio a tanto exagero.

Agora mesmo os parâmetros que determinam o custo final de uma casa são ao menos três: localização, estado geral e pedigree. O bairro influi muito no custo final do imóvel. Em Havana as zonas mais procuradas são o Vedado, Miramar, Centro Havana, Víbora e Cerro por seu caráter central. As menos procuradas: Alamar, Coronela, Reparto Eléctrico, San Miguel Del Padrón e La Lisa. A má situação do transporte público influi bastante para que as pessoas prefiram casas que estejam próximas dos pontos com maior presença comercial e com espaços de recreação abundantes. Se existe uma feira nas imediações o preço pedido sobe; se o Malecón fica próximo também. Evita-se a periferia, mesmo que entre os “novos ricos” que conseguiram um pouco mais de capital – seja por meio legal ou ilegal – tenha começado a tendência de buscar um sítio nas cercanias. Contudo ainda é muito cedo para se falar de uma tendência de se transferir para zonas mais verdes e menos contaminadas. No momento a premissa principal se reduz a quanto mais central melhor.

O estado de conservação é um dos elementos erigidos como definidores do custo de uma moradia. Se o teto é de madeira ou faiança os números caem; enquanto que as construções das décadas de 40 e 50 do século passado gozam de muito boa reputação e atração. As menos valorizadas são as chamadas “obras de micro-brigadas” com seus feios edifícios de concreto e seus pequenos apartamentos no estilo do Leste Europeu. Se o teto é leve – telhas, zinco, madeira ou papelão – leva o vendedor a obter menos. As condições do banheiro e da cozinha são outro ponto que influem diretamente nas possibilidades de comercialização do imóvel. A qualidade dos pisos, se as janelas estão protegidas por barras e a porta é nova – de vidro e metal – convertem-se em pontos a favor. No caso em que não existam vizinhos de cima então os proprietários podem pedir o que quiserem. As casas que possuem duas entradas também são muito valorizadas, pensadas para uma família numerosa que busca dividir-se e ficar independente. Tudo conta, vale tudo.

Até aqui parece um mercado imobiliário como outro qualquer e em qualquer lugar do mundo. Não obstante há uma situação que define de modo muito peculiar o valor das casas a venda. Trata-se do pedigree das mesmas. Isto é se a moradia pertenceu desde sempre a uma família ou se foi confiscada em alguma das ondas de expropriações que Cuba viveu. Se o dono anterior se foi quando da Crise dos Balseiros em 1994 e o Estado entregou a propriedade para uma nova pessoa o preço da mesma baixa. Também pode ocorrer que isto tenha acontecido durante as saídas pelo Porto de Mariel em 1980, momento em que a propriedade foi outorgada a outros ante a emigração dos que nela habitavam neste momento. Porém aonde os preços vão ao fundo é naqueles imóveis confiscados entre 1959 e 1963 quando das grandes saídas de exilados. Poucos querem ter o problema de um lugar que depois poderá estar em litígio. Mesmo que existam alguns que se aproveitam desta situação para comprar verdadeiras mansões nos bairros mais centrais a preço de banana.

Para conseguir tanto a localização, o estado de conservação como o passado legal da casa, os potenciais compradores usam sua própria experiência, a de um bom arquiteto e até de um advogado que procure com afinco os detalhes da propriedade. Cada fator colocará ou eliminará um cifrão, um zero, uma centena do preço total e, contudo, é como se os conhecimentos imobiliários só houvessem estado dormindo, letárgicos e agora regressaram com força assombrosa.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

Anúncios

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s