Computador irregular

los-aldeanospict2web

Bateram na porta com um mandado de busca que a mãe de Aldo apenas pode ver. Foram direto ao quarto para se apoderarem do computador onde se armazenam as letras das canções que circulam por todo o país. Não houve maneira de fazer ver à polícia que aquele homem de cabelo comprido e tatuagens por todo o corpo não era um delinquente. Aos uniformizados, pouco importa o hip hop, e um cabeludo tatuado é o que mais lhes parece com um malfeitor. Não levaram em conta que à este, apenas uma semana antes, Juanes havia evocado na Praça da Revolução quando mencionou o grupo Los Aldeanos. A notícia da detenção se espalhou e até o próprio cantor e compositor Silvio Rodríguez intercedeu para que lhe devolvessem o computador e o deixassem ir para casa.

Aldo e Bian foram separados de quase tudo, menos desse dom para a música que a censura não conseguiu tirar-lhes. Uns amigos distribuiram impressos para denunciar a exclusão do popular dueto e propuseram que “assumir estes homens como órgãos vitais da nação, é questão de honra”. Porém a nossa é uma sociedade internada em terapia intensiva, com partes transplantadas e uma máquina de diálise conectada nessa zona onde deveria funcionar uma cidadania. Vivemos numa Ilha onde se extirpa e se amputa porque uns poucos diagnosticam que um membro tem gangrena, quando na realidade é – simplemente – diferente.

Ao levarem o músico com seu computador – que não tem papéis de propriedade como a grande maioria que há em Cuba – talvez estivessem aplicando-lhe uma injeção de susto, a conhecida medicação para aumentar o medo. Porém já não funciona como antes. Agora, a apreensão se transforma em canções, em blogs, em discos que circulam de mão em mão, enquanto que os confiscos e as detenções só conseguem que cheguem mais longe.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Prognósticos e prazos não cumpridos

aldana_entrevista

Por este dias, vou submergir – outra vez – nos trâmites da permissão para viajar fora de Cuba. A possibilidade de estar 14 de outubro na Universidade de Columbia para a entrega do María Moors Cabot é remota, porém vou continuar com a burocracia. Tampouco tenho muitas esperanças de ir na apresentação do meu livro no Brasil, ainda que o senado desse país haja feito gestões para conseguir que embarque no avião. Todas estas dificuldades para obter a permissão de saída, fazem-me evocar as palavras ditas fazem dezoito anos por Carlos Aldana, um filho menor caído em desgraça e que – segundo se diz – atualmente dá aulas de marxismo para adultos da terceira idade.

Numa entrevista de 1991 para a revista espanhola Cambio 16, o outrora numero tres do poder em Cuba afirmou que: “este ano os cubanos poderão viajar livremente ao exterior”. Só que não precisou se iríamos fazê-lo com as asas da imaginação e se um ano continha doze meses ou quase duas décadas. Para que revisem suas declarações de então e comprovem quanto nos continuam repetindo os mesmos estribilhos, mostro-lhes copiada a entrevista.

*Agradeço este documento fotocopiado à jornalista Miriam Leiva.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Pas de quatre

A nuvem de poeira levantada pelo concerto de Juanes nos fez desconsiderar temas importantes da nossa realidade. Nas ruas apenas se comentaram as medidas implementadas por Obama para flexibilizar os envios e viagens à Ilha. Inclusive as negociações para restabelecer o correio direto entre Estados Unidos e Cuba, ficaram relegadas à indiferença. As luzes incandescentes da companhia teatral deixaram na sombra a nova regulamentação oficial – ainda não posta em prática – que permite aos correios cubanos proverem acesso à Internet em moeda conversível. Até passou desapercebida a apresentação, na sexta-feira passada, do sétimo curta metragem da saga de Nicanor, dirigido por Eduardo del Llano.

Agora que regressamos às pálidas cores da cotidianidade, voltamos a admirar o récem lançado “Pas de quatre”. A história acontece dentro de um “almendrón” (táxi particular), cujo chofer oferece seu serviços gratuitamente. Entre os tres passageiros que conseguem subir a bordo do peculiar táxi, um deve levar – quanto antes – seu exame de fezes à um médico distante. O condutor, interpretado por Luis Alberto García, expõe uma filosofia original sobre o dano que faz à uma nação a imobilidade e as dificuldades no transporte. No rítmo das rodas sobre o asfalto, chega a dizer que “Não há conceito mais libertário e subversivo que o de um cubano turista”.

Pois sim, mover-se converteu-se num ato contestador. Daí que facilitar às pessoas a entrada e a saída, o deslocamento ou a mudança de localização, possa desatar transformações insuspeitadas no âmbito nacional. Imaginem se todos nós queiramos viajar, fazer uso das estradas e visitar esses parentes que não vemos faz vinte anos. Se uma febre de movimento tomasse o país de surpresa, o estremecimento poderia contagiar os burocratas e a todos esses dirigentes carentes do conceito de dinamismo. Quem sabe se a sacudida removeria também os que hoje são um freio para deslizarmos – finalmente – pelo caminho das transformações.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Depois de Juanes

Cuba Juanes

Foto tirada do “El Diario” : www.diario.com.mx

Amanhã amanhecerá como cada segunda-feira. O peso conversível continuará nas nuvens, Adolfo e seus colegas terão outro dia atrás das grades na prisão de Canaleta, meu filho ouvirá na escola que o socialismo é a única opção para o país e nos aeroportos continuarão nos pedindo uma permissão para sair da Ilha. O concerto de Juanes não haverá mudado significativamente nossa vida, porém tampouco fui à Praça com essa ilusão. Seria injusto exigir do jovem cantor colombiano que impulsione aquelas mudanças que nós mesmos não conseguimos fazer; apesar de desejá-las tanto.

Estive naquela esplanada para comprovar quão diferente pode ser um mesmo espaço quando hospeda concentrações organizadas desde cima ou quando abriga um grupo de pessoas necessitadas de dançar, cantar e interagir, sem a política no meio. Foi uma experiência rara estar alí, sem gritar uma palavra de ordem e sem ter que aplaudir mecânicamente quando o tom do discurso mostrava que era o momento de ovacionar. Claro que alguns elementos se pareciam com os de qualquer marcha de primeiro de maio, especialmente a proporção de policiais vestidos de civis no meio do público.

Certos detalhes técnicos mostraram-se incômodos. O áudio não era bem ouvido, a pequena tela que reproduzia o que ocorria no palco não se via a distância e a hora escolhida era inumana, por coincidir com os piores momentos do sol. Por sorte nublou depois das quatro e os que estavam entricheirados sob as poucas árvores poram–se a dançar com Orishas. São detalhes a serem superados na próxima apresentação que Juanes fará em Cuba, nesta onde não abundarão falhas técnicas e em que os excluídos desta tarde poderão cantar.

Se vemos a apresentação deste 20 de setembro como o ensaio geral do concerto que algum dia teremos, então há que se felicitar os que participaram. Inclusive se não houver outra e a Praça retomar sua solenidade e seu tom cinzento, ao menos nesta tarde de domingo vivemos algo diferente. Num lugar onde se tem semeado sistemáticamente a divisão entre nós, Juanes – ao cair do sol – gritou “Por uma única família cubana!”.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Sanatório para Pánfilo…e comida? e liberdade? liberdade?

panfilo-rostro

Levantei-me com a notícia do translado de Pánfilo do cárcere para uma clínica psiquiátrica, talvez para começar alí sua desintoxicação. Na lista das vitórias alcançadas – que ainda são poucas e limitadas – pela sociedade civil cubana durante o último ano, há que se registrar a saída deste humilde homem da cela. Na breve enumeração do conquistado, deve estar também a liberação de Gorki Águila faz mais de um ano e a não aplicação de uma resolução que impedia os nacionais de se conectarem na Internet, nos hotéis.

Penso que a evolução do acontecido no caso “Pánfilo” foi conseguida pelo trabalho dos que fizeram a campanha Jama y Libertad e que ontem mesmo entregaram tres mil assinaturas pedindo sua libertação. Também há que se agradecer aos numerosos meios de imprensa internacionais que contribuiram para chamar a atenção sobre os anos injustos de condenação contra Juan Carlos González. A blogosfera alternativa – como era de se esperar – ajudou a empurrar o muro, que parecia fortalecer-se naquele dia em que encarceraram quem só reclamava por comida.

De todas as formas, a burrada de julgar por periculosidade pré-delitiva um inofensivo bebum de bairro, não se esquece tão facilmente. Agora, há que esperar que possa retornar à sua casa, ter acesso a alimentação que todo ser humano merece e a liberdade de expressão que lhe permita dizer frente a uma câmera o que sente, sem por isso estar com um fiscal. Se de alguma maneira a entrega ao representante de Juanes do documento “Lleva Carta!” serviu para abrir as grades de Pánfilo, então há uma razão a mais para aplaudir este concerto do dia 20 de setembro. Lástima que devamos esperar que os famosos nos visitem para que abram os ferrolhos, porém não obstante esse detalhe, anotaremos o triunfo como nosso.

Já sabem: se vão brindar com algo, que seja com água, nada de álcool para celebrar a soltura de Pánfilo.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

O kitsch ideológico

Num ambiente de luzes tênues e com um mojito na mão, posso desfrutar dessas canções que noutro contexto me pareceriam açucaradas, cafonas e de letra vulgar. Deixo dormir a crítica que carrego dentro e deixo-me levar, se a situação assim permite, por esses temas que rimam “dor” com “amor” e “sofrer” com “morrer”. O kitsch romântico posso tolerar, porém o mal gosto na política é algo que me é intolerável. O abuso de imagens e palavras de ordem, repetidas até perderem a carga emotiva que uma vez tiveram, acentuam essa cafonice abundante nas sociedades extremamente ideologizadas como a nossa.

Umas poucas imagens de um “Bazar de arte revolucionária” numa rua central de Havana Velha, confirmam minha hipótese dos elementos decorativos associados à uma ideologia. Para comprar alí qualquer desses atributos identificadores de um processo, há que se pagar com uma moeda diferente da que compensa nosso trabalho.
Curiosamente os “ícones” da entrega desinteressada a um projeto social, são vendidos a partir de uma evidente relação de oferta e procura. O dinheiro se torna assim num pulôver, um gorro ou uma mochila que depois será exibida como relíquia, como algum pedaço do tronco da utopia.

Os rostos que se vêem neste pequeno comércio, são para muitas pessoas – fora de Cuba – parte da contracultura com que se enfrenta o status quo. São os emblemas aos quais alguns apelam na intenção de mudar o que não gostam nas suas respectivas sociedades. Porém nesta Ilha ocorre justamente o contrário, esses que nos olham a partir dos cartazes e das camisetas são – para nós – os que criaram a atual ordem de coisas, os gestores do sistema em que vivemos desde há cinquenta anos. Como portar alguns destes símbolos sem ter a sensação de que se está assumindo a cultura do poder, os emblemas dos que mandam?

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto