Vontade de gritar

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A vida nunca volta à normalidade. Não retorna a este momento antes da tragédia que agora – ilusoriamente – evocamos como um período de calma. Abro a agenda, tento renovar minha vida, o blog, as mensagens no Twitter… Porém nada consigo. Estes últimos dias foram muito intensos. Só tenho cabeça para rememorar o rosto, nas penumbras, de Reina Tamayo ante o necrotério, onde preparou e vestiu seu filho para a mais longa viagem. Depois se acumulam as imagens da quarta-feira: detenções, golpes, violência, um calabouço fedendo a urina que era próxima de outro onde Eugenio Leal e Ricardo Santiago exigiam seus direitos. O resto do tempo tem sido caminhar como uma boneca, olhar sem ver, teclar com fúria.

Desse modo não há quem escreva uma linha coerente e moderada. Tenho tanta vontade de gritar, porém fiquei rouca em 24 de fevereiro.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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Testemunho da mãe de Orlando Zapata Tamayo

Esta tarde (23/2), horas depois da morte de Orlando Zapata Tamayo, Reinaldo e eu pudemos aproximar-nos do departamento de Medicina Legal na rua Boyeros.

Um cordão de homens da segurança do estado vigiava o lugar, porém conseguimos aproximar-nos de Reina, mãe do falecido, e fazer-lhe estas perguntas.

Dor, indignação em nós…tristeza profunda nela.
Aqui deixo a gravação, alternativa e sem luz, porém testemunho pungente da angústia de uma mãe.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Cúpula Euro Latinoamericana

Cúpula Euro Latinoamericana

Para assistir direto a transmissão via Internet da apresentação da próxima cúpula Euro Latinoamericana pelo Secretário de Estado para Iberoamérica do Governo da Espanha, Pablo de Laiglesia, coloquei vários links para o evento.

Esta é uma atividade organizada pela Sociedade das Índias Ocidentais para a blogosfera latinoamericana.

Aqui tem um vídeo e mais abaixo o link para comentar o que vai ocorrendo, além de uma transcrição em texto de toda atividade.

Para que os leitores possam comentar, este é o link:

http://www.lasindias.coop/presentacion-de-la-cumbre-eurolatinoamericana-a-la-blogsfera-latinoamericana/#respond

A transcrição do que ocorrer pode ser vista aqui:

http://www.lasindias.coop/presentacion-de-la-cumbre-eurolatinoamericana-a-la-blogsfera-latinoamericana/

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

O azar

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Pudeste haver sido uma prostituta vendendo seus favores ou mesmo uma interrogadora da segurança do estado. As necesidades eram tantas que entregar teu corpo em troco de um frasco de xampú ou de uns sabonetes foi uma possibilidade muito próxima. Só que tua silhueta era muito frágil para a troca e tinhas uma pele muito branca para esses estrangeiros que vinham buscando o tom canela dos anúncios turísticos. Faltou-te um “tantinho assim” para vestir o apertado traje de troca de sexo por dinheiro e ficar na porta de um hotel para tirar a família da dificuldade.

Estiveste também a ponto de trajar um uniforme quando ao terminar o nono grau pensaste em ir para a escola militar Camilo Cienfuegos, para sair de uma casa onde abundavam as proibições e a miséria. Acreditaste que estavas preparada para converteste num soldado de lábios contraídos para ter acesso à esses pequenos privilégios que vias os membros do MINFAR e do MININT desfrutarem. O conselho oportuno de um amigo te fez desistir dos gritos de “iFirmeeee!” e do tiroteio constante de um fuzil AK. Porém se naquela tarde de 1990 não houvesses escutado a pergunta “Que tu vais fazer no meio de ordens e trincheiras?” talvez agora estarias intimidando alguém numa casa fechada da Vila Marista.

Poderias ter sido balseira, suicida, amante de um ministro, censora ou prisioneira política, policial ou vítima. Não era possivel transcender indene aquela crise dos anos noventa que te coube viver, o descalabro dos valores e o cenário marginal onde havias crescido. Algo de ti ficou numa lycra vermelha colocada numa esquina e na dragona de um tenente, nessas possiveis pessoas que pudeste ser e das quais o azar, a eventualidade e tua própria aversão te salvaram.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

GPS

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A propósito das conversações sobre migração entre Cuba e Estados Unidos que estão ocorrendo hoje em Havana.

Carlitos finalmente chegou em Atlanta, depois de tentar cinco vezes cruzar o estreito da Flórida. Em duas ocasiões foi interceptado pelos guardacostas norteamericanos e devolvido à Ilha. Guardou durante meses o documento amarelo que lhe deram para que solicitasse – de maneira legal – um visto na Seção de Interêsses dos Estados Unidos. Contudo ele preferia um caminho mais rápido para deixar para trás o quarto que dividia com a avó e o assédio dos policiais do seu bairro. Foi capturado também pela parte cubana, num 13 de agosto faz tres anos, quando o barco quebrou a hélice e a viagem terminou num calabouço do povoado de Cojímar. Alí lhe deram uma multa e desde esse dia um agente vestido de civil começou a visitá-lo para exigir que procurasse um trabalho.

Depois de comprovar seus parcos dotes como marinheiro, este jovem de 32 anos conseguiu ir para o Equador, um dos poucos países que ainda não exige visto dos cubanos. A nação sul americana foi o trampolim para entrar no território estadounidense, onde hoje trata de começar uma vida nova. Deixou nas mãos de uns amigos o GPS que o havia ajudado em suas travessias e aquele formulário que nunca preencheu para pedir um visto humanitário. Não marchou para um destino determinado, senão que foi espantado pelo quarentão frustrado em que temia converter-se. Nem sequer nos seus dias de maior otimismo podia augurar que chegaria a ter um teto próprio, nem um salário que o impedisse de desviar recusos do Estado para sobreviver.

Como tantos outros cubanos, Carlitos não pode esperar que as promessas que nos fizeram quando crianças se materializassem. Não quis envelhecer sentado na calçada em frente a sua casa, acalmando seu fracasso com álcool e alguma outra pílula. Planejou todo tipo de escapadas, porém finalmente um tio pagou a passagem para que chegasse a Quito com a ilusão de poder trazer depois o resto da família. Contudo sonha com lanchas que se aproximam em meio a noite e o levam algemado para Cuba cheirando a salitre e petróleo. Perde o sono e olha ao redor, para comprovar que continua no pequeno apartamento que alugou com uma amiga. “Balseiro uma vez, balseiro sempre” murmura e se acomoda na almofada, tentando sonhar com terra firme.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Autonomia universitária

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Escutei centenas de vezes que o espaço universitário – como um santuário – não podia ser invadido pelos demônios da repressão. Imaginei que estes revoavam ao redor da escadaria sem poder entrar nessa zona de letras e fórmulas matemáticas onde se abrigam os alunos. Porém essa suposta imunidade só existia nas minhas fantasias, pois a história cubana mostra as transgressões sucessivas que as universidades do meu país sofreram. Ante o olhar de Palas Atena, o castigo irrompeu uma infinidade de vezes nesses recintos destinados ao conhecimento e erudição.

Durante a primeira metadde do século XX, vários protestos de estudantes chegaram a exigir até a renúncia do presidente, evidenciando a força social que emanava das escrivaninhas. Nos muros ao redor da Colina, ainda se observam as pinturas da inconformidade juvenil que as depurações revolucionárias posteriores reduziram à apatia. A Federação Estudantil Universitária deixou de ser aquele formigueiro de ideias e ações que mais de uma vez sacudiram a cidade, para se converterem numa representação do poder frente aos educandos. A organização perdeu assim todo ser caráter rebelde e seus líderes já não são eleitos pelo seu carisma ou popularidade senão pela sua confiabilidade política. O slogan “a universidade é para os revolucionários” contribuiu para impor a máscara como o método mais seguro para conseguir um diploma.

Nestes dois anos, desde que Raúl Castro chegou ao poder, as expulsões por motivos ideológicos se mantiveram – com tendência de alta – nos centros de estudos superiores. Quando Sahily Navarro – filha de um prisioneiro da Primavera Negra – foi impedida de regressar às aulas, eu soube que a maltratada liga estudantil havia passado da agonia para a necrose. Poucos dias depois, a lápide do sectarismo cobriu os restos da FEU ao afastar Marta Bravo do seu curso de professora, por exigir reformas no país. Os acordes do réquiem foram compostos pelos que afastaram da docência Darío Alejandro Paulino, depois de abrir um grupo no Facebook para discutir questões da faculdade de Comunicação Social. Com estes tristes acontecimentos, a federação – que uma vez foi liderada por Julio Antonio Mella – confirmou seu falecimento nas mãos dos dragões do dogmatismo e da intolerância, que hoje passeiam livremente pelo seu campus universitário.

*No Facebook foi criado um grupo chamado “Basta de expulsões nas Universidades cubanas” para protestar – ao menos virtualmente – contra estas arbitrariedades.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Regressaram

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Planícies, neve, maçãs e o ruído de um machado que cortava a lenha em pedaços desiguais. Dessas imagens e sons alheios nossa infância se nutriu devido a presença excessiva da União Soviética na Cuba dos anos setenta e oitenta. Tiritávamos de frio olhando os desenhos animados checos e búlgaros, enquanto fora o sol do trópico nos recordava que continuávamos no Caribe. Aguns soubemos dizer primeiro “koniec” do que articular o monossílabo “fim”, até que um dia os ursos emigraram, deixando-nos sem os filmes de soldados vitoriosos e mujiques sorridentes.

Depois de 1991 as abundantes tiragens da editora russa MIR só podiam ser encontradas nas livrarias de segunda mão sob o manto empoeirado do abandono. Neste fevereiro, contudo, a Feira Internacional do Livro dedicou sua XIX edição ao país que durante décadas foi mentor e suporte econômico do processo cubano. Os camaradas que anteriormente pagavam pelo nosso açúcar preços astronômicos – enquanto nos vendiam seu petróleo por uma bagatela – retornaram vestidos de terno e gravata. Aterrizaram na iha que uma vez subsidiaram, porém desta vez para comercializar suas obras impressas em cores brilhantes e temáticas alheias ao marxismo.

Na esplanada da Fortaleza de la Cabaña se entrecruzaram as longas filas para comprar os novos títulos chegados do Leste. Meninos aqui e alí folheam as páginas onde aparecem espigas de milho douradas e gente coberta por chapéus com enormes protetores de orelhas. Porém já não é o mesmo. A presença obrigatória que uma vez essa iconografia teve em nossas vidas é, para esses pequeninos de hoje, mera curiosidade pelo exótico. Em suas mentes infantis, os abetos não substituirão as palmeiras nem as raposas as lagartixas; Rússia será para eles só uma região longínqua e diferente.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto