E nos deram os microfones…

Noite duradoura a de ontem no Centro Wilfredo Lam, graças a performance da artista Tania Bruguera. Uma tribuna com microfones, diante de uma imensa cortina vermelha, fazia parte da instalação interativa que se situava no pátio central. Todo aquele que quisesse podia fazer uso do palanque para dizer – em um minuto somente – o discurso que desejasse.

Como os microfones não abundam, e além do mais, não encarava nenhum desde meus tempos de pioneirinha recitadora de versos patrióticos, aproveitei a ocasião. Avisada a tempo por amigos inteirados, fui preparada com um texto sobre a liberdade de expressão, a censura, os blogs e essa ferramenta evasiva que é a Internet. Frente as lentes da televisão nacional e protegidos pelos convidados estrangeiros na X Bienal de Havana, sucederam-se gritos de “liberdade”, “democracia” e até francos desafios às autoridades cubanas. Recordo um rapaz de vinte anos que confessou que nunca havia se sentido mais livre.

Tania nos deu os microfones, a nós que nunca pudemos dizer um discurso próprio, senão que tivemos que suportar debaixo do sol das perorações dos outros. Era uma ação artística, porém não havia jogo nas declarações que fizemos. Todos estávamos muito sérios. Uma pomba branca repousava em nossos ombros, provavelmente igualmente treinada como aquela outra de cinquenta anos. Todavia, nenhum dos que falávamos nos acreditávamos eleitos, nenhum queria ficar – por cinco décadas – gritando através dos microfones.

*O vídeo – muito amador – que fiz ontem.

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Desemprego juvenil

Certas obstinadas estatísticas jamais são exibidas nos meios de difusão; além disso, são escondidas apesar de sua alta incidência. Junto ao número de suicídios, abortos e divórcios esconde-se também a cifra real dos desempregados. Os noticiários e os cartazes querem fazer-nos acreditar que habitamos uma sociedade onde todos têm a oportunidade de encontrar um trabalho e os desvinculados o são pela sua inclinação pela vagabundagem. Tantos braços sem produzir apontam, todavia, a essência de um sistema que converteu o trabalho somente em aparência e o salário numa brincadeira de mau gosto.

Faz uns dias, um curto programa de televisão abordou o tema do desemprego juvenil, porém sem mencionar o número dos atuais desempregados. Havana, às dez da manhã de um dia de semana, é a melhor amostra de quantos não tem um trabalho para ganhar a vida. Os parques, as aceras e cada esquina, repletos de gente em horário de trabalho, tornam-se mais confiáveis que os baixos índices de desocupação dos anuários estatísticos. Para a cautelosa especialista que falou frente às câmeras, muitos jovens têm uma falsa percepção de suas potencialidades e por isso não aceitam certos empregos. Sua frase foi seguida de uma entrevista na faculdade de estudos sócio-culturais da província Granma, onde os recém-formados se queixavam das vagas de “limpa-pisos” ou de inspetor de mosquitos que lhes haviam sido designadas.

Tantos malabarismos verbais para não reconhecer que enquanto os salários continuarem baixos, os jovens não se verão motivados para trabalhar. Não se trata de apelar à abnegação ou convocá-los para salvar a Pátria com seu esforço diário, senão de pagar-lhes uma quantia numa moeda que lhes permita levar uma vida decente. O projetado “homem novo” não é tão diferente do resto dos humanos: quer empregar seu tempo e sua energia em alguma coisa que resulte em prosperidade e bem estar. Isso não deveria ser tão difícil de entender pelos especialistas, nem tão sistematicamente ignorado pelas estatísticas.

Quem assina os documentos agora?

Comprar um automóvel é uma dessas aventuras tipo Indiana Jones, em que se pode terminar com um infarto do miocárdio ou numa longa espera de dez anos. Durante muito tempo só foi possivel obter-se um carro a partir de uma distribuição baseada na meritocracia. Um trabalhador destacado, com milhares de horas voluntárias e uma missão como soldado em Angola ou Etiópia, podia sentir-se afortunado se o permitiam adquirir um Moskovich ou um Lada. Os profissionais de maior graduação disputavam nas universidades e nos centros de estudo, as reduzidas dotações de automóveis. Enquanto que os funcionários governamentais podiam aspirar à modelos mais modernos, que eram consertados em oficinas do próprio Estado.

Quando as tubulações que conduziam o subsídio do Kremlin até aqui colapsaram, terminou a distribuição por méritos de eletrodomésticos e carros. Começou a funcionar – outra vez – o dinheiro como moeda de troca por um veículo. Não obstante, manteve-se um filtro seletivo para obter-se o direito de comprar os récem chegados Citröen, Peugeot ou Mitsubishi. Os velhos autos adquiridos antes de 1959 podem ser vendidos, porém está proibido passar à outro dono os obtidos por qualidades laborais e ideológicas. As regulações terminaram por reconhecer que o alcançado naqueles anos de “socialismo real” era sómente uma propriedade a meia, intransferível e facilmente confiscável.

Até os dias de hoje, ainda que algumas lojas mostrem em exibição modernos todo-terreno e vans climatizadas, nenhum cubano pode dirigir-se à elas e comprar – sem outro requisito que não o dinheiro – um automóvel. Tem que receber antes um documento de autorização, a que se chega depois de anos de burocracia. O processo inclui uma exaustiva supervisão da origem dos fundos e a comprovação da “limpeza” ideológica do comprador. Por quase uma década. a assinatura deste salvo conduto era feita por Carlos Lage, vice-presidente do Conselho de Ministros, defenestrado fazem algumas semanas. De maneira que em meio ao estupor pela sua substitução, alguns se perguntam: quem assinará agora os documentos para obter o desejado automóvel?

Brainstorm

O último curta de Eduardo del Llano deveria ser mostrado nas redações dos jornais e na mídia de todo o país. Numa mesa redonda, um conselho editorial debate sobre qual acontecimento estará na manchete de sua próxima edição. Existem várias notícias para escolher: um extraordinário recorde esportivo, a queda de um meteorito que matou no ato um pintor, vários heróis do trabalho e alguns soldados internacionalistas. Os obedientes redatores esperam a chamada telefônica que – de cima – lhes dirá a notícia que devem privilegiar sobre outras. Fazem, enquanto isso, tanto, a pantomima de que podem decidir, a ostentação de atuar como se o jornal fora realmente deles.

Brainstorm é um curta com personagens nada caricaturais, senão reflexo de uma realidade que é essencialmente exagerada e bizarra. Um mundo de poses, de covardias profissionais, resultantes de ver os colegas mais atrevidos defenestrados. O desafio para estes jornalistas não é ter uma opinião original, senão adiantarem-se e predizer qual será o critério do poder. Todo bom comunicador “revolucionário” deve saber o que dirão seus líderes antes de que emitam uma só palavra, lhes convem interpretar os gestos dos governantes e não equivocarem-se em refletí-los.

Dessa e outras misérias jornalísticas trata o curta, que se soma a lista começada pelo já clássico Monte Rouge. Da série dirigida por Del Llano, é este o que mais me tocou pela proximidade temática e por aludir às mordaças da imprensa oficial. Ao vê-lo, confirmei o imenso privilégio de que disfruto, por não ter chefe editorial, censor, ou alguem que me dite quais temas tratar ou que importancia dar-lhes. Meu pior pesadelo profissional seria encontrar-me numa mesa assim, onde todos preservam suas costas, no labor de conservar o pequeno privilégio de trabalhar no Granma, Juventude Rebelde ou algum periódico de provincia.

Como cena final do curta – que não lhes adianto para que possam desfrutá-la – algo passa lá fora e nossa mídia continua ignorando-o. Milhares de eventos ocorrem cada dia, porém os disciplinados correspondentes dos telejornais não estão autorizados a informá-los. Em seu lugar, nos mostram a Cuba imaginária de realizações agrícolas, reproduções comquistadas, visitas presidenciais, compromissos de resistência e pioneirinhos sorridentes. A chamada telefônica que autoriza contar a realidade não chegou – contudo – à redação de nenhum jornal.

Debaixo do guarda-chuva

Muitos de nós chegamos a acreditar que se não estamos debaixo de um guarda-chuva de uma entidade estatal, não existimos.Na porta de um ministério ou na frente da secretária de algum funcionário, há uma pergunta que sempre nos recebe: E você de onde é? Não se trata de curiosidade sobre nossa origem regional, senão de uma aguda pesquisa sobre a instituição que nos valida. Quando não se tem uma credencial com as abreviaturas de uma empresa estatal, pouco se pode fazer nessas dependencias oficiais. Os que são “cidadãos independentes” ou “indivíduos por conta própria” estão acostumados a longas esperas e a negativas.

Nesta peculiar condição de elétron livre, afastada do núcleo de qualquer privilégio, poder ou cargo importante, sou experiente em tropeços, especialista em trâmites que nunca se resolvem. Fizeram-me umas mil vezes a mesma pergunta sobre o guarda-chuva estatal que me protege, e prefiro consumir-me debaixo do sol da minha autonomia que abrigar-me debaixo de uma prerrogativa. Claro que esta filosofia da “não pertinência” não serve para explicar-me ao guardião nem para resolver algum despacho proibido.

Resulta que não existo, porque nenhuma entidade estatal me tem no inventário, porque não pago quota à um sindicato ou apareço na lista de algum refeitório operário. Ainda que caminhe, durma, ame e até me queixe, careço da fé de vida que me daria a filiação a um reduzido – e aborrecido – número de organizações neogovernamentais. Na prática, sou um fantasma cívico, um não-ser, alguem que não pode mostrar frente ao incisivo olho do porteiro nem a mínima prova de estar nos mecanismos oficiais.

Miopia e astigmatismo

Ponho os óculos e lanço um olhar à cidade desmantelada onde vivo. Com estes cristais coloridos da esperança, meu coração bombeia com mais tranquilidade, sem sobressaltos. Graças a eles compreeendo que não subo quatorze andares devido a ineficiência estatal – incapaz de montar o elevador depois de cinco meses – mas sim que sou uma ecologista perfeita disposta a consumir sómente meu combustível humano. Com este novo vidro com que olho tudo, percebo que no meu prato a carne se ausenta, não pelo seu altíssimo preço no mercado senão porque amo os animais e evito o sofrimento e o sacrifício deles.

Careço de um conexão à Internet em casa, porém as rosadas lentes escondem de mim que este serviço seja exclusivo para funcionários e estrangeiros residentes. Talvez queiram proteger-me das “perversões” da rede, digo a mim mesma, tal e como faria o ridiculo Candido de Voltaire. Assim comprovei, por um brevíssimo tempo, ver palácios no lugar de ruínas, líderes que nos levam `a vitória quando na realidade nos conduzem ao precipício e homens que se hipnotizam com minha cabeleira, ainda que eu saiba que me seguem para vigiar-me.

O problema começa quando tiro as lentes de candidez e olho o que me rodeia, com as reais cores da crise. A dor na panturrilhas volta, como resposta às grandes escadarias; começo a sonhar com uma bisteca e um modem piscando torna-se um desejo quase erótico. Jogo os óculos do otimismo da minha varanda, talvez haja alguem lá em baixo que contudo prefira usá-las, que ainda queira distorcer a realidade com eles.

Tres tigelas e nenhum caldo

Desta vez foram mais diretos: “voce não está autorizada a viajar”, disse-me uma senhora baixinha – quase amavel – vestida de verde oliva. Meu processo para obter a permissão de saída terminou sem mais delongas e com a mesma resposta negativa. Exigi que me desse uma explicação, porém ela só era o muro de contenção entre minhas exigências e seus chefes ocultos.

Enquanto que me comunicavam o “não”, rememorei as declarações feitas por Miguel Barnet faz um par de meses. O presidente da União de Escritores e Artistas de Cuba (UNEAC) afirmou que todos os cubanos podem viajar, exceto aqueles que tem dívida com a justiça. Passei um dia buscando um motivo legal pendente por algum lado, porém não há nada que lembre. Até a panela para fazer arroz que me ofereceram a prestações no mercado racionado paguei em sua totalidade, apesar de que só funcionou dois meses antes de quebrar-se definitivamente.

Nunca fui acusada num tribunal e todavia estou condenada a não sair desta Ilha. Essa restrição não foi ditada por um juiz, nem é possivel apelar à um júri, senão que vem do grão fiscal – com plenos direitos – em que se erigiu o Estado cubano. Esse severo magistrado, determinou que a velhinha sentada ao meu lado no escritório da 17 com K, não recebesse a carta branca porque seu filho “desertou” numa missão médica. Tampouco o menino que esperava numa esquina pode viajar, pois seu pai desportista, joga agora por outra bandeira. A lista dos castigados é tão grande e os motivos tão variados, que poderíamos fundar um avultado grupo de “internados” a força. Lástima que a grande maioria  faça silêncio, a espera de que um dia a permitam sair, como quem recebe uma compensação por portar-se bem.

Um dos primeiros lugares de peregrinação, de quem não recebemos a permissão de saída, deveria ser o escritório do ingênuo presidente da UNEAC. Talvez pudesse explicar-nos qual o delito pelo qual nos estão condenando.

* Para aumentar os papéis na minha coleção de negativas, deixo-lhes o último documento recebido da SIE. Tambem disponibilizo meus vistos, para lembrar que minhas dificuldades não são para entrar em outro país, senão para sair do meu.