A portas fechadas

Não sei por onde começar a contar o ocorrido no debate de ontem sobre a Internet, organizado pela revista Temas. Sem dúvida, a peruca loura que coloquei me permitiu entrar pela controlada entrada do centro cultural Fresa y Chocolate. Isso e os sapatos altos, os lábios pintados, as argolas brilhantes e uma enorme bolsa de cor chocante, fizeram-me transmutar num ser bastante diferente. Alguns amigos chegaram a me dizer que eu parecia melhor assim, com a saia apertada e curta, o contorno sensual e os óculos de armação quadrada. Sinto por eles, a personagem que interpretei durou pouco tempo e hoje voltei à minha aparência desgrenhada e chata.

À Claudia, Reinaldo, Eugenio, Ciro e outros blogueiros não foi permitida a entrada. “A instituição se reseva o direito de admissão” e meus colegas de ciberespaço mostraram a impertinência dos que já foram excluídos em outros lugares, porém não querem se retirarem envergonhados e em silêncio. Dentro, eu conseguia pegar uma cadeira num lado do painel dos expositores. Alguns olhos sagazes já haviam detectado minha frágil fisionomia e uma câmera me filmava com a insistência de quem prepara um processo.

Um escritor jovem pediu a palavra e lamentou que tantos houvessem sido impedidos de entrar; depois veio alguém e mencionou palavras como: “inimigo”, “perigo” e “defendernos”. Quando finalmente fui chamada, aproveitei para perguntar que relação havia entre as limitações da banda larga e as páginas web censuradas para o público cubano. Aplausos quando terminei. Juro que não pedi nenhum deles. Depois chegou uma professora universitária que questionou o porque de eu ter recebido o prêmio Ortega y Gasset de jornalismo. Contudo não consegui encontrar a relação entre a minha pergunta e sua análise, porém os caminhos da difamação são tortuosos desse modo. Ao terminar, vários acercaram-se para abraçar-me, uma mulher, apenas com o roçado da mão me disse “felicidades”. O frescor de uma noite de outubro me esperava lá fora.

Se todos os impedidos de entrar tivessem conseguido participar, aquele haveria sido realmente um espaço de discussão sobre a rede. O ocorrido me pareceu melancólico e manietado. Somente um dos conferencistas mencionou conceitos como Web 2.0, redes sociais e Wilkipedia. O restante era a vacina antecipada contra a web perversa, as justificações repetidas do porque os cubanos não podem acessar massivamente a rede. Peguei meu celular e twittei com violência “creio que o melhor é organizar outro debate sobre a Internet, sem os pesos da censura e da exclusão”. Hoje pela manhã, com as olheiras de haver dormido apenas tres horas, estava entregando manuais técnicos na segunda sessão da nossa Academia Blogger.

Algumas imagens deste vídeo me chegaram por mãos amigas e solidárias que estavam no interior da sala.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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Na ausência e com carinho

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Esqueci-me da última vez que chorei, mesmo que não seja especialmente forte com os vais e vens da vida, na verdade me considero sentimental e dada à lágrima. Com certeza, desde mais de um ano, me propus ser feliz a todo o custo, dar-me goles de placidez na espera de tempos piores. Resisto a que me manchem o sorriso, a que me convertam numa paranóica que sempre olha sobre os ombros para ver se a perseguem.

Essa inclinação infantil à traquinagem me permitiu suportar as negativas de viagem, o círculo radiativo em que tentam me envolver, os insultos, as campanhas de difamação, o contrôle da polícia política e até a neurose de possíveis microfones na minha casa. Tenho tratado de celebrar inclusive o que me tiraram, como a possibilidade de viajar, assistir as cerimônias de diversos prêmios, acessar Geração Y das redes cubanas, contatar com muitos amigos, entrar em eventos culturais no meu próprio país e presenciar o lançamento dos meus livros.

Precisamente hoje estou ébria de satisfação porque uma compilação dos meus textos, intitulada “De Cuba, com carinho…”, será apresentada esta tarde no Brasil. Atenta às tres horas de diferença que me separam do Rio de Janeiro, vou festejar as cinco da tarde a bela edição dos meus posts em português. Meus dentes serão vistos a vários metros de distância, não só porque os tenho grandes e separados, senão pela gargalhada permanente que levarei pendurada na cara. Uma risada corrosiva não compreendida pelos rostos carrancudos dos que me impediram de chegar até lá; punhalada de regozijo que corta e atravessa os que não sabem lidar com a inesperada alegria do cativo.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

O que nos prometeram

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Eu usava um uniforme branco e vermelho, tinha dez anos e o tema do “bloqueio” era apenas mencionado nos livros ideologizados que me entregavam na escola. Eram os tempos de otimismo e acreditávamos que as vacas F1* dariam leite suficiente para inundar todas as ruas do país. O futuro tinha esses matizes dourados que não findavam de se mostrar na nossa realidade desbotada, porém éramos um tanto daltônicos para notá-lo. Acreditávamos haver encontrado a fórmula para estar entre os povos mais prósperos do planeta, de maneira que nosso filhos habitaríam um país com oportunidades para todos.

Da tribuna, um líder barbudo levantava seu dedo desafiante ao Norte, pois contava com a vara do subsídio do Kremlin para saltar qualquer obstáculo na construção do comunismo. “Apesar do bloqueio…” dizia-nos, com a mesma convicção com que anos antes nos havia falado de dez milhões de toneladas de açucar*, plantações de café ao redor das cidades* e uma suposta industrialização do país que nunca chegou. Tivemos que interromper os sonhos quando a tubulação de petróleo e rublos secou abruptamente. Chegaram os anos de começar a explicar o descalabro e de comparar-nos com as nações mais pobres da região, para sentirmo-nos – senão felizes – ao menos conformados.

Ao começar minha adolescência, o tema das limitações comerciais estava em quase todos os muros do país.Nas marchas políticas já não se gritava “Cuba sim, yanquis não” senão uma nova palavra de ordem de rima difícil “Abaixo o bloqueio”. Eu olhava o prato quase vazio e não podia entender como haviam conseguido bloquear as mangas, o suco de laranja, as bananas e os limões. Formei-me repudiando o bloqueio, não porque afundara aquele país que poderíamos ser e nos haviam impedido, senão porque tudo o que não funcionava tentavam explicar apontando para ele.

Se meus amigos se iam em massa do país, era a política de fustigamento dos Estados Unidos; se no hospital maternidade as baratas caminhavam pela parede a culpa provinha dos norteamericanos; inclusive se numa reunião expulsavam da universidade um colega crítico, explicavam-nos que este havia se deixado influenciar ideológicamente pelo inimigo. Hoje tudo começa e termina no bloqueio. Ninguém parece lembrar aqueles tempos em que nos prometeram o paraíso, em que disseram que nada – nem sequer as sanções econômicas – iria impedir que deixássemos para trás o subdesenvolvimento.

Notas do tradutor:

Vacas F1: um cruzamento de gado Holstein e Zebu. Fidel acreditava que este gado tornaria Cuba exportadora de carne e laticínios. Não funcionou; leite e carne são severamente racionados em Cuba

Dez milhões de toneladas de açúcar: em 1970 Fidel mobilizou todos os recursos do país para a obtenção da colheita recorde de dez milhões de toneladas de açúcar, até mesmo “mudando” a data do Natal para julho, evitando assim a interferência com o trabalho. A meta foi perdida e a produção do açúcar cubano tem declinado a partir daí; em 2009 o total foi meramente de um milhão de toneladas.

Café crescendo nas cidades: Fidel tinha um plano para plantar café em Havana apesar dos avisos de clima desfavorável; isto não funcionou.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Nomadismo no ciberespaço

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Como eu gostaria que Generacion Y tivesse um desses domínios “.cu” que indicam sua origem em território nacional. Daria minha mouse e a metade da outra para ir à um escritório e dizer “Senhorita, por favor, venho hospedar meu blog num servidor dentro desta ilha”. Porém essa possibilidade está vedada à nós, cubanos, pois o estado aqui não só é dono de todas as fábricas, escolas, lojas e latões de lixo, senão também patrão absoluto da parcela do ciberespaço que nos cabe.

Só as instituições oficiais podem ter um desses endereços web que apontam para esta “ilha dos desconectados”. O mesmo filtro político que condiciona se uma pessoa pode viajar, comprar um automóvel ou graduar-se na universidade, opera no momento de se conseguir uma URL nacional. Daí que possuir um sítio doméstico seja mais um sinal de submissão do que de nacionalismo, uma clara pista da anuência estatal que está por trás de certas publicações. Por isso prefiro estar entre os “não documentados da rede” que conseguimos fazer uma paliçada longe desses rígidos capatazes.

Gostaria de ter desenvolvido esta tese da nossa indigência como internautas no Palácio das Convenções, semana passada, durante o evento FELAFACS*. O encontro teve os ares de debate que acontecem quando há convidados estrangeiros. Com certeza, excluiu os que – na própria área – têm critérios diferentes. Foi apresentada uma conferência – oriunda do Brasil – intitulada “Geração Y e Nomadismo Ciberespacial: reflexões sobre formas de pensar na era digital” dos acadêmicos Angela Schaun e Leonel Aguiar, que foi lida pelo colega José Mauricio Conrado Moreira da Silva. Uma professora universitária exaltada arremeteu contra o conferencista, recordando-lhe que GY está localizado fora de Cuba. O que não disse – porque a omissão é a embalagem em que se embrulha a mentira – é que só assim poderia existir, que somente longe um cidadão pode ter seu próprio espaço de opinião.

Como um garanhão que provou do gosto da cavalgada virtual, já não posso regressar à baia, ao chicote e aos grilhões. Meu blog algum dia encontrará espaço num servidor desta Ilha e – creiam-me – não terá para isso que passar pelo arco da pirueta ideológica.

*XIII Encontro latinoamericano de faculdades de comunicação social.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

O novo cartismo

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As caixas de correio se parecem com as urnas eleitorais, têm uma fenda para introdução do papel e seu conteúdo – seja uma carta ou cédula de voto – recebe desrespeito parecido nesta Ilha. Apesar das limitações da correspondência, resulta mais facil fazer chegá-la ao seu destino do que com o nosso voto incidirmos no curso do país. Daí que um dos esportes mais praticados por meus concidadãos seja o de escrever suas queixas às instâncias superiores, dirigidas justamente aos causadores da maior parte dos nossos problemas.

Uma senhora escreve um longo lamento sobre a poça de esgoto que brota no pátio da escola próxima; o vendedor de pizzas denuncia por escrito o inspetor que exige dele uma porcentagem das vendas em troca de não fechar seu quiosque; aquele paciente que necessita de uma cirurgia coloca sua carta contando que está há um ano esperando entrar na sala de cirurgia. As reclamações são tantas que em muitos ministérios o recebimento de cartas corresponde a um departamento com vários empregados. Uma verdadeira inundação de folhas que repetem – sempre – o cabeçalho “Por este meio, dirijo-me ao senhor…”

De um tempo para cá apareceu a modalidade digital da carta que se faz circular pela intranet de várias instituições. De forma similar, iniciou-se a polêmica intelectual de 2007 e agora vemos surgir os critérios inconformados de várias personalidades da cultura. Pela minha tela desfilaram a carta do ator Armando Tomey, outra do crítico literário Desiderio Navarro e uma muito boa de Luis Alberto García, que interpreta o personagem Nicanor em curtas de Eduardo del Llano. O cartismo veio substituir o referendum indispensável através do qual expressar nossas reclamações de mudança.

Nossa tendência epistolar tem semelhanças com aquele movimento da Inglaterra antiga que conseguiu mais de um milhão de assinaturas para apresentar A Carta do Povo ante a Câmara dos Comuns. Os cartistas de então conseguiram pressionar para que se introduzissem certas reformas, porém tenho a impressão de que nossos memorandos são papel molhado, burla de cédula, tinta que se dilui frente a inércia estatal.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Lançamento: De Cuba, com carinho

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Rio de Janeiro:
Debatedores: Dep. Fernando Gabeira, Pedro Doria, Carlos Alberto Teixeira e Paulo Uebel
Mediador: Renato Galeno –
Data: 29/10/2009 – Horário: 19h
Local: Auditório do O Globo
Endereço: Rua Irineu Marinho, 35 – Centro
Rio de Janeiro – RJ
Informações: (21) 2220-4466
OBS: A quantidade de lugares é limitada, por isso é importante chegar o mais cedo possível.

São Paulo
Debatedores: Sen. Eduardo Suplicy e Eugênio Bucci
Mediador: Jaime Pinsky
Data:06/11/2009 Horário: 19h
Local: Livraria Cultura – Conjunto Nacional
Endereço: Av. Paulista, 2073 – Bela Vista – São Paulo
(próx. ao Metrô Consolação)
Informações:(11) 3170-4033
OBS: A quantidade de lugares é limitada, por isso é importante chegar o mais cedo possível.