Os filhos da antena

No Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade da Informação

São vistos como todos os demais: pequenos, rebeldes, dispostos a brincadeira e a zombaria como qualquer menino. Porém algo os diferencia além do bairro onde vivem ou da família a que pertencem. Fazem parte de uma geração que escapa do doutrinamento dos meio oficiais pois se refugiam na programação televisiva ilegal. São os “filhos da antena”, os consumidores diretos da programação dessas parabólicas tão perseguidas como difundidas. Quando a professora lhes pergunta durante a aula se viram o noticiário do dia anterior, olham para o teto ou inventam uma resposta. Porém quando interagem, todos sabem o nome do apresentador da moda na Flórida ou da ganhadora do último concurso de Nossa Beleza Latina.

Não existem estudos precisos sobre quantas pessoas na Ilha acessam estes canais proscritos. Trona-se difícil calcular porque é um tema pouco falado em público por temor aos confiscos e as multas; porque também basta que uma família tenha uma dessas antenas parabólicas para que divida o sinal por cabo para uma dezena, uma vintena ou meia centena de casas de vizinhos. Os mais atrevidos até instalam o cabo por baixo das ruas, depois de fingir que faziam um conserto autorizado por motivo de algum encanamento quebrado. O dono principal do artefato perseguido é quem decide a programação que todos os privilegiados verão depois em suas telas. O preço mensal ronda os 10 dólares, mesmo que alguns possam ter o serviço gratuitamente, especialmente os delatores do bairro que desse modo tem seu silêncio comprado.

Contudo, além destes detalhes técnicos do cometimento de ilegalidade, o mais interessante é o fenômeno sociológico que está gerando. Muitos cubanos das gerações mais jovens – especialmente na capital – quase não assistem à televisão nacional. Tem escapado da dose de ideologia que esta exibe e a tem substituído por um sortimento mais frívolo, porém menos politizado. Entre estes telespectadores existem muitos meninos para os quais o efeito das palavras de ordem e as campanhas oficiais vão tendo prejuízo. São os filhos da antena, amamentados com o ilícito e acostumados ao outro lado da informação ou da desinformação. Cresceram com o controle remoto nas mãos e com um simples clic acedem ao proibido a cada dia.

  1.  P.S: “não tem sentido proibir” a circulação de notícias, pois é “quase uma quimera impossível” porque as pessoas “as conhecem”. “Hoje há notícias por todos os lados, as que são boas e as que são más, as que são manipuladas e as que são verdades, as que estão no meio, circulam pelas redes, chegam às pessoas, as pessoas as conhecem e o pior é o silêncio”, ressaltou ante uma conferência de educadores, segundo um repórter televisivo assegurou faz poucos dias, Miguel Díaz-Canel, primeiro vice-presidente de Cuba.

Outros textos neste blog relacionado ao mesmo tema:

TeleSur versus Parabólicas 

– Parabólicas

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

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