Terra arrasada

Havana estava em fase de alerta de ciclone quando regressei no domingo depois de um périplo por Pinar del Rio. Poucas vezes me alegrei tanto ao ver as pontes elevadas da rua 100 com Boyeros, como depois do desfile de estruturas destruidas que percebi no ocidente. Em ambos os lados da rodovia se podia comprovar o lugar por onde passaram os ventos superiores a 200 km por hora, justamente na zona entre Los Palacios e San Diego. A vegetação seca, curvada no sentido das rajadas mais fortes e centenas de casas sem teto ou no chão. Até o resistente marabú (tipo de cegonha grande de origem africana) sofreu com o furacão, mais com que todos os divulgados planos para eliminá-lo.

Gente chorando sua sorte, com a casa no chão e as fotos da infancia destruidas pela agua. Um bicitaxista mandou suas filhas para a casa de uma tia, porque não tinha dinheiro para pagar o custo de 9.70 pesos que custa cada telha de asbesto-cimento distribuida às vítimas. Desolação e dúvida ante um futuro que já tinha tons sombrios, porem que agora  tem – com razão – a pior das cores. Colheitas derrubadas, sem nenhuma companhia seguradora que responda por elas. Eletrodomésticos comprados no mercado informal que nem sequer podem ser declarados como perdidos, pois para o Estado nunca existiram.

O desamparo do cidadão ante estes eventos climatológicos é esmagador. Um martelo custa praticamente o salário de um mes e dispor de tábuas e pregos é um luxo de poucos. Só fica uma opção quando chegam os ciclones: retirar-se e deixar os pertences mais volumosos à mercê do temporal. O mais dificil de acionar para nós que queremos ajudar é a ausencia de um caminho civil que faça chegar as doações às vítimas. As estruturas de distribuição do Estado não podem despir-se da indolencia e da má organização que mostram o resto das atividades econômicas. O caminho das Igrejas é escolhido por muitos, porem lhe falta infraestrutura e pessoal para chegar a todas as partes.

Na tarde de ontem, domingo, conversamos com os integrantes da equipe de Convivencia e outros membros da incipiente sociedade civil pinareña, sobre como levar roupa, comida e medicamentos às vítimas.
Desafortunadamente, todas as possibilidades foram desmontadas ao longo dos anos em que nós, cidadãos cubanos, tivemos perdida nossa autonomia ante um Estado superprotetor e autoritário. Se um grupo de pessoas pudesse reunir ajuda, o problema seria transportar-la às zonas de desastre e repartir-la sem que uma delação os faça terminar detidos. Daí que a iniciativa mais viável é o envio de dinheiro em espécie, por parte dos familiares emigrados a seus parentes em Cuba. Nós que residimos na Ilha e queremos dar u`a mão, devemos ir pessoalmente nas áreas devastadas e entregar diretamente ali nossas doações. “Qualquer coisa ajuda” me disse um senhor soluçando com tristeza, enquanto me mostrava sua casa – já paupérrima antes do ciclone – e agora no chão.








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