A seis passos de Sullivan

Na lista redigida pela revista TIME e a CNN com os melhores 25 blogs de 2009, existem vários elementos que me deixaram cheia de orgulho. Geração Y é o único blog dessa enumeração feito em língua espanhola, o mesmo idioma que alguns acreditam ser incapaz de adaptar-se ao rítmo da tecnologia e da modernidade. Sou, entre os outros vinte e quatro blogueiros, a que tem menos horas de acesso a Internet – disso não tenho dúvidas – . Para cúmulo, ostento a peculiar condição de fazer um blog que não posso ver, por culpa dos perversos filtros que a censura me impõe.

O guru em que se converteu Andrew Sullivan para nós que fazemos o Itinerario Blogger, está em quinto lugar com seu The Daily Dish. Ele não imagina que cada semana um grupo de cubanos evoca seu texto – Por que blogueio? – e tomam seu trabalho como uma bússola. Depois de quase dois meses com estes encontros semanais, sabemos, ao menos, que no caminho de começar a opinar não se anda para trás, que o muro do controle pode ser tombado de uma só vez ou sabotado byte a byte, post a post.

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Perguntas incômodas

Dou a volta no meu edifício, evitando passar debaixo das varandas, pois os meninos jogam preservativos cheios de urina para matar o tédio. Um homem com sua filha leva uma bolsa donde pinga uma mistura de gordura, água e sangue. Vêm do açougue, onde uma grande fila anuncia que algum produto racionado chegou pela manhã. Os dois sobem felizes as escadas levando o troféu de carne. É provavel que a mãe já esteja cortando as cebolas, enquanto suspira aliviada pela proteína que reapareceu, depois de vários dias de ausência.

Vou atrás deles e chego a ouvir a menina perguntando; “Papi, quantos frangos vc comeu na vida?”. Percebo a cara desconcertada do pai, que chegou no sexto andar suando por todos os poros. Sua resposta é um tanto brusca: “Como vou saber isso? Eu não faço contas com a comida.” Porém a menina insiste. Evidentemente está aprendendo a multiplicar e dividir, daí que queira desmontar o mundo e explicá-lo – totalmente – com números. “Papi, se tu tens 53 anos e cada mes recebes uma libra de frango do açougue, só tens que saber quantos meses vivestes. Quando tiveres este número o divides por quatro libras , que é mais ou menos o que pesa um frango normal.

Percebo-me seguindo a fórmula matemática desenvolvida pela menina e calculo que devorei uns 99 frangos nestes 33 anos. O homem interrompe minha conta e lhe diz “Minha filha, quando eu nasci os frangos não vinham pela libreta (de racionamento)”. Dou-me conta que cresci com o grilhão do racionamento ajustado a ambos os tornozelos, porém graças ao mercado negro, o desvio de recursos, as lojas em pesos conversíveis, a permuta de roupa por comida e um montão de caminhos paralelos, não sei a soma exata do que digerí. Aperto o passo e escuto a frase desconfiada da pequena Pitágoras: “Ah papai, tu queres me fazer acreditar que antes, nos açougues, te vendiam todo o frango que quisesses…”.

Cuba performance

Faz alguns dias, pudemos ver em nossa casa o documentário Cuba performance, dedicado ao trabalho artístico do grupo Omni Zona-Franca. A sala se encheu de cabeludos e até alguns autores estrangeiros, convidados da Feira do Livro, subiram quatorze andares pelas escadas. Amaury – o protagonista do filme – não esteve presente porque fazem alguns dias nasceu um filho que o tem sufocado entre fraldas e noites sem dormir. Era sexta-feira treze e havia uma lua cheia, porém a superstição não nos impediu de desfrutar de algumas horas de criação, liberdade e alívio.

A diretora do documentário, Elvira Rodríguez Puerto, conviveu durante semanas com Eligio, David e os outros artistas de Alamar. Graças a essa interação próxima, consegue mostrar-nos a mistura de poesia, pintura, zen e grafiti com que estes talentos autodidatas tem enchido as ruas da projetada cidade do “homem novo”. Sem ser funcional e estigmatizada, a singular cidade do leste hoje é um lugar em que poucos querem viver, cheio de blocos de concreto repetitivamente idênticos. Alí mora e faz a sua arte o Amaury, um homem grande, negro, que anda com um chapéu de mineiro e com uma túnica ampla. Ele consegue envolver os vizinhos em suas atividades plásticas, os faz esquecer as bolsas vazias com que voltam do mercado e lhes ajuda a afrouxar o boquiaberto de incredulidade com que o olham.

A nossa vida está cheia de performance e de atividades plásticas carregadas de simbolismo, ainda que nos pareçam totalmente lineares e cotidianas. Essa é a sensação que me ficou de escutar a filosofia deste risonho poeta que caminha apoiado em seu cajado de madeira. Esperar o ônibus, fazer a fila para o único pão do racionamento, trocar produtos no mercado negro, construir uma pequena balsa para fazer-se ao mar e até fingir que se está de acordo, são parte de um roteiro que temos interpretado durante décadas. Só que sentimos desejo do desembaraço do happening e a espontaneidade com que se move Amaury, tão longe do medo, das convenções e dos controles.

Leva-me a navegar, pelo largo mar*

Numa terra rodeada de água, o marinheiro é um vínculo com o outro lado, o portador dessas
imagens que a insularidade não deixa ver. No caso cubano, quem trabalha num barco pode, além disso, comprar no estrangeiro muitos produtos inexistentes nos mercados locais. Uma espécie de Ulisses, que depois de meses navegando, trás sua mala cheia de quinquilharias para a família. O marítimo faz a ligação dos eletrodomésticos transladados nas barrigas dos navios com o mercado negro; faz com que as modas cheguem antes do planejado pelos burocratas do comércio interior.

Durante várias décadas, ser “marinheiro mercante” era pertencer a uma seleta confraria que podia ir mais além do horizonte e trazer objetos nunca vistos nestas latitudes. Os primeiros jeans, gravadoras cassete e chicletes que toquei na minha vida foram transportados por esses afortunados tripulantes. O mesmo ocorreu com os relógios digitais, os televisores a cores e alguns automóveis, que em nada se pareciam aos poucos atrativos Lada e Moskovich.

Para os parentes de um marinheiro, os compridos meses de ausência são suavizados com o bálsamo econômico que produzirá a estadia em portos com preços mais baratos e melhores qualidades que as lojas cubanas. Quando chega a idade de aposentar-se e de içar a ancora, então é viver do que foi possível transportar e das imagens que ficaram na memória.

Conto essa história de barcos, mastros e mercado informal, porque Oscar, o marido da blogueira de Sin Evasión, está ameaçado com a expulsão de seu trabalho como marinheiro. O motivo: a decisão de Miriam Celaya de tirar a máscara e continuar escrevendo suas opiniões de cara descoberta. O castigo: deixar a família sem o necessário sustento. Por ela navegar livre na rede, ele pode perder a possibilidade de sulcar as águas.

*Da canção infantil “Barquinho de papel”.

Relógio de areia

Cada dia encontro alguem que se desiludiu e retirou seu apoio ao processo cubano. Há os que entregam a carteira do partido comunista, emigram com suas filhas casadas na Itália ou se concentram na plácida tarefa de cuidar dos seus netos e entrar na fila do pão. Passam de delatar à conspirar, de vigiar à corromper-se e até mudam seus gostos por rádio da Rádio Rebelde para a Rádio Martí. Toda essa conversão – lenta em uns, vertiginosa em outros – percebo ao meu redor, como se debaixo do sol da Ilha, à milhares fosse facultado mudar de pele. Todavia esse processo de metamorfose só ocorre numa direção. Não encontrei com ninguem – e olha que conheço gente – que tenha passado da descrença à lealdade, que começasse a confiar nos discursos depois de anos criticando-os.

As matemáticas nos confrontam com certas verdades infalíveis: o número dos insatisfeitos aumenta, porém o grupo dos que aplaudem não ganha novas “almas”. Como um relógio de areia, cada dia centenas de pequenas partículas de desenganados vão parar justamente no lugar contrário de onde estiveram. Caem no montículo que nós formamos, os céticos, os excluídos e o coro imenso dos indiferentes. Já não há volta ao lado da confiança, porque nenhuma mão poderá dar a volta no relógio, por para cima o que hoje está definitivamente abaixo. O tempo de multiplicar ou somar passou rapidamente, agora os ábacos operam sempre com restos, marcam a interminável fuga num só sentido.

Entre os dois muros

Hoje, as 15 horas, conseguimos apresentar o livro de Orlando Luís Pardo Lazo. Depois de nos enfiarmos por vielas do Cerro para despistar os dois “segurosos” que vinham atrás, terminamos por chegar ao Capitólio e tomar o ônibus que passa no tunel da bahia. Tensão, temor e dúvida, nos acompanharam na breve viagem até a fortaleza de La Cabaña. Orlando pensava em sua mãe, com pressão alta e atemorizada ante as ameaçantes chamadas telefônicas. MInha cabeça estava com Teo, em sua escola, alheio ao fato de quen talvez ninguem estaria em casa quando ele regressasse. Por sorte, foram só fantasmas.

O aparato policial tinha – isso compreendemos a posteriori – uma intenção intimidatória, porém pouco puderam fazer ante as câmaras da imprensa estrangeira e dos escritores convidados. Começamos sentados sobre a grama, falando para um grupo de quinze pessoas e terminamos com um forte aplauso de mais de quarenta. Surpreendeu-nos a presença e a solidariedade de vários jovens contistas e poetas, com livros publicados nas editoras oficiais. Tambem a assistência de alguns novelistas latinoamericanos que nos apoiaram com suas palavras e abraços. Alí estavam Gorki e Ciro do grupo Porno para Ricardo, Claudia Cadelo do blog Octavo Cerco, Lía Villares, autora do blog Habanemia, Reinaldo Escobar, blogueiro de Desde aqui, Claudio Madan e outros que não menciono seus nomes, para não prejudicá-los.

Do outro lado da rua, o grupo de perseguidores, filmava com uma teleobjetiva tudo o que ocorria na verde esplanada. Várias escolas primárias haviam sido convidadas à empinar pipas nesse mesmo lugar e um estridente barullhaço começou justamente as três da tarde. Todavia, conseguimos isolar-nos uns centímetros da confusa realidade de vigiados e vigilantes. De onde estava sentada, o muro de La Cabaña pareceu-me mais deteriorado, cheio de pequenas porosidades que se abriam na pedra.

* para baixar o livro de Orlando Luís, por favor, clique aqui

1971 – 2009: o milênio cinzento

O caso Padilla, sequela cinzenta sobre a cultura cubana perpetuou-se mais do que se crê. Quase quatro décadas e parece não haver passado nem uns minutos. Autores censurados, livros proibidos e férias planejadas para escritores confiáveis. A cultura em mãos de instituições e uns poucos decidindo quais textos verão a luz. Aquele se chamava Heberto, este Orlando, porém na Ilha onde ambos nasceram, a diferença é até mesmo uma infração.

Todavia não sabemos o que acontecerá amanhã em la Cabaña com  apresentação de “Boring Home”, porém nós os envolvidos já aprendemos algo: pouco, muito pouco mudou desde que fi censurado “Fuera de Jogo“. Tristemente continuamos na mesma.

Deixo-lhes a seguir o texto escrito por Orlando Luís Pardo Lazo por ocasião da apresentação – mais controvertida – desta tediosa Feira Internacional do Livro.

Os detetives domésticos
Orlando Luís Pardo Lazo

Pode ter sido um título de Roberto Bolaño, o chileno falecido e universal. Um tipo que não se ajustaria completamente ao staff da XVIII Feira Internacional do Livro de Havana, dentro das muralhas “morais” e os reciclados fossos de fuzilamento da Fortaleza de São Carlos de La Cabaña ( de 12 à 22 de fevereiro, sede principal do evento ).

E, com efeito, nossos detetives domésticos, não menos selvagens que os de Bolaño, chamam-me por telefone a cada hora para aterrorizar minha mãe setuagenária e com enfisema. São jovens, machos, e se escudam atrás de um telefone público para praticar a sintaxe profilática do paredão: “se teu filho vier na segunda-feira à feira, vamos quebrá-lo“, dizem e põem no gancho.
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