O que nos prometeram

bloqueo

Eu usava um uniforme branco e vermelho, tinha dez anos e o tema do “bloqueio” era apenas mencionado nos livros ideologizados que me entregavam na escola. Eram os tempos de otimismo e acreditávamos que as vacas F1* dariam leite suficiente para inundar todas as ruas do país. O futuro tinha esses matizes dourados que não findavam de se mostrar na nossa realidade desbotada, porém éramos um tanto daltônicos para notá-lo. Acreditávamos haver encontrado a fórmula para estar entre os povos mais prósperos do planeta, de maneira que nosso filhos habitaríam um país com oportunidades para todos.

Da tribuna, um líder barbudo levantava seu dedo desafiante ao Norte, pois contava com a vara do subsídio do Kremlin para saltar qualquer obstáculo na construção do comunismo. “Apesar do bloqueio…” dizia-nos, com a mesma convicção com que anos antes nos havia falado de dez milhões de toneladas de açucar*, plantações de café ao redor das cidades* e uma suposta industrialização do país que nunca chegou. Tivemos que interromper os sonhos quando a tubulação de petróleo e rublos secou abruptamente. Chegaram os anos de começar a explicar o descalabro e de comparar-nos com as nações mais pobres da região, para sentirmo-nos – senão felizes – ao menos conformados.

Ao começar minha adolescência, o tema das limitações comerciais estava em quase todos os muros do país.Nas marchas políticas já não se gritava “Cuba sim, yanquis não” senão uma nova palavra de ordem de rima difícil “Abaixo o bloqueio”. Eu olhava o prato quase vazio e não podia entender como haviam conseguido bloquear as mangas, o suco de laranja, as bananas e os limões. Formei-me repudiando o bloqueio, não porque afundara aquele país que poderíamos ser e nos haviam impedido, senão porque tudo o que não funcionava tentavam explicar apontando para ele.

Se meus amigos se iam em massa do país, era a política de fustigamento dos Estados Unidos; se no hospital maternidade as baratas caminhavam pela parede a culpa provinha dos norteamericanos; inclusive se numa reunião expulsavam da universidade um colega crítico, explicavam-nos que este havia se deixado influenciar ideológicamente pelo inimigo. Hoje tudo começa e termina no bloqueio. Ninguém parece lembrar aqueles tempos em que nos prometeram o paraíso, em que disseram que nada – nem sequer as sanções econômicas – iria impedir que deixássemos para trás o subdesenvolvimento.

Notas do tradutor:

Vacas F1: um cruzamento de gado Holstein e Zebu. Fidel acreditava que este gado tornaria Cuba exportadora de carne e laticínios. Não funcionou; leite e carne são severamente racionados em Cuba

Dez milhões de toneladas de açúcar: em 1970 Fidel mobilizou todos os recursos do país para a obtenção da colheita recorde de dez milhões de toneladas de açúcar, até mesmo “mudando” a data do Natal para julho, evitando assim a interferência com o trabalho. A meta foi perdida e a produção do açúcar cubano tem declinado a partir daí; em 2009 o total foi meramente de um milhão de toneladas.

Café crescendo nas cidades: Fidel tinha um plano para plantar café em Havana apesar dos avisos de clima desfavorável; isto não funcionou.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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