Faltam as marchas

Algo cintila por sua ausência em nossa paisagem cotidiana. Essas convocações para marchar que até dois anos passados eram tão frequentes, vão se espaçando no tempo e deixando para atrás a impressão de uma cidade permanentemente tensa. Era raro um mês em que nós habaneros não fôssemos incitados à uma manifestação para gritar palavras de ordem e aplaudir discursos inflamados. Nos admnistravam – periodicamente – a colherada de histeria necessaria para que nos sentíssimos num permanente estado de sítio.

Naqueles dias de sucessivas marchas, os serviços públicos se encerravam e o transporte de toda a  cidade servia para transladar a gente que, desde outras províncias, vinham engrossar o número de participantes. Jornadas em que as ruas se enchiam de banderinhas de papel pisoteadas e de pipas d`água para acalmar a sede. A cidade colapsava e os que esperávamos que o desfile acabasse tinhamos essa sensação de estar vivendo uma mobilização que nunca terminaria. Eram dias em que o melhor era ficar em casa, esperar que os gritos, o nervosismo e as vozes altas se atenuassem.

Não obstante, tampouco era totalmente como mostravam as câmaras e os repórteres da imprensa. Os comícios políticos – organizados pelo próprio governo – tinham tambem seu lado de desfrute. Os alunos da secundária encantavam-se com a suspensão das aulas para brincar no meio da multidão. Nos centros de trabalho, muitos preferiam a confusão da manifestação – que lhes permitia escapulir para casa – do que uma jornada de trabalho debaixo do controle do admnistrador. Até os que apalpam corpos nos ônibus tinham no aperto das manifestações um magnífico lugar para seus excessos lascivos. Os vendedores informais esperavam que as turbas terminassem de gritar “vivas” e lhes vendiam incalculáveis quantidades de amendoim, pão com manteiga e refresco.

Não é que sinta saudades das marchas, porem encontra-se diferente minha cidade sem esses espasmos de euforia, sem o líder gritando na tribuna, sem os milhares de autênticos ou falsos que agitavam bandeirinhas.

Anúncios