Da paranóia ao grito

de Claudia Cadelo De Nevi

Sexta-feira a noite, depois da libertação de Gorki e quando nós íamos da sua casa, ele perguntou à Lia se havia ido à praia, e que narrar os últimos dias é impossivel em duas horas: ainda não sabia que estávamos no tribunal desde as oito da manhã, que todo o sol do dia nos havia queimado e que depois nos haviam caído dois aguaceiros em cima…e que todos estávamos ali: os diplomatas, a imprensa e nós (digo nós porque antes alguns de nós não nos conheciamos, éramos simplesmente nós: os que haviam ido).

Escrevo esta nota porque quero dividir minha experiencia neste ato de solidariedade que artistas e não artistas (como eu) tivemos com ele e com nós mesmos, esclarecendo que como artistas me refiro a artistas plásticos, pintores e escritores, porque musicos não vi nenhum, nem o mais underground dos underground.

Meus amigos me chamam de paranóica; sou a que vive com medo, a que não abre as janelas, a que jamais fala alto de política, e tenho medo da escuridão, não vou sozinha depois das dez nem na esquina. Porem nunca havia tido tanto medo como o que tenho desde segunda-feira (ainda não me abandonou).

Sem embargo, haver conhecido gente como Yoani, ve-la ao meu lado com aquele cartaz na mão, depois de haver falado com ela duas ou tres  vezes por telefone, impulsionada pela fé, ver todos nós hoje apoiando Gorki, Ciro, Renay e Hebert, os meus amigos porem “pie en tierra” comigo e suprerarem seus medos e suas duvidas, os amigos no estrangeiro moverem céu e terra, e haverem conseguido todos converter sua condenação de quato anos para quatro dias…. me parece contudo um milagre.

Sinto pena por aqueles que não me chamaram, que se esconderam de mim se por acaso lhes pedia ajuda, pelos que disseram “sim” e não chegaram, lamento que não tivessem vivido a felicidade deste final, a sensação de haver conseguido o inatingível.

Creio que o dia de hoje marca uma mudança do “não se pode” para o “se pode”. Demostramos que as coisas podem  mudar, que as injustiças e o abuso de poder podem ser interrompidos e que o medo NÃO é incessante.

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