Unanimidade

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Pigarreou antes de explicar porque estavam reunidos ali, no sóbrio teatro apenas usado para isso. Levava em suas mãos, como pauta, as diretrizes do VI congresso do Partido Comunista e atrás dele a mesa da presidência incluía funcionários municipais e provinciais. Antes de dar a palavra a alguém ressaltou que deveriam se ater aos escritos daquelas páginas e só seriam discutidos temas econômicos. Soletrou esta última palavra com ênfase para que não fossem exigir seu direito à “livre associação” ou reivindicar que lhes permitissem “entrar e sair livremente do país”. E-CO-NÔ-MI-COS voltou a silabar, abrindo os olhos e levantando as sobrancelhas com ênfase, enquanto olhava os empregados mais litigantes.

Com tal introdução a reunião se converteu num trâmite aborrecido, numa tarefa incorporada a jornada de trabalho. Mecanicamente dezenas de braços foram levantados ante a pergunta de se estavam de acordo com cada ponto. Silêncio incômodo depois das frases: “Quem está contra?” e alguma fadiga ao se escutar: “Quem se abstém?”. Só um jovem questionou a proibição vigente no país de se comprar automóveis e casas, mas imediatamente um militante tomou a palavra para ler um longo elogio à figura do Líder Máximo. Assim, sempre que alguém apontava um problema aparecia outro ressaltando as conquistas do processo. Os apologistas estavam situados em pontos eqüidistantes dentro do auditório e reagiam como de acordo com um roteiro estudado ou numa coreografia ensaiada. A sensação de estar numa assembléia preparada competia em intensidade com o desejo de ir – o quanto antes – para casa.

No outro dia o centro de trabalho havia retornado a sua rotina. Um mecânico que esteve sentado muito perto da presidência não recordava nem uma só diretriz. A garota do armazém resumiu para suas amigas as discussões da tarde anterior com um simples “Ah… o mesmo de sempre” e o chofer do administrador encolheu os ombros, cético, quando um colega lhe perguntou pelo acontecido. Muitos haviam vivido aquela jornada como a antecipação do que acontecerá dentro do Palácio das Convenções em abril próximo, um avanço em pequena escala do congresso do PCC cubano. Só que em poucos meses o verão na tela da televisão, porém, desta vez, terão sido eles que levantaram a mão, os que votaram unanimemente sob o olhar severo do diretor.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Do cabo, um filamento

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Aproxima-se, porém não chega; anunciam-no mesmo que não se concretize. Poderá ser avistado pronto da Punta de Maisí e, contudo, nos parece muito longe e remoto. O cabo de fibra ótica entre Cuba e a Venezuela foi por mais de dois anos a cenoura balançada ante os olhos dos que habitamos esta Ilha de desconectados. Seus delgados fios têm servido como argumento contra os que sustentamos que as limitações para acessar a web são mais por vontade política do que por carência de largura de banda. Temos estado atentos ao lento périplo do cordão umbilical que conectará La Guaira com Santiago de Cuba e ao barco que o transportou da França e a essas notícias onde anunciam que multiplicará por 3 mil nossas velocidades de transmissão de dados, imagens e voz. Porém algo nos diz que as fibras desse cabo já têm nome, dono e ideologia.

Com 640 gigabytes de capacidade, o novo esticado destinar-se á especialmente a projetos institucionais monitorados pelo governo. Quando a imprensa oficial menciona suas vantagens, insiste que “fortalecerá a soberania e a segurança nacionais”, porém nem uma palavra dirigida à melhoria do espectro informativo dos cidadãos. A um custo de 70 milhões de dólares esta conexão submarina mais parece destinada a nos controlar do que a nos ligar ao mundo, porém confio que conseguiremos inverter seus propósitos iniciais. Nestes tempos que correm, onde várias instalações da chamada Batalha de Ideias passaram a ser convertidas em hotéis para arrecadar divisas e se adverte que as empresas não rentáveis serão liquidadas, é muito provável que muitos dos seus pulsos digitais acabem em mãos de quem possa pagá-los. Com autorização ou sem ela, as horas de conexão serão postas a venda, leiloadas, num país em que o desvio de recursos é prática cotidiana e estratégia de sobrevivência.

Quando estivermos conectados a Venezuela pelo leito marinho, será mais imoral manter altos custos nos hotéis e outros lugares públicos para acessar a grande teia de aranha mundial. Também será perdida a justificativa para não se permitir que os cubanos contratem uma conta doméstica com a qual possamos ir ao cyberespaço e será mais difícil nos convencer do porque não temos ao alcance da mão o Youtube, Facebook e o Gmail. As conexões piratas aumentarão, o mercado negro de filmes e documentários se nutrirá desses megabytes que perambulam pela nossa plataforma insular. Nos centros de trabalho com Internet os empregados a usarão também para se inscreverem em sorteios de vistos, em sítios estrangeiros de busca de trabalho ou em chats amorosos. Não vão poder impedir que empreguemos esse cabo em algo muito diferente do projetado pelos que o compraram, esses que acreditam que uma Ilha pode ficar algemada, e bem algemada, por um simples cordão de isolamento de fibra óptica.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Velhinhos

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Comprou uma caixa de cigarros fortes mesmo sem ser fumante, uma bolsa de lona para encomendas apesar de levar outra consigo e dois monótonos exemplares do Granma de um mesmo dia. Fê-lo para ajudar esses velhinhos de corpos trêmulos e olhos manchados que vendem quinquilharias sem fim nas ruas de Havana. Gente com as pernas enrijecidas pela artrose, a bengala completando sua anatomia desajeitada e o cabelo encanecido pelos anos. Anciões e anciãs jogados no mercado informal exibindo sua mercadoria escassa nas entradas das avenidas Reina, Galiano, Monte e Belascoaín. Septuagenários obrigados a revender sua cota de alimentos – cada vez mais reduzida – e avozinhas de rosto triste que comem graças aos caramelos ou aos cones de amendoim que elas mesmas oferecem na saída das escolas.

Milhares de velhinhos cubanos tem tido que voltar – no final de suas vidas – para uma jornada de trabalho, desta vez marcada pela ilegalidade e o risco. Mãos que tremem pelo Parkinson exibem gulodices açucaradas nas paradas dos ônibus, rostos enrugadíssimos nos olham enquanto dizem que tem lâminas de barbear por somente cinco pesos. Suas pensões são extremamente baixas e o descanso merecido que planejavam ter converteu-se em dias agitados se escondendo da polícia. O sistema que ajudaram a edificar não pode hoje lhes dar uma velhice digna, não consegue lhes evitar a miséria.

Desajeitado e arrastando os pés, aquele octogenário da esquina apregoa que tem esponjas para esfregar e tubos de cola “louca” que cola tudo. Uma garota passa e verifica o conteúdo da sua moedeira, não chega nem para um nem para outro, porém amanhã voltará e para ajudá-lo comprará alguma coisa dele, mesmo que seja um desses jornais nacionais que só publicam rostos de anciões felizes e satisfeitos.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Julia e o abraço é possível

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A cafeteria da rua 13 entre F com G cheia – naquela tarde de dezembro – de policiais e admiradores. Os primeiros iam atrás desta inquieta blogueira como comparsas tragicômicos que dançam em volta do meu corpo e da minha casa; os segundos seguiam o rosto radiante da atriz Julia Stiles, seu riso como numa tela grande e cheia de cores. Confusão enorme quando viram a garota que interpretou a personagem de Nicky Parsons sentar-se na mesma mesa que a autora de Geração Y e conversar afetuosamente. É certo, a nova-iorquina conhecida lê um diário virtual, está interessada em saber mais além da imagem de postal turístico que é exportada sobre nossa realidade. Quis falar apenas sobre si mesma, ainda que não me tenha faltado vontade de indagar sobre sua vida profissional ou descambar para o lugar comum de pedir-lhe um autógrafo.

Julia e eu somos dessa geração de norte-americanos e cubanos que foi separada e confrontada por uma retórica alheia aos nossos desejos. Descendentes de Montescos e Caspuletos que trataram de nos deixar suas antipatias e ódios. Embora olhando objetivamente, não o conseguiram, e o resultado foi muito pelo contrário. Próximos, porém separados, afins, contudo irritados, muitos jovens daqui e de lá estamos fartos desta “guerra fria” defasada e das conseqüências que trás às nossas vidas. Assim foi que o encontro com Julia teve caráter de conciliação, como se em meio ao combate dois oponentes se aproximassem e começassem a se sondar e a se abraçar.

Ninguém na cafeteria sentiu o ruído das armas depostas, nem sequer os que ali estavam para nos olhar perceberam como desmontávamos os muros que nos separavam. No final a mulher risonha dos filmes e a “habanera” que deveria ser o homem novo deram outro abraço e disseram “até logo” uma à outra. Cada uma foi para o seu lado, regressou à sua vida, diante das câmeras ou em frente ao teclado, na grande Maçã ou num edifício modelo yugoslavo. Porém desde esta tarde, sempre que escuto a televisão bradar contra os vizinhos do Norte, lembro-me da Júlia, faço terapia lembrando seu riso e o pequeno armistício que conseguimos naquele dia.

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 Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Negócios com nicotina

Imagen tomada de www.esacademic.com

As mãos se movem cuidadosas e velozes, têm apenas 30 segundos para colocarem na parte inferior da mesa os tabacos que irão para o mercado negro. Duas câmeras vigiam o salão onde são enroladas as folhas perfumadas e terminam em caixas com o nome Cohiba, Partagás e H. Upmann. Cada olho de vidro gira 180 graus deixando – por um curto tempo – uma zona cega, uma estreita franja de trabalhadores sem vigilância. Bom momento para pegar, fora das vistas dos supervisores, aquele lancero (tipo de charuto) ou esse robusto (idem), que depois será vendido a margem do mercado oficial. Outro empregado se encarrega de pagar aos seguranças para conseguir tirá-la do recinto e em vinte e quatro horas seu aroma forte já estará nas ruas.

Quando meus alunos de espanhol perguntam sobre a qualidade dos tabacos que são vendidos “por fora”, brinco dizendo-lhes que no interior das ditas caixas bem poderiam encontrar o Granma enrolado. Contudo, também sei que uma boa parte dessa oferta clandestina é tirada dos mesmos lugares institucionais onde são confeccionados os exibidos nas lojas legais. Três em cada cinco habaneros (moradores de Havana), no caso de serem perguntados, vangloriam-se de conhecer um torcedor (fazedor de charutos) que consegue puros autênticos e frescos. O negócio da nicotina envolve milhares de pessoas nesta cidade e gera uma rede de corrupção e lucros de tamanho incalculável. Seu desafio é que o produto final se pareça com o comercializado pelo Estado, porém que custe três ou quatro vezes menos.

Entre as propostas mais comuns que os turistas recebem aqui são escutadas aquelas: “ïMister, cigars!” e “Lady, habanos!” que lhes são lançadas em cada esquina. Ao menos não se tornam tão chocantes como quando o proxeneta lhes sussurram um catálogo que inclui “Chicas, Chicos e Chicas com Chicos”. Desse modo a sequencia que começa na fábrica, nesses 30 segundos em que a lente da câmera olha para o outro lado, termina com um estrangeiro pagando por vinte e cinco tabacos o que de outro modo só daria para comprar um par. Todos saem felizes: o torcedor, o segurança, o vendedor ilegal e…o estado? Bem… Quem se importa?

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

A desvalorização da pirataria

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Com capa colorida e revestimento interno de nylon, a nova oferta de CDs e DVDs aparece em cada esquina da cidade. Vender música, séries televisivas e filmes é uma das profissões por conta própria que se expandiu – mais aceleradamente – nas últimas semanas. Todos querem ter seu próprio ponto de distribuição e os mais criativos oferecem compilações de um mesmo ator ou toda a discografia de uma cantora. Não há barreiras de direito autoral, enquanto os seriados norte-americanos e espanhóis são preponderantes em termos de cópias adquiridas. A pirataria deixou de ser algo sussurrado nos ouvidos dos interessados para se exibir publicamente em prateleiras improvisadas de madeira e papelão. Qualquer um pode mostrar as produtoras e as gravadoras, sempre e quando não ultrapasse a linha do ideologicamente aceito.

Chama a atenção que em meio à ousadia de se burlar o copyright, ninguém se atreve a oferecer os programas proibidos e populares que percorrem, sim, as redes alternativas de informação. Estão ausentes dos catálogos públicos esses documentários – tão vistos nos lares cubanos – que abordam nossa história nacional de uma ótica diferente da oficial. Não aparecem tampouco, nas estantes exibidas por portais e janelas, os filmes que mostram a situação da Romênia de Ceausescu, a Rússia de Stalin e a Coréia do Norte de Kim Jong Il. Os verdadeiros hits do mundo underground fariam perigar a licença liberada de qualquer trabalhador por conta própria. São conhecidas, inclusive, “visitas” de advertência feitas aos novos empresários, para que não lhes ocorra presentear certos materiais conflitivos. O pacto de censura se fechou.

Alheio ao tema do controle está a da rentabilidade destes pequenos negócios. Quando começaram a crescer, o preço de um DVD com cinco filmes estava por volta de 50 pesos nacionais. Hoje, em vista da profusão de vendedores, apenas passa de 30. Muitos deles não chegarão ao primeiro semestre como trabalhadores independentes. Outros diversificarão sua produção e ampliarão seus pontos de venda. Contudo, para se manterem no ramo e com lucros, provavelmente apelarão para essas temáticas hoje condenadas. Num par de meses uma boa parte deles terá, além da oferta visível, outra prateleira escondida, só para clientes confiáveis, para satisfazer os inquietos buscadores do proibido.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

O país das sombras longas

Há dois homens na esquina. Um usa fone de ouvido enquanto o outro olha para a porta do edifício. Todos os vizinhos sabem muito bem porque estão ali. Num dos andares vive um dissidente e os dois membros da polícia política observam quem entra e sai do lugar; conservam o automóvel por perto para segui-lo aonde quer que vá. Não tentam se esconder, pois querem fazer notar que esse sujeito de opiniões críticas é fichado, de modo que os amigos se afastem para não terminarem caindo eles também nas redes do controle, na teia de aranha da vigilância.

Não é um caso isolado. Aqui cada inconformado tem sua própria sombra ou grupo delas que o persegue. Ademais, os chamados “segurosos” usam técnicas sofisticadas de supervisão que vão desde intervir na linha telefônica, colocar microfones nas casas ou rastrear a localização do objetivo através do sinal do seu próprio telefone celular. Os efeitos são tão devastadores na vida pessoal e social de quem sofre uma dessas operações que chamamos a Segurança do Estado com nomes terríveis como: “o Aparato”, “o Armagedón ou “a Trituradora”.

Porém nem sequer estes militares vestidos de civil podem escapar do escárnio popular. Há várias piadas acerca da desmesurada proporção de “segurosos” que rondam ao redor de cada opositor. Num tom baixo e olhando por sobre o ombro, muitos apontam com ironia: “Com tantos braços que fazem falta na agricultura e, olha estes aqui, vigiando o dia todo o que pensa diferente”. Pois bem, que diferença se observaria se, ao invés de penalizarem a opinião, se dedicassem a trabalhos produtivos; se ao invés de projetarem sua sombra longa sobre os críticos do sistema, a deixassem cair sobra uma mudinha de alface ou de tomate, sobre esse sulco – hoje vazio – que eles poderiam a ajudar a semear.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto