Percussão de frigideira

As velhas ferramentas para alimentar a família convertem-se – neste caso – no voto que não podemos colocar na urna e nessa mão que não nos atrevemos a levantar na assembléia. Qualquer objeto serve, se se trata de exigir espaços: uma tela que se retira da varanda, um jornal que se brande em público ou uma caçarola que ressoa junto a outras. O grande coro metálico que formam as colheres e as frigideiras, poderão ser – neste primeiro de maio as 20:30 horas – nossa voz, dizer aquilo que temos travado no meio da garganta.

As restrições para entrar e sair de Cuba duraram demasiado tempo. De modo que farei soar minha panela pelos meus pais, que nunca puderam cruzar o mar que nos separa do mundo. Entonarei a sinfonia das caçarolas tambem por mim mesma, obrigada a viajar só virtualmente nos últimos anos. Acelerarei o rítmo da colher quando pensar em Teo, condenado a saída definitiva se lhe ocorrer subir num avião antes dos dezoito anos. A farei soar por Edgar, que está em greve de fome depois de sete negativas a sua solicitação de permissão de saída. No final do concerto de metais dedicarei um par de notas à Marta, que não obteve a carta branca para conhecer sua neta que nasceu na Flórida.

Depois de tanto bater no fundo da caçarola, provavelmente esta não me servirá para fritar nem um ovo. Pelo necessário “alimento” de viajar, mover-se livremente, sair de casa sem pedir permissão, bem vale a pena quebrar todos os acessórios da minha cozinha.

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