Merenda escolar

Quem não se lembra daqueles doces e sua correspondente garrafa de refresco que recebiamos – nos anos do subsídio soviético – na merenda escolar. Como tudo o que é gratuito, terminamos por não lhes dar importância e na hora do recreio muitos jogávamos lançando bebidas gasosas e bolos. Em nossas mãos, as tortas de goiaba e os doces açucarados voavam desde a varanda de minha pequena escola na rua Salud esquina de Soledad. Apesar de que os substimássemos , sem esse sustento no meio das aulas, chegaríamos exaustos e famintos ao meio dia.

No começo da crise econômica dos anos noventa, um dos primeiros subsídios que veio abaixo foi a merenda dos estudantes da primária. Os meninos deixaram de ouvir o som das garrafas que se abriam ou do caminhão com as latas de bolachas que chegava cedo pela manhã. Aqueles doces tirados passaram a ser uma lembrança que nos perturbava, por tanta indolência. Os pais tiveram que assumir a preparação de uma refeição ligeira para levar para à escola e ninguem explicou na imprensa porque se havia decidido eliminar, precisamente, aquele sustento tão necessário.

A estrela que ilumina e falta *

Entre as múltiplas formas de extinguir a luz, há algumas muito peculiares como a de “brilhar por sua ausência”. Tão inconfundível momento ficou plasmado numa foto que apareceu na primeira página do Granma, onde falta à bandeira cubana as cinco pontas brancas no meio do triângulo. A comoção foi tal que o jornal se esgotou nas primeiras horas da manhã e hoje todos na rua falavam do mesmo. Evidentemente não se trata de um erro de impressão, pois uma estrela não foge tão facilmente.

Prefiro pensar que, caprichoso e soberbo, a estrela brilhante que representa nossa soberania decidiu ausentar-se, véspera do aniversário do Mestre. Porque a independência que ele irradia não é sómente de sermos autonomos de uma potência estrangeira, senão a que permite a cada cidadão ser soberano do poderoso Estado. Em vistas que a obscuridade – no terreno das liberdades civis – não nos deixa ver nem as mãos, a estrela solitária abandonou seu ambiente vermelho, para deixar o órgão oficial  do Partido com sua marcante ausência em primeiro plano.

Há erros que tem maior carga simbólica que centenas de acertos. Estrelas esquivas e leitores que interpretam sua escapada; Ilhas que vivem pendentes de profecias e superstições: dias para lembrar o herói nacional e bandeiras que se atrevem a mostrar o que tantos silenciam.

*Verso martiniano, que originalmente disse “A estrela que ilumina e mata”.

Lokomotiv

Começou com uma pá e uma enxada, espalhando os pesados travessões que suportam as linhas dos trens. Seu pai havia sido ferroviário tambem e um tio conseguiu inclusive conduzir os vagões, carregados de canas, até a central. Era muito jovem e sua vida já estava unida ao itinerário de uma locomotiva, com sua fileira de vagões estridentes e repletos. Passados alguns anos, conseguiu ter – finalmente – um timão em suas mãos e levar a serpente metálica pelos campos cubanos. Meu pai tornou-se maquinista, obedecendo à uma longa tradição familiar, que estava há décadas unida ao caminho de ferro.

Mais de uma vez, eu mesma manejei uma dessas máquinas em algum ramal tranquilo, enquanto ele supervisionava meus movimentos e me ensinava a tocar o apito. “Tivemos trens antes da Espanha” dizia meu avô paterno, sempre que alguem o perguntava sobre seu trabalho. Assim cresci, Cheirando o metal dos freios que chiavam em cada parada e dando corda no meu trenzinho de brinquedo, rodeado de arvorezinhas de plástico e vacas em miniatura.

A queda do socialismo na Europa fez descarrilhar a profissão familiar. Muitas locomotivas pararam por falta de peças, as viagens tornaram-se mais espaçadas e os atrazos habituais. Sair de Havana rumo à Santiago poderia demorar vinte horas ou três dias. Em alguns povoados pequenos, os vagões eram assaltados por camponeses pobres que roubavam parte da mercadoria transportada. Os alto falantes da estação central repetiam sem cessar: “A saída do trem com destino à…foi cancelada”. Meu pai ficou sem trabalho e seus colegas começaram a ganhar a vida em diversos trabalhos ilegais.

A estrada de ferro, em Cuba, não se recuperou desse contratempo. Linhas envelhecidas, grandes filas para comprar uma passagem e a queda em desgraça de toda uma profissão, fizeram que este meio de transporte goze da pior das reputações. “No rítmo em que vamos, deixaremos de ter estrada de ferro antes da Península” disse meu pai com ironia. Sua percepção não está fixa na roda que começa a desmontar – na sua nova profissão de consertador de bicicletas – senão que olha um ponto mais a frente, essa pilha de ferro que o guiou por esta ilha comprida e estreita.

Nota do tradutor:

1) Lokomotiv é uma abreviação para – Sociedade Esportiva Voluntária Lokomotiv – que existiu na antiga União Soviética. Era de propriedade e patrocinada pela rede nacional de estradas de ferro, daí o nome. SEV Lokomotiv incluía muitos clubes, que usavam o mesmo nome. O nome “Lokomotiv” era tambem usado por clubes em outros países socialistas.

2) Peninsula é como os cubanos se referem à Espanha.

Vítima não, responsável

Poderia passar o dia assustada, escondendo-me desses homens colocados lá em baixo. Encheria folhas com os custos pessoais que me trouxe este blog e com os testemunhos dos que tem sido “advertidos” de que sou uma pessoa perigosa. Bastaria que fosse decidido e cada um dos meus textos seria uma volumosa queixa ou o dedo acusador de quem busca a culpa sempre do lado de fora. Porém sucede que não me sinto vítima, senão responsável.

Estou consciente de que me calei, que permití à uns poucos governar minha Ilha como se tratasse de uma fazenda. Simulei e aceitei que outros tomassem as decisões que tocavam a nós todos, enquanto me escudava no fato de ser demasiado jovem, demasiado frágil. Sou responsável de ter colocado a máscara em mim, de haver usado meu filho e minha família como argumento para não atrever-me. Aplaudí – como quase todos – e me fui do meu país quando estava saturada, dizendo a mim mesma que era mais fácil esquecer que tentar mudar algo. Tambem carrego a dívida de haver-me deixado levar  – algumas vezes – pelo rancor ou pela suspeita, que fizeram marca em minha vida. Tolerei que me inoculassem a paranóia  e em minha adolescência, uma balsa ao mar, foi um desejo frequentemente acariciado.

Sem embargo, como não me sinto vítima, subo um tanto a saia e mostro minhas pernas aos dois homens que me seguem à todas as partes. Não há nada mais paralizante que uma panturrilha de mulher quando há sol no meio da rua. Como tampouco tenho qualidades de mártir, tento que não me falte o sorriso, porque as gargalhadas são pedras duras para os dentes dos autoritários. Assim é que continuo minha vida, sem deixar que me convertam em puro gemido, em só um lamento. No fim das contas, tudo isso que hoje vivo foi produto tambem do meu silêncio, fruto direto de minha anterior passividade.

Os otimistas

Em meados de 2007, Julito me assegurou que antes de agosto a carne de porco seria vendida a dez pesos por libra – o salário diário de um trabalhador médio -. Ao não ver cumprido seu vaticínio, o critiquei em janeiro do ano passado sobre a data exata do barateamento da carne. Com seu permanente sorriso me assegurou que poderia adquirir a apreciada matéria – a um preço mais justo – nos meses de verão. Chegaram então os furacões e o prognóstico de meu vizinho tornou-se uma profecia amarga ou, pior ainda, uma ingenuidade nociva. Não voltei a tropeçar com ele por várias semanas e não pude reprovar-lhe seu triunfalismo desmedido.

Ontem, Julito subiu ao meu andar para falar de outro tema. Sua filha menor acaba de tomar o caminho já esboçado pela anterior, depois de desertar em meio a uma excursão artística no estrangeiro. Ambas se reuniram numa dessas populosas cidades dos Estados Unidos e seu pai não está tão triste pela separação, porém alegre pelo futuro de suas filhas. Sentado na sala de minha casa declarou-me que sua esposa e ele planejam reunificar-se com a parte exilada da família. “Lá lhes seremos mais úteis”, me disse em tom de quem já havia tomado uma decisão.

Tive o impulso de perguntar-lhe se não iria esperar o barateamento da carne, para depois voar ao encontro familiar. Porém sei que nós, pais, não fazemos  brincadeiras quando se trata de nossos filhos, assim é que preferí ignorar seu otimismo passado. Perdoei-lhe o desgaste que me provocou sua predição e inclusive a pecha de “pessimista” que me havia lançado frente ao meu receio. Julito é desses que ainda na escada do avião continuará engolfado pelas suas críticas. Depois, em Boston, talvez leia este blog e provavelmente me escreverá um e-mail para confessar-me que nunca acreditou em nada, que era igualmente cético como eu.

Nós, o Povo

Sou pós moderna e descrente: os discursos me provocam sono e um lider do alto da  tribuna resulta – para mim – no cúmulo do tédio. Associo os microfones com os chamamentos à intransigência e a elogiada oratória de alguns, sempre me pareceram puros gritos para ensurdecer o “inimigo”. Nos atos públicos eu conseguia escapulir e prefiro o zumbido de uma mosca do que escutar as promessas de um político. Tive que ouvir tantas arengas – muitas delas aparentemente intermináveis – que não sou o público indicado para aguentar uma nova peroração.

Para mim, a voz que emerge dos palanques trouxe mais intolerância que concórdia, uma porção maior de nervosismo que de chamamentos de harmonia. Saídos das tribunas, ví vaticínios de invasões que nunca chegaram, planos econômicos que tampouco se cumpriram e até expressões tão discriminatórias como: “Que se vá a escória, que se vá!”. Daí que eu esteja tão confusa com a alocução serena pronunciada hoje por Barack Obama, com sua maneira de alinhavar argumentos e invocar à concórdia.

Pareceu-me ao lê-lo – não tenho uma parabólica ilegal para ver tv – que toda uma retórica ficou condenada ao século XX. Começamos a dizer adeus a essa convulsionada eloquencia, que já não nos comove. Só espero que sejamos “Nós, o Povo”* que escrevamos a partir de agora os discursos.

*Tirado da tradução do discurso de Barack Obama publicada no diário espanhol EL País.

Venha e vivencie

Inspirada numa dessas tantas propagandas turísticas, ocorreu-me uma idéia para atrair visitantes para a Ilha. Não se trata de uma viagem ecológica para apreciar a natureza ou de um tour histórico pelas praças e monumentos do país. Uma estadia “a moda cubana” poderia ser o slogan desta campanha turística, condenada de antemão ao desinterêsse de seus possíveis consumidores. Venha e vivencie, diria a capa do livro de racionamento que seria entregue a cada um dos que aderissem a esta aventura.

A hospedagem não se pareceria com os aposentos  de luxo que exibem os hotéis de Varadero ou Cayo Coco, pois nossos operadores de turismo sugeririam barracos em centro Havana, casa de cômodos em Buena Vista e um lotado albergue de vítimas dos furacões. Os turistas que comprarem este pacote não poderão manusear moeda conversível e para seus gastos de duas semanas contariam com o salário medio de um mes: trezentos pesos cubanos. desta forma não poderiam pegar taxis especiais nem conduzir um automovel alugado pelas estradas do país; o uso de transporte público seria obrigatório para os interessados nesta nova modalidade de viagens.

Os restaurantes estariam vedados à quem optasse por esta excursão e receberiam um pão de oitenta gramas cada dia. Talvez até tenham a sorte de conseguir meia libra de pescado antes que saia o voo de regresso. Para locomover-se para outras províncias não contariam com a opção do Viazul, ainda que no lugar de ficar tres dias na fila para uma passagem, poderiam ter a vantagem de comprá-la depois de sómente uma jornada de espera. Seriam proibidos de subir num iate ou alugar uma prancha de surf, a não ser que terminassem sua estadia a noventa milhas e não no nosso “paraíso” caribenho.

Ao finalizar sua estadia, os ousados excursionistas obteriam um diploma de “conhecedores da realidade cubana”, porém teriam que vir algumas vezes mais para serem declarados “adaptados” ao nosso absurdo cotidiano. Irão mais fracos, mais tristes, com uma obsessão por comida que saciarão nos supermercados de seus países e, sobretudo, com uma tremenda alergia ante aos anúncios turísticos. Essas douradas propagandas que mostram Cuba de mulatas, rum, música e bailes não poderão esconder o panorama de colapso, frustração e inércia que eles conheceram e vivenciaram.

Nota do tradutor:  300 pesos cubanos valem cerca de US$ 12.