Desfile e epidemia

Foto tomada de Yahoo Noticias México.

As duas notícias sucederam-se uma a outra, tão contraditórias que o próprio locutor teve que fazer um esfôrço para esconder sua perplexidade. Na primeira falava-se na concentração popular do próximo primeiro de maio, enquanto a segunda decretava a fase de alerta ante a ameaça de uma possivel epidemia de gripe suína. A partir da tarde de terça-feira uma série de oportunas medidas de prevenção foram ativadas em todo o país. Com certeza, a intenção de agrupar quase um milhão de pessoas no desfile da próxima sexta-feira segue de pé.

Minha experiência com catarros e doenças gripais me diz que uma aglomeração humana é o cenário mais propício para sua disseminação. As medidas anunciadas deveriam incluir, como prevenção mínima, a postergação ou cancelamento dos festejos pelo dia dos trabalhadores. Não quero gerar alarmes desnecessários. Não conheço ninguem que esteja contagiado e foi emitida uma declaração oficial de que não há nenhum caso registrado desse enfermidade, porém lembro que o mesmo nos disseram durante muito tempo até confessarem que a AIDS havia entrado em Cuba, para não falar na escamoteada cifra dos contagiados pela dengue cada ano.

Com toda a humildade, peço ao governo cubano que repense a ideia de reunir milhares de pessoas neste momento. Por favor, menos sentido de espetáculo e maior proteção à cidadania.

Newsletter


Entre vários amigos começamos um pequeno serviço de informação através de SMS. Uma notícia não mencionada pelos meios oficiais, é enviada através do celular à um grupo de pessoas que por sua vez a reenviam à outras. Ainda que pareça um canal um tanto limitado – porque o número de cubanos com celular é pequeno – tenho muita fé no seu futuro potencial. Basta que alguem queira passar uma breve notícia para outro interessado, para que cresça este novo caminho informativo.

Creio que deveriamos encontrar soluções para desenvolver esta rústica “Newsletter”. Talvez aqueles que queiram ajudar possam criar uma página web, onde deixariamos nosso número movel e nos chegariam então notícias gratuitamente. Vivemos num país onde distribuir um jornal em papel pode acarretar-nos uma penalização pelo delito de “propaganda inimiga”, daí que os caminhos virtuais devam potencializar-se… ao menos enquanto não criem uma nova lei para proibí-los. Por isso, nós cubanos já estamos usando nosso celular para ampliar as fontes de informação. Esse pequeno acessório pendurado no quadril, bem poderia chegar a ser todos os jornais que nos faltam nas bancas.

Sob pressão, não… sem pressão tampouco

Esta manhã, eu e alguns amigos acompanhamos Edgar para entregar sua apelação ante a negativa de saída do país. A uns poucos passos do escritório de Consultoria Jurídica fica a sede de Inmigración y Extranjería a nivel nacional. Já conhecia o lugar, pois foi justamente ali onde faz um ano fiz uma reclamação parecida, que terminou com a confirmação de que não podia “viajar no momento”. Funcionários uniformizados e pessoas caladas a espera de que seu caso seja revisto, formam o cenário desta dependência do MININT.

As assinaturas recolhidas de cubanos daqui e de lá, foram entregues ao oficial do turno, que confirmou que agora teriam sessenta dias para responder a sua solicitação. Na sexta-feira, dois integrantes da seção 21 haviam “sugerido” a Edgar que desistisse de apresentar-se no lugar onde fomos hoje. Insinuaram que se ficasse calmo, lhe dariam a permissão de viagem antes de agosto. Depois da greve de fome que fez este jovem, as autoridades migratórias não podem – segundo contaram os nervosos rapazes – “atuar sob pressão”, porque pareceria que foram obrigados a deixá-lo subir no avião.

Como se não fosse o mais comum que nós cidadãos pressionássemos e em resposta a isto, os políticos corrigissem sua ações. É para isso precisamente que ocupam seus postos, para ceder – uma ou outra vez – às demandas da sociedade. Já não tem sido dito – por suficientes vozes – que a permissão de saída e entrada em Cuba tem que ser abolida? O que mais tem que ocorrer para que deixem de tirar-nos este direito?

Úmidas ninharias

Nos mesmos dias em que a destituição de Carlos Lage e Felipe Pérez Roque atraía a atenção da imprensa estrangeira e dos rumores das ruas, algo mais íntimo preocupava Xiomara. Há quatro meses o povo de Pinar del Río não recebia os absorventes higiênicos que as mulheres usam para aliviar os ciclos lunares. Suas filhas e ela cortaram um par de lençois e conseguiram fazer algumas compressas que lavavam depois de usar. Se no mercado racionado some este produto de higiene feminina, nas casas cubanas diminuem as poucas toalhas e fronhas que todavia restam. A natureza não entende de mecanismos de ditribuição, assim é que cada vinte e oito dias temos uma húmida evidência que nos põe a prova.

Xiomara conta – com a vergonha de ter que falar públicamente algo que preferiria manter em privado – que as empregadas de sua empresa tiveram o mesmo problema. “Era para que nos negássemos a ir ao trabalho” me disse, e eu imagino uma “greve do período”, um protesto em massa marcado pelo ciclo do óvulo que se desfaz. Com certeza nada parou na província de Pinar del Río por esta “pequenez”. Os funcionários continuaram falando da “recuperação frente aos furacões” e os jornais – que lamentavelmente não podem ser usados como absorventes higiênicos – mencionaram a superação da meta da colheita de batatas. O drama ficou escondido nos banheiros, manifestou-se apenas em duas novas rugas de preocupação na fronte de algumas mulheres.

Há os que acreditam que a destituição de vários funcionários ou a fusão de um par de ministérios são os passos reais no caminho da mudança. Com certeza eu sinto que o estopim das transformações poderia ser, simplesmente, um grupo de mulheres esgotadas de lavar – cada mes – as compressas usadas em seu ciclo menstrual.

A curta noite das facas longas

Gente esperando com o porrete ou a navalha debaixo da cama para poder um dia usá-los. Ódios enquistados contra aquele que os delatou, os impediu que tivessem um emprego melhor ou fez com que o filho menor não pudesse estudar na universidade. Há tantos aguardando por um possivel caos que lhes dê o tempo necessário para a vingança, que desejaria não haver nascido nesta época, onde só se pode ser vítima ou vitimador, onde tantos desejam a noite das facas longas.

Percussão de frigideira

As velhas ferramentas para alimentar a família convertem-se – neste caso – no voto que não podemos colocar na urna e nessa mão que não nos atrevemos a levantar na assembléia. Qualquer objeto serve, se se trata de exigir espaços: uma tela que se retira da varanda, um jornal que se brande em público ou uma caçarola que ressoa junto a outras. O grande coro metálico que formam as colheres e as frigideiras, poderão ser – neste primeiro de maio as 20:30 horas – nossa voz, dizer aquilo que temos travado no meio da garganta.

As restrições para entrar e sair de Cuba duraram demasiado tempo. De modo que farei soar minha panela pelos meus pais, que nunca puderam cruzar o mar que nos separa do mundo. Entonarei a sinfonia das caçarolas tambem por mim mesma, obrigada a viajar só virtualmente nos últimos anos. Acelerarei o rítmo da colher quando pensar em Teo, condenado a saída definitiva se lhe ocorrer subir num avião antes dos dezoito anos. A farei soar por Edgar, que está em greve de fome depois de sete negativas a sua solicitação de permissão de saída. No final do concerto de metais dedicarei um par de notas à Marta, que não obteve a carta branca para conhecer sua neta que nasceu na Flórida.

Depois de tanto bater no fundo da caçarola, provavelmente esta não me servirá para fritar nem um ovo. Pelo necessário “alimento” de viajar, mover-se livremente, sair de casa sem pedir permissão, bem vale a pena quebrar todos os acessórios da minha cozinha.

Para Fora

A Cúpula das Américas terminou ontem e não parece que se vai convocar uma reunião urgente do parlamento, nem uma plenária extraordinária do Comitê Central do Partido para analizar as propostas feitas por Obama. “Um novo começo com Cuba” disse o presidente norte-americano em Trinidad y Tobago, porém hoje as reflexões de Fidel Castro sómente aludiam ao longo discurso de Daniel Ortega. Os jornalistas do Noticiário Nacional não sairam às ruas para recolher as impressões do povo e meu vizinho foi alistado na Operação Caguairán, ante uma possível invasão do Norte.

Dada a importância do que está acontencendo, a reunião de prestação de contas que se fará hoje no meu edifício deveria dedicar-se às novas relações entre Cuba e Estados Unidos. Contudo, o delegado prefere falar dos vizinhos indisciplinados que colocam o lixo fora dos reservatórios do que saber nossa opinião sobre o fim do desacordo. Na escola do meu filho um professor repete que “Obama é como Bush”, porém pintado de negro” e os cartazes chamando-nos à luta contra o imperialismo continuam nas ruas.

Não sei o que pensar frente a diferença entre o que se diz no exterior e o exaustivo sermão que nos admnistram cada dia. Até o próprio Raúl Castro parece estar disposto a falar com Obama sobre temas que nunca quis debater conosco. Não posso evitar de questionar-me então, se todo esse “ramo de oliveira” e a predisposição de tocar em temas amplos, não serão só palavras ditas para fora, frases pronunciadas longe de nossos ouvidos.