Pandemia e detergente

viva_los_trabajadores

Persigo – sem êxito – um frasco de detergente para limpar esses recipientes marcados pela gordura e pelas impressões digitais, que já não saem só com a água e o trapinho. Atrás do saponáceo líquido hoje caminhei por parte de Havana, pois os anúncios televisados chamam-nos para aumentar a higiene frente ao avanço do H1N1. Com certeza, o alerta provocado pela epidemia não fez com que as lojas diminuissem os produtos de limpeza, nem sequer o custo de um simples sabão que equivale ao salário de toda uma jornada de trabalho. No lugar disso, ocorreu o contrário. O colapso das importações se faz mais notável naquilo que serve para banhar-se ou desinfetar.

A voz do locutor nos chama à lavarmos as mãos frequentemente, usar lenços quando espirramos e manter uma boa higiene pessoal, porém a realidade nos obriga a imundície. Faltam as máscaras, a água corrente em muitas casas, a simples posse de vitamina C para fortalecer o organismo e a limpeza nos lugares públicos. A chamada “gripe suína”, tem assim, um terreno propício onde se propagar. Enquanto avança em nosso bairros, os canais oficiais mantem sua moderação e não mencionam as escolas fechadas, os lugares em quarentena e os hospitais repletos.

Esta ilusão de paraíso está nos matando. Este querer aparentar que vivemos melhor e que nossas estatísticas se afastam da média mundial, não consegue esconder a fragilidade da nossa sociedade frente uma epidemia que exige recursos materiais em mãos cidadãs. Se ensaboar o corpo ou ter um pouco de álcool para esterilizar as mãos se convertem em luxos, como vamos deter a pandemia que já temos em cima? Se nem sequer chegou a quota de sabão de setembro ao mercado racionado, como é possível que na televisão se convoque à higienização sem aludir a base material para consegui-la? É que não haviam percebido antes que estávamos afundando na sujeira? Tinham que causar danos a conjuntivite, as diarréias e os virus para que reparassem que a saúde não é somente o jaleco branco e o estetoscópio, senão que começa nas ruas, no recolhimento do lixo, nos chuveiros das casas e nessa mãe que não pode limpar o prato onde seu filho comerá.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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