Salvar formigas

Minha mãe ia com a trouxa de roupa até o tanque de cimento, onde a escova e o sabão branqueariam as camisas e desencardiriam as calças. A comoção tomou minha irmã e a mim ao vermos perigar as ingenuas formigas que transitavam debaixo do monte já fechado. Começava então a correria para salvar parte do imprudente formigueiro, alheio ao extermínio que minha mãe provocaria com a água e a espuma. Meninas um tanto loucas diriam os vizinhos, ao ver-nos retirar os minúsculos insetos que eles nem percebiam sobre o cimento cinzento.

Com o tempo e milhares de formigas que não pude salvar da catástrofe, compreendi  que o trivial está sempre em perigo de ser varrido. As revoluções e as guerras arrasam com o pequeno; com todos aqueles que não aparecem nas estatísticas nem nos grandes livros de história. As coisas diminutas que dão corpo e vida à uma sociedade perecem quando se abre o canal das mudanças violentas e dos conflitos bélicos.

O sabor de uma fruta perdido na memória, uma tarde na vizinhança conversando sem reservas, um bezerro trotando no campo sem temor de ser sacrificado ilegalmente, uma limonada gelada que não tenha te custado uma hora de fila. Tudo isso forma tambem parte do formigueiro, ainda que essas “lavadeiras” que querem limpar e importunar um país, creiam que são antojos de minúsculos bichos.

Sigo sendo aquela menina temerosa dos que querem mudar tudo, com receio dos que propõem escovar as estruturas tradicionais. Confio mais na pequenez das formigas, de seu constante caminhar e de sua lenta ocupação de espaços. Elas, que ainda são varridas pelos jorros d`água, um dia fecharão por si mesmas os montes.

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