Pode-se despertar ?

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Às vezes quando estou inquieta sonho que estou de mudança, que troco de casa repetidas vezes sem poder chegar a desfrutar de nenhuma. Nesse pesadelo recorrente minha vida se desarma e as fotos de infância se perdem em algum caminhão de mudanças. Porém isso só me ocorre nas noites de média ansiedade. Nesta semana foi diferente. Vou andando por um longuíssimo e escuro caminho. Ponho a cabeça no travesseiro e volto a este caminho rodeado de mato alto e com o som das cigarras perfurando o ouvido. Não vou só, ao meu lado rostos conhecidos me acompanham: meus amigos de risadas e calabouços, de abraços e sobressaltos. Conversamos e as frases ficam pela metade porque eles desaparecem nos arbustos, vão-se… São levados. A cada noite nada além de fechar os olhos e a densidade volta a tragar os meus.

Levanto-me pela manhã e me digo: “tudo já terminou, foi apenas um sonho”. Porém depois de um momento o telefone toca e alguém me conta que Antonio Rodiles continua detido, acusado de resistir a uma prisão tão arbitrária como injusta. Vou ao banheiro ainda com as pálpebras entreabertas e me dou conta que há apenas umas horas Ángel Santiesteban foi libertado depois de ser metido sob golpes num carro de polícia. O café da manhã borbulha no fogão e confiro meu celular, repleto de denúncias sobre os atropelos sofridos pelas Damas de Branco em várias regiões do país. Contudo a luz tem o tom vermelho do amanhecer e já pressinto que o longo caminho retraçado nos sonhos prolonga-se na realidade.

Não são os arbustos, mas sim a intolerância; não é o canto das cigarras, mas sim os gritos autoritários; não é a noite, mas sim a falta de liberdades. Quando chegar o meio dia já comprovei que não posso escapar deles, que os beliscões no antebraço não funcionam, nem sequer imergir a cabeça em água fria. É fato que esses amigos “abduzidos” são uma realidade concreta, tangível e não um desvario noturno. A tarde avança e compreendo que meu pesadelo está por todos os lados e termino regressando à trilha cercada de mato alto. Porém desta vez só estou eu, falando comigo mesma para que a escuridão não me assuste totalmente. Alguém – que não vejo – agarra-me e me joga nos arbustos altos. Faltam três horas para que o relógio toque e me desperte.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

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One thought on “Pode-se despertar ?

  1. A ‘piada de salão’ pelo mundo

    Por Roberto Freire*

    O Supremo Tribunal Federal, a mais alta Corte do país, escreveu mais um capítulo histórico do julgamento do mensalão ao condenar a 10 anos e 10 meses de prisão o ex-chefe da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, um dos principais símbolos do PT. O “capitão do time”, como Dirceu era chamado pelo próprio Lula, cometeu os crimes de corrupção ativa e formação de quadrilha e terá de cumprir a pena inicialmente em regime fechado. Além dele, foram condenados José Genoino, ex-presidente do PT, a 6 anos e 11 meses, e Delúbio Soares, ex-tesoureiro do partido, a 8 anos e 11 meses.

    Com a condenação do mensalão petista, a mais importante instância do Poder Judiciário mostra que os poderosos não estão acima das leis do país. Os crimes do colarinho branco, praticados por autoridades que se escoravam na sensação de impunidade, entram na mira da Justiça. E a debochada profecia de Delúbio, que em 2005 afirmou que o mensalão se tornaria uma “piada de salão”, cai por terra.

    O ex-tesoureiro do PT não foi o único a afrontar a opinião pública ao menosprezar a possibilidade de os crimes do mensalão serem exemplarmente punidos, como vem acontecendo. O próprio Lula, desde que saiu da Presidência, se dedicou a uma cruzada irracional para “provar” que o esquema que manchou seu governo jamais teria existido. Acostumados a bradar sandices que acusam a suposta existência da “imprensa golpista” no Brasil, os petistas agora apelam a malabarismos retóricos para justificar a estrondosa repercussão do julgamento do mensalão nos principais jornais do planeta. Afinal, seriam “golpistas” e coparticipantes de uma conspiração contra o PT os veículos de comunicação de algumas das principais democracias do mundo?

    O prestigiado jornal norte-americano The New York Times deu grande destaque à condenação do ex-ministro, lembrando que Dirceu serviu como “braço direito” de Lula no governo. “É muito raro no Brasil um político do alto escalão passar muito tempo na prisão por corrupção”, apontou o jornal. O britânico Financial Times qualificou o julgamento como “um divisor de águas em um país onde os políticos e as elites são acusados de usar um sistema jurídico ineficiente para agir com impunidade”. O Le Monde, da França, estampou em letras garrafais que “três aliados do ex-presidente Lula” foram considerados “culpados por corrupção”. O El País, da Espanha, falou em “10 anos de cárcere” para Dirceu. O Clarín, da Argentina, resumiu: “Homem de Lula na prisão”.

    O maior esquema de corrupção orquestrado por um grupo político na história do país está indelevelmente associado ao governo Lula. Julgados e condenados pelo STF, com suas malfeitorias denunciadas e expostas pela imprensa livre em todo o mundo, os mensaleiros cumprirão pena atrás das grades. A partir da derrocada de Dirceu, que sabotou a própria biografia e trilhou o caminho de preso político a preso comum, o PT assiste à derrota de um jeito de se fazer política – porque, ao contrário do que prega o senso comum petista, urnas não absolvem criminosos.

    O Brasil jamais será o mesmo após o julgamento do mensalão. A “piada de salão” correu o mundo e se transformou em uma grande lição de democracia.

    *Roberto Freire é deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS

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