Anônimo

cactus

Alguém jogou a carta pela janela da oficina do diretor, numa bolsa de nylon com uma pedra dentro. Linhas e mais linhas de uma letra apertada denunciando o desvio de recursos no refeitório. Ali estava à descrição meticulosa do armazém “particular” aonde eram guardados estes produtos que nunca chegavam à mesa dos estudantes. E a volumosa cifra de rações que terminavam – cada semana – em recipientes para alimentar os porcos do administrador. Em oito folhas eram detalhados os truques para ajustar os números no fim do mês e até o nome de quem avisava sobre possíveis inspeções.

Aquele anônimo provocou uma reunião de urgência. A auditoria surpresa na cozinha havia confirmado o dito pelo justiceiro incógnito. Numa quinta-feira em uma assembléia de mãos levantadas e por unanimidade, expulsaram os implicados no desfalque e foram nomeados novos trabalhadores para esses lugares. Das cadeiras do amplo local poucos acreditaram que a comida roubada acabaria nas bandejas e que o almoço dos alunos recuperaria suas gramas perdidas e seus sabores extraviados.

Quando chegou segunda-feira os novos empregados da cozinha já tinham seu próprio esquema para malversar. Escondiam os sacos de feijão e as garrafas de azeite num local distante do descoberto pelos auditores. Pelo menos durante três dias colocaram nos pratos a quota estabelecida, porém, gradualmente, foram tirando uma onça aqui e uma grama acolá. Os porcos de algum cocho distante voltariam a engordar com o caldo e o arroz que de tão insípidos muitos escolares nem provavam. Adulterar os números garante que o desfalque não seja notado nos papéis, enquanto um informante – próximo do diretor – avisa se há uma inspeção do ministério. O acusador anônimo e sua denúncia só conseguiram que o roubo mudasse de nomes e que o desvio de recursos acabasse em outras mãos.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

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3 thoughts on “Anônimo

  1. .
    Link do site da NASA que contem as três gerações dos veículos exploradores de Marte.
    Do veículo menor para o maior: Sojourner, Spirit e Opportunity (dois veículos idênticos) e o Curiosity.
    O Sojourner e o Spirit não mais funcionam. O Opportunity funciona mais lentamente e já andou em Marte cerca de 34 km e o Curiosity está iniciando as pesquisas.
    .
    .

    .
    .
    Uma pequena abordagem sobre tecnologia espacial.
    Mas no texto acima da Yoani, temos um pouco da tecnologia cubana em ação.
    Como não existe muita diferença de salários para cargos superiores, para se ganhar mais, opta-se em roubar.
    Acompanhamos a anos relatos desta natureza que acontecem em Cuba.
    .
    Não se imaginava que a escassez de bens e de serviços pudesse ser tão nociva ao socialismo.

  2. Corrupção existe em qualquer governo, mas em ditaduras a situação se torna pior porque não há como a imprensa denunciar. É aí que entra a necessidade do “controle social dos meios de comunicação”, tão defendido pelo governo petralha aqui no Brasil.

  3. segunda-feira, 20 de agosto de 2012

    O socialismo bolivariano é o mal do século.

    “Presidentes que não saem do ar: Hugo Chávez, da Venezuela, Cristina Kirchner, da Argentina, e Rafael Correa, do Equador, usam redes nacionais de rádio e TV para impor sua visão”, informa O GLOBO de ontem em matéria que revela como arma política o “microfone estatal a serviço do poder”.

    Estive em Cuba com minha família há apenas alguns anos. Fidel Castro era ainda presidente. Quando liguei a televisão no hotel e percorri os canais, o comandante estava em todos eles. Era ainda pior do que esse clássico sintoma de tiranetes em ascensão que se comunicam com frequência em cadeias nacionais de televisão. Filmado em diferentes ocasiões, em longuíssimos discursos, fazia preleções para crianças em escolas, presidia reuniões políticas, exortava jovens em cerimônias de formatura universitária, recebia delegações políticas estrangeiras, em onipresente tentativa de lavagem cerebral. Entusiasmante nos primeiros minutos, tolerável por meia hora e insuportável a partir de então. Chávez, a cuja visita pude assistir naquela ocasião, teve mesmo em Fidel um grande mestre.

    Hoje sabemos todos que Lula não era Chávez. Mas nem todos sabíamos que o Brasil não é a Venezuela. O antigo procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza sabia. O atual procurador-geral, Roberto Gurgel, e o ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa também. Quem não sabia era a turma do mensalão.

    Há quem, ainda hoje, acredite na concentração dos poderes políticos, na centralização administrativa, na estatização da economia e no controle da mídia como receitas adequadas para o Brasil. O equívoco intelectual tem nome: um exacerbado socialismo nacionalista.

    Essa é uma estrada conhecida, trilhada à “esquerda” e à “direita” por regimes totalitários que infelicitaram milhões de seres humanos. Enveredaram por esse caminho as ditaduras de partido único da Itália de Mussolini, da Alemanha de Hitler, da Rússia de Stalin. O caminho da servidão.

    “Mussolini foi antes de tudo um socialista. O ingrediente nacionalista foi também virulento. O fascismo italiano é, como o nazismo alemão, um nacional-socialismo”, diagnostica o insuspeito e lúcido Edgar Morin, em “Cultura e barbárie europeias” (2005). O socialismo bolivariano é a doença latina do século XXI. A concentração de poder político, a estatização da economia e o controle da mídia são sintomas clássicos de um exacerbado socialismo nacionalista.

    (Artigo de Paulo Guedes, publicado hoje em O Globo, com o título “Socialismo tardio”)

    In Coturno Noturno: 20/08/2012

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