Liberação

barrotes

Esta não é a crônica de uma mulher que consegue escapar do marido abusador nem a história do adolescente que foge de pais autoritários. O título se ferere a outro processo de emancipação, a essa permissão – trapaceira e feudal – que os médicos, enfermeiras e farmacêuticos devem pedir para viajar para fora desta Ilha. Sob o significativo nome de “liberação”, existe um procedimento obrigatório que os trabalhadores de Saúde Pública devem cumprir seja para uma saida temporária ou definitiva. No processo do possível viajante se incluiu se este possui casa ou automóvel próprios, pois o Estado os confiscará se não voltar antes de 11 meses. O trâmite passa por numerosos níveis de autorização que podem demorar um ano ou uma década. Muitos nunca recebem resposta.

Mario atendia os pacientes como especialista e começou a ser visto como um desertor quando anunciou o desejo de reunir-se a sua família no outro lado do mar. Imediatamente o castigaram com uma ocupação de médico generalista num corpo de guarda bem longe da sua casa. O lembravam a cada dia que o título que ornava a parede da sua sala havia sido dado pela Revolução que agora traía. Engolindo em seco suportou cinco anos suturando punhaladas e perguntando por esse salvoconduto – para abandonar o país – que o ministro do seu ramo ainda não havia assinado. “Temos muitos casos, não damos conta” lhe repetia a secretária e sua esposa exilada caía no choro pela linha telefônica quando ele contava para ela. Seus filhos, enquanto isso, cresciam sem pai num lugar distante.

Em sua impotência, Mario chegou a censurar sua mãe por havê-lo orientado para estudar medicina. “Por que não me advertiste?”, gritou-lhe numa tarde em que já não podia sair do país com aquele uniforme branco que se havia convertido no seu grilhão. Quando lhe permitiram subir no avião, um círculo de calvície se delineava no centro da sua cabeça e um tic nervoso havia se apoderado de suas mãos. As boasvindas num aeroporto longínquo não foram para o ativo ortopedista de anos atrás, senão para alguém decidido a abandonar os hospitais. O angustiante processo de “liberação” lhe havia tirado a vontade de consertar um joelho ou corrigir um tornozelo; não deixava de pensar que aquela profissão o havia separado da sua família.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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