Taxímetro escondido

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O taxi é do estado, porém a necessidade é tua. De maneira que sentas ao volante com um claro objetivo: tirar tudo o que possas dos teus clientes. Culpam-te de querer enriquecer, porém cada noite deves entregar sessenta pesos conversíveis à empresa para a qual trabalhas. Só podes arrecadar essa quantia fazendo trapaças, pequenas fraudes que te permitem ganhar algum também para ti. Se não cumpres durante várias jornadas com a quitação, te mandarão para a rua e há muitos que querem ocupar o assento do teu lada branco.

Compraste um enorme espelho retrovisor que cobre completamente o taxímetro, manipulado para que sempre marque a mais. Também fazes o truque de dizer “não tenho trocado”, o que te permite ficar com o troco se o usuário não dá o dinheiro exato. Nos dias ruins te arriscas mais e nem sequer acendes o painel digital que marca o custo da corrida; viajas por um preço fixo que vai direto para o teu bolso. Ainda que no assento de trás tenham instalado um sensor para detectar se estás ocupado, pedes às pessoas que se sentem na beira e assim os rendimentos terminam em tuas mãos e não nas da Cubataxi.

Os custos de consertar o automóvel correm por tua conta, porque ninguém mais está interessado em que não se gastem os pneus e que no tanque haja sempre gasolina. Com certeza, quando te tirarem do emprego terás que deixar todo o investido neste taxi que darão à outro, à alguém que voltará a repetir os mesmos embustes que hoje tu fazes. Por isso tratas de obter o máximo proveito durante tuas quatorze horas de trabalho e pegas turistas na rua, que não conheçam as distâncias entre um ponto e outro da cidade. Conta-lhes que a situação está muito má e que tens tres filhos, enquanto os leva do Capitólio à Santa Maria pelo caminho mais longo. Ao descerem lhes pede uma quantia que triplica o preço dos kilômetros percorridos e calculas que com isso não terás que entregar hoje todo o ganho à Ele*. Graças a esses repetidos logros, podes – ao menos – levar uma parte da arrecadação para casa.

* “Ele” é o pronome reservado para o poder, o estado e o presidente.

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