A instalação, nossa instalação

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Chegou em março de 2008, poucos dias depois de abril lançar seus furiosos temporais sobre nós. Veio num caminhão, impecavelmente novo, reluzentemente útil. Era nossa instalação elétrica, nosso próprio gerador que faria funcionar o elevador e a luz dos corredores quando o apagão escurecesse a região. Estávamos salvos. A Revolução Energética nos beneficiava com aquele aparato que tinha a forma de uma locomotiva estática. Para reforçar a semelhança ferroviária sua estrutura imponente culminava numa chaminé da qual nunca veríamos sair nem uma só espiral de fumaça.

Naquele primeiro de maio Fidel Castro informou na Plaza que todos os edifícios da região tinham seu próprio modo de auto-abastecimento elétrico. Contudo, até agora “nossa instalação” não havia produzido nem um só watt, não havia ronronado nem uma só vez. No tempo transcorrido entre a chegada daquele objeto e seu anúncio público foram criados três postos de trabalho para guardá-lo e reabastecê-lo de combustível. Os empregados foram dispostos em turnos rotativos, mesmo que no primeiro momento não tenham tido outro trabalho do que observar nossa formosa “máquina de luz”. Foram feitas várias tentativas de acendê-la, porém não funcionava bem. Talvez não tenhamos sabido instalá-la, talvez precisasse de mais petróleo, talvez…

Levaram-na poucas semanas após ter sido mais um número naquele discurso do Máximo Líder. A base de concreto que os vizinhos construíram para colocá-la ficou como um banco para os meninos sentarem. Os três empregados que cuidavam dela desfrutaram uns meses a mais do seu salário sem trabalho, até que as praças foram fechadas. A instalação elétrica – segundo explicou o caminhoneiro que veio buscá-la – foi realocada numa escola para estudantes latino-americanos. Não sem antes nos prometerem que a realmente nossa – maior e com maior capacidade – chegaria em poucos dias.

Quatro anos já são passados. As pessoas falam daquele gerador como quem menciona um espectro encantado que houvesse cruzado seu caminho. Outros, os mais engraçados, brincam e gritam de varanda para varanda: “Oi… eu acredito que agora vem por aí a planta, nossa planta”.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

Caixa de ferramentas

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Um amigo me presenteou, faz já vários meses, com este magnífico manual intitulado “Caixa de ferramentas para o controle cidadão da corrupção”. Acompanhado por um CD e com numerosos exemplos práticos, o li em busca de respostas ante um flagelo que nos atinge mais a cada dia. Agora mesmo estamos envoltos por chamados para eliminar o desvio de recursos e o roubo nas empresas estatais. Daí que mergulhei nas páginas deste livro para aprender o que nós, os indivíduos, devemos fazer frente a tais atos. Sem surpresa descubro uma palavra que é repetida vez por outra ao longo de cada capítulo: transparência. Uma campanha efetiva anticorrupção deve ser conjugada as subseqüentes aberturas e denúncias nas mídias nacionais. Para cada malversação há que se antepor a informação, a cada desfalque a mais intensa das críticas públicas.

Contudo os apelos para se eliminar o secretismo, feitos pelo General Presidente na última conferência do PCC, não parecem estar destinados a jogar toda a luz necessária sobre os atos desta natureza. Há uma seleção evidente do que se pode ou não se pode dizer, uma linha clara entre o que se permite ou não publicar. Por exemplo: até o dia de hoje não foram mostrados detalhes na imprensa nacional da corrupção no Instituto de Aeronáutica Civil que levou a destituição do seu presidente Rogelio Acevedo. Nem uma palavra ainda sobre o último escândalo no sistema bancário que colocou sob investigação vários dos seus empregados, mesmo que, todavia, nenhum dos seus altos diretores tenha sido “tocado”. E para que falar sobre o cabo de fibra óptica entre Cuba e Venezuela que não nos trouxe a Internet, mas sim rumores sobre funcionários defenestrados por roubarem parte do seu orçamento. Não são apenas cochichos: basta transitar pelo recém consertado túnel da Rua Línea para se perceber que uma boa parte dos materiais destinados a sua restauração não terminaram sendo usados na mesma. Por que a televisão não fala de TUDO isso?

Volta-se a cair no mesmo erro: a verticalidade. A luta contra a corrupção não é só tarefa de um Estado ou da Controladoria Geral da República. Todos os cidadãos devem se envolver, com a certeza de que qualquer um pode ser apontado por meter as mãos nos cofres nacionais. Se continuar primando a impressão de que existem “intocáveis”, ladrões que não podem ser julgados por motivo do seu matiz político ou tendência ideológica, então não poderemos avançar. No dia em que se vir um desses insubmergíveis criticado na televisão por desvio de mercadorias, adulteração de preços ou mentira sobre cifras produtivas, então começarei a acreditar que estamos no caminho da eliminação de tão extenso problema. Enquanto isso olho o manual que tenho agora em minhas mãos e só me parece uma lista de ações improváveis, um reservatório de ilusões impraticáveis aqui.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

Uns sim, outros não

Liguei a televisão num desses momentos de credulidade que me assaltam de vez em quando. Queria escutar o noticiário da tarde, saber alguma notícia, achegar-me a distante e próxima realidade Síria. Porém aqui as informações não se medem pela importância que tem para o resto do mundo… Então paciência, muita paciência. Primeiro veio uma reportagem sobre alguma colheita agrícola cujo aumento não notamos em nossos pratos; uma crônica sobre o crescimento de feijões, bananas ou litros de leite que continuam brincando de esconder com nossas bocas. Suportei. Não iria tirar os olhos da tela até escutar sobre os mortos em Homs, as declarações da Liga Árabe e a morte dos jornalistas num bombardeio.

Os minutos passaram, desinformados e angustiantes. Súbito vejo uma foto onde aparecia a blogueira Miriam Celaya e outros conhecidos rodeados de epítetos tipo “mercenários” e “traidores”. O motivo era sua participação num encontro sobre imprensa digital, organizado na residência de um funcionário do Escritório de Interesses dos Estados Unidos. Nas cercanias do lugar um grupo de inquietos paparazis oficiais fotografava o feito para narrá-lo depois, ao seu modo, na televisão nacional. Sempre que algo assim ocorre pergunto-me por que o governo cubano mantém aberta uma representação dos EUA na Ilha, se – como diz – esta vem a ser um “ninho de provocação”. A resposta está contida na própria interrogação: não poderiam governar sem jogar a culpa do crescente inconformismo em outro. Se além disso as milhares de pessoas que a cada semana fazem fila nas proximidades dessa sede diplomática para emigrar sentirem que não há uma saída para sua frustração, muito provavelmente esta teria vazão nas nossas ruas e em nossas praças. Enfim, o Ministério das Relações Exteriores sofre de um conflito visível de esquivar-se-aproximar-se, amor-ódio e afaste-se-preciso de você.

Ficaria tocada, também, em saber o que acontece com os cidadãos estadunidenses que visitam o escritório cubano correspondente no solo do vizinho do Norte. Seus rostos também saem nos noticiários acompanhados de insultos? A diplomacia – diferentemente do que muitos acreditam – não é feita ao nível dos governos nem dos palácios presidenciais, mas sim de pessoa a pessoa. Portanto cada cubano deve ter o direito soberano de visitar do mesmo modo a embaixada do Irã ou Israel, da Bolívia ou Chile, da Rússia ou Alemanha. Na medida em que estes contatos não sejam um delito no código penal devem ser permitidos e incentivados. Caberia ao governo proteger esses intercâmbios, não dinamitá-los.

Para maior surpresa outro dia vi no mesmo noticiário chato imagens de Raúl Castro entrevistando-se com dois importantes senadores estadunidenses. Porém no seu caso não o apresentavam como “vendilhão da pátria” ou “verme”, mas sim como o primeiro secretário do Partido Comunista. Já sei que muitos tratarão de me esclarecer que “ele pode porque é um governante”. O qual, permitam-me recordar-lhes, como presidente de uma nação é apenas um servidor público e não pode praticar uma ação que é proibida ou satanizada para os seus compatriotas. Se está liberada para ele, por que para Miriam Celaya não? Por que não convidam esta mulher que nasceu no ano de 1959 – antropóloga e magnífica jornalista cidadã – para um espaço em algum centro público para que narre sua experiência no manejo da imprensa digital e não tenha que se conformar com o local com que “outros” lhes brindam? Por que não se atrevem a lhe permitir um minuto – mesmo que seja no pior horário da madrugada – falando na televisão oficial que a censura e estigmatiza?

O mais triste é que a resposta a todas estas perguntas nunca aparecerá nesse noticiário insípido da uma da tarde, nem no da manhã, nem no das oito da noite, nem no de…

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

Footing de classe

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Amanhece na 5ta Avenida. Os automóveis circulam velozes e nas placas diplomáticas letras brancas ressaltam sobre o fundo negro. As árvores do passeio central exibem suas folhas podadas e a antiga embaixada soviética parece uma Excalibur cravada – sem piedade arquitetônica – no peito de Havana. Entretanto não há calor, porém alguns já suam enquanto correm pelo passeio central. Usam tênis Adidas, garrafas de água e fones de ouvido brancos. A céu aberto – porém com seu toque de exclusividade se considera – a maior área esportiva da cidade começa justamente na saída do túnel do rio Almendares. Pista de corrida para uma classe social que já acumula kilos, porém ainda prefere correr ao ar livre e não sobre a esteira rolante de um ginásio.

Local de encontro e de saúde também é chamada Avenidas das Américas, com sua fonte de sereias num extremo e suas mansões de luxo em ambos os lados. Naquela esquina acabam de se encontrar o coronel aposentado e o novo gerente de uma corporação para falarem do clima, os filhos… Da tão formosa manhã. Aqui vai a filha de um funcionário junto com a amiga de infância com quem comparte jogos e churrascadas. Mesmo assim acabam de cruzar a rua – cuidadosamente – o poeta de barba branca e seu cão de raça. E a atriz que voltou de um giro pela Europa se une a procissão madrugadora dos que queimam calorias. Quando chegar às dez da manhã e o sol quiser lhes obsequiar com uma sauna grátis já não restará nenhum deles.

Comparada com o resto de Cuba a 5ta Avenida se erige como uma raridade. Não que a beleza urbanística se mostre – de modo algum – escassa na Ilha, pois até os palacetes destruídos de Centro Havana guardam algo de sua antiga beleza. O raro, neste caso, não são as árvores cortadas perfeitamente, os bancos de granito intactos ou as mansões com grades e jardins, senão as próprias pessoas. O mais anômalo que salta aos olhos é o comportamento dos transeuntes que praticam footing ou saem a passeio com suas mascotes. Há um toque de comodidade neles, de esmero para cuidar dos seus corpos e suas vestes, do sossego derivado dos seus avatares cotidianos escassos. São como essa caricatura da burguesia que o discurso oficial tentou nos fazer odiar desde pequenos. Contudo, ali estão, com seu trote relaxado, sua roupa esportiva e esses kilos a mais que os privilégios, o desvio de recursos ou o poder dão a nossos ombros, sobre nossos ombros.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

O bom intelectual

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Perdido na metáfora o bom intelectual evita se aproximar da realidade pelo motivo que o universal tornará sua obra mais transcendente que o local. Esconde em alguma passagem simbólica do seu roteiro teatral, na parábola de um verso ou na forma apenas visível do canto da tela essa dose de crítica que depois lhe permitirá se pavonear que “nunca se calou”. Sabe muito bem sobre a censura, a simulação e o medo que corroem seu trabalho, porém responde irado a quem o lembra. E o que desejas? Que eu vá trabalhar na construção? Cutucará quem critique suas muitas concessões. Prefere abordar o erótico mais que o político, o passado antes que o presente, recriar os clássicos ao invés dos seus contemporâneos. Uma vez seu nome esteve nas listas negras e nas cinzentas, porém agora lhe homenageiam e lhe entregam medalhas. Tem acesso a Internet da sua própria casa e faz um par de anos desfrutou de um fim de semana com tudo pago num hotel de Varadero.

O bom intelectual fica na fila do Escritório de Interesses dos Estados Unidos esperando um visto, porém nesse dia põe óculos de sol e chapéu para que ninguém o reconheça. Profere conferências e roda pelas universidades do “Império” enquanto trata de adaptar seu discurso lá e aqui, não vá acontecer que pareça antiquado num lugar ou demasiadamente liberal em outro. Quando vêm delegações estrangeiras gosta de estar próximo, levar em casa algum visitante, comovê-lo um pouco para que lhe façam um convite para qualquer lugar do mundo… Porque no fim das contas “aqui não há quem viva”. Tem uma antena parabólica bem escondida no último quarto, porém ao falar com seus colegas simula que assistiu o noticiário nacional a noite ou a mesa redonda na quarta-feira passada. Um amigo lhe dá cópias dessas páginas proibidas nas quais nunca se atreve a entrar a partir do seu próprio computador.

O bom intelectual fica muito tranqüilo enquanto espera uma resposta a sua permissão de saída e quando regressa volta a se portar bem para que autorizem a próxima viagem. Parece-lhe que todo o tipo de ativismo ou evidente posicionamento político é coisa de quem não tem o talento da sua escrita ou do seu pincel. Olha de soslaio os que se desgastam em discussões sobre “reformas”, “mudanças” ou outras picuinhas fugazes. Porém quando toma um coquetel duplo se pergunta se terá alçado essas cúpulas artísticas pelo seu talento verdadeiro ou pelo exílio em massa dos que poderiam ser seus competidores. Guarda em alguma gaveta aquela canção que compôs com um nó na garganta, aquele poema onde se desnudava totalmente ou aquela boca em forma de grito que uma vez desenhou. Porque um “bom intelectual” nunca se descompõe, nunca se envolve em paixões sociais e nunca se deixa ser puxado para as ruas.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

Não sabem tudo, meu amor, não sabem…

sombras

Haverá microfones aqui?  Perguntas-me enquanto cravas o teu olhar em cada canto da casa. Não te preocupes, digo-te, minha existência corre com os ossos a mostra, com o punho saindo pelas costas. Não há lugar obscuro, fechado, privado… Porque vivo como se caminhasse através de um enorme aparelho de raios X. Aqui está a clavícula que quebrei quando menina, a briga que tivemos ontem por uma trivialidade doméstica e a carta amarelecida que guardo no fundo da gaveta. Nada nos salva do escrutínio, amor, nada nos salva. Porém hoje – ao menos por umas horas – não penses na polícia do outro lado da linha telefônica, nem na câmera de olho arredondado que nos capta. Esta noite vamos crer que só bisbilhotaremos um ao outro. Apaguemos a luz e por um curto momento mandemo-los ao diabo, desarmemos-lhes suas estratégias comandadas de “meter o bedelho”.

Com tantos recursos gastos em nos observar temos lhes escamoteado a faceta primordial de nossa vida. Não sabem – por exemplo – nem um só vocábulo desse idioma formado durante vinte anos juntos e que usamos sem sequer descolar os lábios. Tirariam zero em qualquer exame para decifrar o código complexo com que nós dizemos o trivial ou o urgente, o cotidiano e o extraordinário. De certo em nenhum dos perfis psicológicos que tem feito sobre nós se narra como penteias minhas sobrancelhas e brincas me advertindo que se continuarem revoltas acabarei parecendo com o Brezhnev. Nossos vigilantes, pobre deles, nunca leram a primeira canção que me fizeste muito menos aquele poema onde dizias que algum dia iríamos para Sidney ou a Bagdad. Não nos perdoam, além disso, que a cada ocasião nos escapemos deles – sem deixar rastro – sobre a diástole de um espasmo.

Como o agente Wiesler, no filme A vida dos outros, agora mesmo alguém nos escuta e não nos compreende. Não entende porque depois de discutir por uma hora nos aproximamos e nos beijamos. O policial atônito que segue nossos passos não consegue classificar nossos abraços e se pergunta o quão perigosas para “a segurança nacional” serão estas frases que me dizes somente ao ouvido. Por isso te proponho amor, que esta noite os escandalizemos ou os convertamos. Façamo-los tirar o ouvido da parede ou ao invés disso obriguemos-lhes a garatujar sobre uma folha: “1.30 am, os observados agem como querem”.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto

O outro Papa

Imagen tomada de radiomambi710.univision.com/

Faltam semanas para que o Papa Joseph Ratzinger chegue a Cuba, contudo já se respira algum incenso a distância. Num país onde muitos dos que rezam de dia nas Igrejas acendem velas a noite para uma deidade africana, a visita de sua Santidade desperta entusiasmo, mas também curiosidade. Os católicos preparam suas liturgias e suas pompas para receber Benedito XVI, enquanto outros tanto se perguntam se a sua chegada trará alguma transformação significativa na situação política ou social da nação. As pessoas querem acreditar que o Santo Padre virá impulsionar o processo de reformas raulistas, imprimindo-lhes maior velocidade e profundidade. Os mais iludidos até sonham com que a figura maior do Vaticano consiga o que deveria ser conseguido pela rebeldia popular: uma mudança verdadeira.

Há muitas diferenças entre este mês de março no qual sua Santidade aterrizará no aeroporto de Havana e aquele janeiro de 1998 quando João Paulo II o fez. O que foi conhecido como o “Papa viajante” veio precedido pelas histórias que o relacionavam com a queda dos regimes da Europa do Leste. Ratzinger, por seu lado, chegará num momento em que já há toda uma geração de cubanos que nasceu após o Muro de Berlim e que nem sequer sabe o que significa a sigla URSS. No final dos anos noventa, Karol Wojtyla acendeu nossos corações – inclusive dos agnósticos como eu – dizendo a palavra “liberdade” mais de uma dezena de vezes na Praça da Revolução. Porém agora a apatia e o desânimo tornarão mais difícil a mobilização da mesma emoção pelas frases de Ratzinger. Sua visita será mais um pálido reflexo daquela outra, porque já não somos os mesmos nem o Papa é o mesmo.

Tradução e administração do blog em língua portuguesa por Humberto Sisley de Souza Neto