O Dois

Miguel Díaz Canel Foto tomada de http://peru21.pe/mundo/miguel-diaz-canel-posible-sucesor-raul-castro-2119009

Ring, ring, ring… As chamadas internacionais sempre demoram uma eternidade para chegarem a um telefone em Cuba. Como se tivessem que atravessar uma atmosfera espessa, densa. Finalmente uma voz responde do outro lado da linha. É um amigo a quem tento perguntar sua opinião sobre o recém formado Conselho de Estado e da nomeação de Miguel Díaz Canel como primeiro vice- presidente. O que? É tudo o que responde num primeiro momento. Então explico que neste domingo estive acompanhando a formação da Assembléia Nacional e que gostaria de completar a informação com algumas impressões de dentro da Ilha. Meu amigo boceja, confirma que não viu a televisão ontem e que ninguém comentou nada. Dou conta que sofro do mal da hiper informação misturado com certa distorção produzida pela distância de Cuba. Havia esquecido o quanto meus compatriotas se mostram indiferentes frente a certos assuntos, que de tão previsíveis já não geram expectativas.

A designação do segundo homem na nomenclatura cubana tem sido provavelmente, mais comentada e discutida fora da Ilha do que no interior desta. Em parte porque desde há meses os meios nacionais já sugeriam – com sua alusão constante a este engenheiro de 52 anos – que ele poderia se converter no sucessor de Raúl Castro. De modo que surpreendeu a poucos que o outrora ministro da Educação Superior se haja convertido desde ontem, domingo, no “Delfin” do regime cubano. O relógio biológico foi colocado numa encruzilhada para os octogenários que governam a maior da Antilhas: ou substituem agora por herança ou perdem para sempre, parecem ditar as mãos da história. Assim foi feita a opção por uma figura mais jovem para deixá-la na linha de sucessão. Basearam sua eleição no que confiam: na fidelidade e na manobrabilidade de Díaz-Canel, capturado entre o compromisso com seus superiores e a convicção do seu escasso poder real.

A história mostra que um é o comportamento destes delfins enquanto observados por seus chefes e outro bem diferente quando estes já não estão. Só então descobriremos quem é realmente o homem que passou a ser ontem o número dois de Cuba. Não obstante tenho a ilusão que não será neste Conselho de Estado, nem nessa cadeira presidencial  que será decidido o destino do nosso país. Tenho a ilusão de que a era dos monarcas de verde-oliva, seus herdeiros e seu séquito está terminando.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

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O velho ato de repúdio

Talvez vocês não saibam – porque não se conta tudo num blog – porém o primeiro ato de repúdio que vi na minha vida foi quando só tinha cinco anos. A agitação no casarão chamou a atenção das duas meninas que éramos minha irmã e eu. Assomamos a grade do corredor estreito para olhar para o piso de baixo. As pessoas gritavam e levantavam o punho em volta da porta de uma vizinha. Com tão pouca idade não tinha a menor idéia do que se passava. Mais ainda, quando agora relembro o acontecimento apenas tenho a recordação do frio do corrimão nos meus dedos e um curto instante dos que vociferavam. Anos depois pude ordenar aquele caleidoscópio de evocações infantis e soube que havia sido testemunha da violência desatada contra quem queria emigrar pelo porto de Mariel.

Pois bem, desde aquilo tenho vivido então vários atos de repúdio de perto. Seja como vítima, observadora, ou jornalista… Nunca – vale à pena esclarecer – como participante. Recordo um especialmente violento que experimentei junto as Damas de Branco, onde as hordas da intolerância nos cuspiram, empurraram e até puxaram os cabelos. Porém o de ontem a noite foi inédito para mim. O piquete de extremistas que impediu a projeção do filme de Dado Galvão em Feira de Santana era algo mais do que uma soma de adeptos incondicionais do governo cubano. Todos tinham, por exemplo, o mesmo documento – impresso a cores – com uma fieira de mentiras sobre minha pessoa, tão maniqueístas como fáceis de rebater numa simples conversação. Repetiam um roteiro idêntico e guiado, sem ter a menor intenção de escutar a réplica que eu poderia lhes dar. Gritavam, interrompiam, num momento tornaram-se violentos e de vez em quando exibiam um coro de palavras de ordem dessas que já não são ditas em Cuba.

Contudo, com a ajuda do Senador Eduardo Suplicy e a calma ante as adversidades que me caracteriza, conseguimos começar a falar. Resumo: só sabiam berrar e repetir as mesmas frases, como autômatos programados. Assim a reunião foi muito interessante. Eles tinham as veias do pescoço inchadas, eu esboçava um sorriso. Eles me faziam ataques pessoais, eu conduzia a discussão ao nível de Cuba que sempre será mais importante que esta humilde servidora. Eles queriam me linchar, eu conversar. Eles obedeciam a ordens, eu sou uma alma livre. No fim da noite sentia-me como depois de uma batalha contra os demônios do mesmo extremismo que atiçou os atos de repúdio daquele ano oitenta em Cuba. A diferença é que desta vez eu conhecia o mecanismo que fomenta estas atitudes, eu podia ver o longo braço que os move desde a Praça da Revolução em Havana.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

Brasil… Ah! Brasil

vuelo

Carregar um caderno de viagem é tão difícil como estudar para uma prova de matemática no interior de uma discoteca. Atenta a nova realidade que se mostra ante meus olhos desde que saí de Cuba, vi-me ante a alternativa de viver ou narrar o que me ocorre, atuar como protagonista deste itinerário ou como a jornalista que o cobre. Os dois pontos de vista são difíceis de serem postos lado a lado, dado a velocidade e a intensidade de cada acontecimento, portanto tratarei de ir colocando por escrito algumas impressões. Linhas do que me sucede, fragmentos às vezes caóticos do que experimento.

A primeira surpresa do programa foi no Aeroporto Jose Martí de Havana quando depois de atravessar a porta da emigração vários passageiros começaram a se acercar e a me dar suas mostras de solidariedade. O afeto foi crescendo na medida em que o trajeto avançava e no Panamá encontrei uns venezuelanos também muito carinhosos… Apesar de me pedirem o favor de que não subisse a foto com eles para o Facebook… Para não terem problemas em seu país. Depois dessa escala veio o vôo mais longo até o Brasil, com uma sensação mental e física de descompressão. Como se houvesse estado submersa muito tempo sem poder respirar e conseguisse agora ter uma inspiração de ar.

No aeroporto de Recife um lugar para o abraço… Ali encontrei muitas pessoas que durante anos têm apoiado meu empenho de viajar para fora das fronteiras nacionais. Houve flores, presentes e até um grupo de gente me insultando que muito gostei – confesso – porque me permitiu dizer que eu sonhava com que “algum dia em meu país as pessoas pudessem expressar publicamente dessa forma contra algo, sem represálias”. Um verdadeiro presente de pluralidade para mim que chego de uma Ilha que tentaram pintar com a monocromática cor da unanimidade. Mais tarde tive aceso a uma Internet tão rápida que quase não compreendo, sem páginas censuradas nem funcionários olhando por cima do ombro a página que visito.

Desse modo que até agora vai tudo muito bem. Brasil tem me dado o presente da diversidade e do carinho, a possibilidade de apreciar e narrar tantos assombros.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

Operação Verdade

Há anos que queria fazer certas perguntas para Eliécer Ávila. Desde que o escutei falar pela primeira vez ao se apresentar naquele janeiro de 2008 estive tentada a indagar sobre o que significava realmente ser um membro da Operação Verdade, qual o papel exercido por um soldado da web. Porém o tempo passou, os acontecimentos se amontoaram, as dificuldades se sucederam e só em agosto do ano passado pudemos ter uma conversação acerca do tema. O que me contou superou minhas expectativas e confirmou meus temores de que a batalha ideológica transladou-se em parte para o ciberespaço. Desse modo que todas aquelas teorias de trolls formados nos laboratórios da Segurança do Estado, hackers de verde-oliva e blogs criados com o único propósito de distrair a atenção foram corroboradas nesta entrevista.

Ligados no teclado e na tela e com um roteiro pré-estabelecido, nossos policiais dos kilobites deixam um rastro fácil de detectar. Sua principal estratégia não é rebater argumentos nem contrapor idéias, mas sim de denegrir e tentar desprestigiar o cidadão que emite uma crítica ao sistema. Em “matar o mensageiro” se resume a premissa daqueles que focam não o dito, mas sim quem o diz. Cada palavra que Eliécer me contou se encaixa de modo significativo em parte do que tem me ocorrido nestes seis últimos anos, desde que abri Geração Y. Às vezes pensei que eram delírios paranóides da minha mente – confesso – porém agora já não tenho dúvidas: as autoridades cubanas estão gastando milhares de horas na internet ao ano e recursos inimagináveis para agir contra cidadãos pacíficos que só damos nossa opinião.

Provavelmente estas linhas sejam lidas pelas novas milícias da Operação Verdade, desse modo quero aproveitar para lhes enviar a seguinte mensagem: “sei que estão aí, ou melhor, já não podem esconder que estão aí. O trabalho que realizam também é um labor repressivo, uma forma de coibir a liberdade dos cubanos. Ao invés de silenciar os outros, deveriam defender suas idéias com galhardia e não encobertos por pseudônimos e se aproveitando da superioridade tecnológica. Se realmente crêem no que proclamam não deveriam ter que apelar para métodos tão frágeis para fazê-lo valer. Não esmaguem, convençam. Não tratem de anular a diferença, aprendam – melhor ainda – a viver com ela”.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

ps: Desculpo-me pelas falhas sonoras que a entrevista tem, são resultado em boa medida da precariedade tecnológica da qual padecemos. De maneira que agradeço de antemão qualquer ajuda que possam me dar para “limpar” o áudio ou colocar subtítulos.

Falta de fixador

nuestro-deber-es-vencer

O elevador é um concentrado de odores a qualquer hora. Quando o pescado chega ao mercado racionado impregna-se por dias com um forte odor de cavala. Também permanecem nele os aromas do homem que vende pizzas a domicílio nos andares altos e as colônias dos bebês que suas mães levam para passear. Às vezes uma fragrância agradável, intensíssima, que se gruda nas roupas dos que sobem ou descem na pequena cabine de metal. Todos sabem que tão intensos eflúvios provem de uma vizinha muito coquete que parece “tomar banho” de colônias e cremes a cada vez que sai a rua. Desse modo que a gozação do dia é se referir ao “tremendo fixador que seus perfumes tem…” Frase usada também fora do contexto dos cosméticos e dos bálsamos para enfatizar quando o efeito de algo é duradouro e continuado.

Pois bem, toda a nossa realidade está sem fixador. Inauguram um serviço hoje e quatro semanas depois já começa a perder qualidade e a se restringir. Anunciam com banda de música a ampliação da saída de trens ou a melhora da freqüência dos ônibus, porém passados poucos meses tudo volta ao ponto anterior. Novas instituições culturais ou recreativas abrem suas portas e em apenas meio ano são destruídas pela falta da falta de suprimentos ou da deterioração. Manter o padrão torna-se impossível, inclusive para muitos trabalhadores por conta própria que parecem haver herdado do setor estatal esta propensão ao declive. A sabedoria popular aconselha usar ou visitar certos lugares em suas primeiras 72 horas de estréia, pois depois… Depois já nada será igual

A falta de fixador estende-se das restaurações arquitetônicas que em breve terão a pintura danificada pela umidade e goteiras do teto, até procedimentos burocráticos que só no primeiro dia de instaurados funcionam com eficiência. O efêmero marca a pauta, a fugacidade é o sinal da qualidade em Cuba. Prova disso são os serviços brindados por nossas sucursais de correios e bancos. De tempos em tempos se anuncia uma reforma administrativa para conseguir que sejam eficientes, porém a melhoria dura muito pouco. O tempo em que demoramos a nos inteirar do avanço basta para que este evapore. Como uma obra de arte efêmera – ou um perfume barato – os sucessos muitas vezes se desvanecem e nem sequer nos dão tempo para perceber que existiram.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

Ana e a arte de simular

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“Já ninguém mais faz nada grátis” diz o personagem de uma comédia que apreciamos em nossa lista de filmes em princípios deste ano. Dirigida por Daniel Díaz Torres, La película de Ana foi eleita como a melhor longa metragem de ficção em 2012 segundo a Associação Cubana de Imprensa Cinematográfica. Contudo, mais além dos reconhecimentos institucionais e de outros galardões que com certeza ganhará, no momento levou o inestimável premio do público que a recebeu com sorrisos abundantes e aplausos. No seu papel, Laura de la Uz dá vida a uma atriz que cambaleia entre um papel medíocre e outro, entre más aventuras para adolescentes e piores novelas para donas de casa. Premida pelos problemas materiais, especialmente ante a urgência de comprar uma geladeira, decide se fazer passar por prostituta para um documentário rodado por uns produtores austríacos. O que iria ser uma interpretação a mais, uma sequencia de estereótipos e exageros, converte-se desse modo na melhor atuação de Ana.

Como um jogo de espelhos o filme superpõe a realidade e a falsidade, o emotivo e o histriônico. Nem sequer o humor e as falas jocosas conseguem dar gravidade ao drama do desdobramento como ferramenta de sobrevivência. Ana vai se complicando, metendo-se de cara num mundo que acredita conhecer, porém que a tira do eixo e que lhe joga para baixo. Faz sua família posar sem que esta o saiba; filma seus vizinhos para apoiar o roteiro improvisado e mente, mente e mente. Converte-se na própria diretora de um filme com planos inumeráveis que querem satisfazer as expectativas dos produtores estrangeiros. Contudo, a cada lugar comum acrescenta a dureza da sua própria vida, sem ajustes, sem necessidade de dramatizá-la em excesso.

La película de Ana nos causa um rubor feminino, nacional e humano. A vergonha alheia ao pensar em todos aqueles que vemos se fazendo passar por outros. O homem que fuma um tabaco – mesmo que não goste – para que os turistas tirem fotos e lhe paguem por isto. O funcionário cuja máscara da simulação ideológica já se fundiu com o próprio rosto. E também esses que alimentam a simulação, porque eles mesmos já perderam a capacidade de distinguir a parte da história que inventaram ou a que não. Como uma Ana que, mesmo que tire a maquiagem e desligue a câmera, continuará atuando e fingindo.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

Em Cuba não há droga?

Imagen tomada de www.informador.com.mx/

Eu tinha uma ceratite bem agressiva no olho esquerdo. Era o resultado da pouca higiene do albergue e das sucessivas conjuntivites mal cuidadas. Receitaram-me um tratamento complexo, porém depois de um mês de colírios continuava sem notar melhora alguma. Ardiam-me os olhos ao contemplar as paredes pintadas de branco e as zonas onde se projetasse a luz do sol. As linhas dos livretos apareciam borradas e examinar minhas próprias unhas era impossível. Yanet, a menina que dormia na cama em frente me contou o que acontecia. “Roubam-te a homatropina para tomarem-na, curtem uma tremenda viagem e depois preenchem o frasco com outra coisa”, disse-me num sussurro em frente às duchas. Desse modo me pus a vigiar cada noite minha posição e comprovei que era verdade. O medicamento que devia me curar era consumido por alguns colegas de albergue misturado com um pouco de água… Não era a toa que a minha córnea não sarava.

Elefantes azuis, caminhos de matéria plástica, braços que se alongavam ao horizonte. Escapar, voar, pular de uma janela sem sofrer dano… Até ao mesmíssimo abismo eram as sensações perseguidas por muitas daquelas adolescentes afastadas de seus pais e que viviam sob os poucos valores éticos transmitidos pelos professores. Algumas noites os rapazes faziam, na área desportiva, uma infusão da flor conhecida como “campana” conhecida como a droga do pobre. No final do meu décimo grau começaram a também entrar naquele pré-universitário os pós para inalar e “erva” em pacotes pequenos. Eram trazidas principalmente pelos estudantes que viviam no paupérrimo bairro de El Romerillo. Risadinhas nas aulas matinais depois da ingestão, olhadas extraviadas que transpassavam o quadro-negro e a libido exacerbada com todos aqueles “estímulos para viver”. Com doses regulares já não se sente nem o ardor da fome no estômago, confirmavam-me algumas amigas já “fisgadas” Por sorte nunca me deixei tentar.

Ao terminar a bolsa de estudos soube que fora dos muros daquele lugar a mesma situação se repetia, porém em maior escala. Na minha região de San Leopoldo aprendi a reconhecer as pálpebras semi-abertas dos “colocados”, a fraqueza e a pele mortiça do consumidor empedernido e a atitude agressiva de alguns que depois de darem “um toque” acreditavam-se os reis do mundo. Quando os anos dois mil chegaram aumentaram as ofertas no mercado da evasão: melca, marijuana, coca – esta última a uns 50 pesos conversíveis o gramo atualmente – pastilhas EPO, Parkisonil rosado e verde, pedra, Popper e todo tipo de psicotrópicos. Os compradores são de variados estratos sociais, porém em sua maioria buscam escapar, passar um momento, saírem da rotina e deixarem para trás a asfixia cotidiana. Inalam, bebem, fumam e depois são vistos a bailar por toda a noite na discoteca. Passada a euforia ficam dormindo frente a esta mesma tela de televisão onde Raúl Castro assegura que “em Cuba não há droga”.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto