Botãozinho verde

Mãos que saem de trajes bem cortados apertam hoje na ONU o botãozinho vermelho, verde ou amarelo para pronunciarem-se sobre o bloqueio/embargo*. Nas últimas semanas, a televisão nos arremessou o repertório completo de cifras, testemunhos e análises sobre os estragos das restrições comerciais  de que padece Cuba. O tema tem sido tão manipulado pelos políticos que, aqui em baixo, muitos temos optado por  “pô-la em off” ou “apagar-lhe o tabaco”.

Ao prever o resultado das votações, gostaria de remeter-me ao outro assédio, o de cada dia. Esse que impede que eu possa entrar ou sair livremente de meu país, que me associe à um grupo político ou crie uma pequena empresa familiar. Um bloqueio interno, construído a base de limitações, controle e censura, que tem custado aos cubanos consideráveis perdas materiais e espirituais. Tento deixar-me levar pelo Granma – tenho que fazer um grande esforço – e trato de encontrar o protagonismo disto que hoje se debate nas Nações Unidas. Saio à rua e o que mais salta a vista são as contínuas restrições que nossos governantes nos impõem; esse muro contra o qual ninguem votará hoje na ONU.

Se nos deixassem apertar o botão! Se pudessemos votar para superar o cerco que nos bloqueia no interior da Ilha! Eu deixaria meu dedo sobre o botão verde durante vários dias.

* Resisto a chamar-lhe de alguma das formas alcunhadas – já sabem como nós linguistas somos rudes com essas coisas-. Nas minhas conversações cotidianas digo simplesmente “o pretexto”, a torpe “justificativa” que tão bem usam os que nos bloqueiam aqui dentro.

Indicado

Este blog, praça pública, rinha de galos, exorcismo pessoal e pesadelo dos rapazes da brigada de Resposta Cibernética, está indicado para dois prestigiosos prêmios. Agora mesmo, Geração Y aparece como finalista de duas premiações Bobs concedidas pela Deutsche Welle. Estamos propostos – percebam que uso o plural, porque o Blog já deixou de ser só meu para pertencer aos comentaristas habituais, aos trolls (internautas idiotas) e aos visitantes ocasionais – na categoria de melhor blog latinoamericano, melhor blog a nivel mundial e o prêmio especial dos “Reporteres sem Fronteiras”.

Tambem no concurso Premios 20Blogs, organizado pelo sítio 20 Minutos, arrisca de ganharmos algo. Coloco no final os links onde se pode votar. Agora, se o fizerem com tanta paixão como comentam aqui, vão terminar dando pau nas páginas, assim, calma rapazes…O prêmio principal já foi conquistado: o blog segue vivo ainda que esteja bloqueado nos servidores públicos cubanos. Se bem que não lhe posso ver, continuo escrevendo e nem as complicadas conexões da Internet nem os outros “impedimentos” vão freia-lo.

Aceitam-se abstenções:

Prêmios 20Blogs  http://www.20minutos.es/premios_20_blogs

Prêmios Bobs      http://www.thebobs.com

Nota do tradutor:
“Aceitam-se abstenções” é uma referencia brincalhona ao modo como as “eleições” são feitas em Cuba.

Tesouras

Não sei o que se passa com os intolerantes ao cabelo, que se focam nele com mais fúria que ao resto do corpo. Tem uma fixação especial com o que brota das cabeças alheias, sejam cabelos ou idéias.

Nos setenta meu pai queria ter a cabeleira até os ombros, porem as tesouras seguiam seus passos. As brandiam os repressores de sempre, aqueles  que sustentam que um corte militar é o sinal para detectar um homem “correto”. Eram os mesmos tempos em que os blue jeans dos hippies e seus cabelos espessos eram assinalados como indicadores do “diversionismo ideológico”.

Nao obstante, a abundancia de cabelo não é a única que descabela estes barbeiros da reprimenda. Recordo que aflita pela falta de xampú e pelo brotamento de piolhos – comuns nos nebulosos anos noventa – decidi raspar-me a zero. Estava no Instituto Pedagógico e minha cabeça lustrosa por pouco não me custa a expulsão da universidade. Na rua sempre havia alguem para lembrar-me que uma “mulher que se respeita” não prescinde de seu cabelo. Afligida por tanta intromissão, deixei crescer – ad infinitum -a cabeleira.

Hoje, meu filho quer portar um par de tufos encima das orelhas, pela influência estética dos desenhos animados japoneses. Aí está a diretora de sua escola para fazê-lo viver o mesmo que a seu avô e a mim.  Com o uniforme branco e amarelo da secundária não combina  – segundo esta barbeira da vez – um cabelo que se afaste de um estilo mais soldadesco. Ao negríssimo cabelo de Teo e suas costeletas desmesuradas, chegam-se tambem as velhas tesouras da intransigencia. A permanente mão que quer podar todas as diferenças.

A impunidade dos loucos

Um louco grande dá chutes nos carros no meio da rua Ayestarán. Veste uma roupa desfeita e nos braços se vêem cicatrizes da “resposta” recebida de alguns veículos. Outro lunático caminha pelo Centro Havana ofendendo o presidente e seu irmão, enquanto uma mulher maluca cospe sua inconformidade em frente a três policiais impávidos.

Dão vontade de gozarmos da mesma impunidade que os loucos. Desejos de parar numa esquina e clamar “o rei está de biquini” – como o faria uma criança-. Porém a maturidade e a sanidade trazem juntas o castigo.

Haveremos de nos comportar então como um demente ou como uma criança.

De etiquetas e listas

Engavetar, classificar e etiquetar não são tarefas só de funcionários e burocratas. Há quem sente um gosto especial em afixar rótulos no cidadãos. A arte de nos por em listas por categorias foi uma prática habitual durante as últimas décadas em Cuba. Um dia vais parar no diretório dos “incômodos” ou à dócil lista do “colaboradores”. As delações podem tirar-te da estante dos “seguidores” e levar-te ao complicado file dos “inimigos” . Há quem entra na lista com as siglas “CR”, que representam o adjetivo mais usado contra os que pensam diferente: “contrarrevolucionário”.

Desnorteia os arquivadores não saber em qual inventário vão colocar um indivíduo. Ficam aborrecidos quando suas velhas categorias não funcionam para os fenômenos surgidos recentemente. À estes “rotuladores da opinião” iria bem incorporar novos adjetivos à seu gasto repertório, pois quase ninguem já pestaneja quando intitulado de “empregado do Império”. O esquemático arquivo onde foram sido colocados os cubanos está cheio de cupins, porem nós mesmos tristemente continuamos usando os epítetos que “eles” nos inventaram.

Neguei-me a estar em qualquer lista e sem embargo estou em tantas!
Preferiria, não obstante, a fila indiana dos que querem terminar com estes ridículos catálogos de cidadãos. Confio em que um dia baste o gentílico desta terra, para saber em qual enumeração nos situamos todos.

Essa sou eu. E tu, em que lista estás?

Os problemas de Lía

Pode-se ter 23 anos e ver com a lucidez de quem viveu muito. É possivel possuir um laptop-calhambeque fossilizado pelo calor e escrever um blog sem quebrar nenhuma tecla na função. Chega-se a dizer as coisas mais duras – que uma boa quantidade da gente só resmunga em casa – de modo público, audacioso e até sensual. Para conseguir essa sequencia peculiar, tem que se chamar Lía Villares, viver em Luyanó, tocar guitarra e querer mudar as coisas.

Um dia ela juntou o nome da sua cidade à perda crônica das células vermelhas e iniciou seu blog, Habanemia. Em seu caso, a ausencia de hemoglobina foi causada pela escassez de sonhos de um geração que só pôde fantasiar muito pouco. Lía foi uma das que começou na escola quando o Período Especial adentrou nossas vidas. Crianças que não recordam do livro de racionamento de produtos manufaturados que, com a desfavoravel letra E, minha mãe guardava como o documento mais valioso da casa. Desses para quem tornou-se comum não tomar leite no desjejum, não receber presentes no aniversário e escutar – perplexos – as histórias de antigos manjares, que contavam os mais velhos.

Os grandes olhos de Lía emitem calma e perguntas – milhares de interrogações cada vez -. No blog solta a cabeleira e transmuta-se em outra. Grita, canta, mostra o pão com azeite, único alimento conseguido nesses dias de desabastecimento. Sua angustiada fé de vida* está salpicada com grupos de amigos na rua G, pela noite, livros que a distraem do teto com as vigas a mostra: “Eu na minha casinha em Luyanó, caindo em pedaços como toda Havana, passando como podia as horas sem Internet e tratando de dormir e de terminar O idiota”.

É melhor vinte vezes ser um estrangeiro na Ilha fatal que ser um cubano respeitador de todas as leis. Habanemia lhe permitiu sacar essa máxima geral que ela descreveu como “inação e silencio. Inércia coletiva de um povo indiferente”. E é.

* Do poema “O ausente” por Eugenio Florit. Aqui a versão musicada por Ray Fernandez.

Cubinho concentrado

Discutí com uma senhora na fila da batata doce. Ela queria permitir duas amigas e eu calculei que assim não alcançaria as dez libras deste alimento – racionado desde a passagem dos furacões-. No final, deixei que as duas velhinhas se posicionassem e nem as insultei quando o vendedor me anunciou “Acabou-se!”. É que me deprime envolver-me por comida; talvez por isso estou tão fraca. Na bolsa de estudos que tive no pré-universitário, nunca tive “garras” para conseguir uma melhor ração, como a obtinham os mais fortes. Quando me vejo impelida a lutar para alcançar um alimento me sinto mal e prefiro chegar em casa com a bolsa vazia. Claro que para minha família não há nenhuma graça nos meus excessos pacifistas.

Para consolar-nos, comprei uns cubinhos de concentrados de sopa. Que vem a ser a comida mais usual para a grande maioria dos habitantes desta cidade. Quando algum enganado turista me pergunta qual é o prato típico da comida cubana, respondo-lhe que deste não entendo, porem conheço as receitas mais comuns e cotidianas. Enumero-lhe o “arroz com concentrado de bacon” ou o manjar de “arroz com um cubinho de galinha e tomate”. Este último tem uma cor rosada e laranja que resulta muito divertida.

Se constantemente estamos digerindo notícias pré-cozidas na televisão, discursos enlatados e passados da data de validade, cubinhos de paciência e espera para suportar o dia a dia, que mais oferece que nosso prato reflita tambem esses acres sabores. (should be a question mark here?)

Assim é que me resigno e compro o apropriado placebo que me fará crer que o arroz contem uma saborosa costela ou um pedaço de frango. Depois de uma “completíssima” elaboração ponho sobre a mesa o fumegante prato. Meu filho, ao sentir o odor, me pergunta de forma repreendedora: “Por que não brigaste mais na fila da batata doce?”.