O "Y" ao poder

Vigilantes e combativos

Faço um estudo onomástico e trivial, simples: quantas pessoas da Geração Y estão hoje nos mecanismos de poder em Cuba? Tenho a impressão de que se levanto uma pedra aparecerão Yunieskys, Yordankas e Yusimí por toda parte. Na rua, giro a cabeça toda vez que chamam alguém com um nome parecido com o meu, mas não vejo essa profusão de “ipslons” nos postos que decidem os rumos do país. A lista da Assembléia Nacional – que em poucas semanas se reunirá – mal mostra essa louca letra que precede o “Z”. Tampouco entre os gerentes, administradores ou diretores de empresas, a caprichosa “Y” se faz presente.

Que tal se a partir da penúltima posição do abecedário, dessa extravagante letra tão pouco usada em nosso espanhol, lançamos um grito que chegue às imponentes vogais e consoantes das primeiras filas? Diremos a elas algo assim: “- O tempo das “Ys” chegou! Já é hora do alfabeto começar pelo final!”

Trocar o cartaz

Ao final da rua Línea, um dos poucos letreiros, que recordam o slogan “Socialismo ou morte”.

Há definições, propagandas e maneiras de dizer as coisas que seguem sendo usadas por puro automatismo, ainda que na realidade pouco reste na realidade que justifique esses apelos. Segue-se falando de uma igualdade social que não consigo encontrar em parte alguma, de uma soberania que contrasta com nossa dependência real do mercados estrangeiros e de uma ideologia que não consegue fazer valer seus princípios em meio a este “pseudo-capitalismo de Estado”.
Poderíamos seguir com o mesmo cartaz na porta, mas isso não fará com que a realidade se pareça com o que se anuncia. Por exemplo – na foto de cima – uma árvore cresceu e tampou parte da tenaz opção “Socialismo ou morte”. A vida terminou por ridicularizar a escolha radical que nos propunha esse slogan. Alguns grossos ramos com suas folhas verdes cubriram a menção à morte e criaram uma alternativa diferente daquela que nos gritavam da tribuna, nos anos mais duros do Período Especial*.

Um pequeno broto ameaça também esconder a palavra “socialismo”. Não será o momento de mudar o letreiro?

* Nota: O Período Especial foi um período de grande recessão da economia cubana, relacionada à queda da URSS na década de 90.

Festival de cinema francês

A pergunta do sábado à noite não é o que fazer, mas como pagar por uma diversão em pesos convertíveis. Para um casal jovem, o ato de ir a uma discoteca pode significar, no mínimo, o desembolso de dez “chavitos”.* Daí as festas house ou o filmes de sábado são opções melhores para o bolso. Eu me entretenho com os amigos que vêm à minha casa e, de vez em quando. vou ao malecón,* que ainda é grátis. Me junto às vezes aos jovens que se reúnem entre a 23 e a G,* para passar a noite conversando, cantando em voz alta e caminhando de um lado para o outro.

Por isso, me sinto feliz quando chega o Festival de Cinema Francês, com preços subsidiados e consigo entreter-me algumas noites. Mas nada de tomar uma cerveja na saída do filme “99 F” ou da comédia “Você é realmente atraente”, porque isso poderia signifciar o salário de um dia de trabalho. Depois das sessões, ficamos apinhados em torno do cinema Chaplin ou vamos para casa. O anúncio da semana de cinema alemão me tranquiliza: ao menos durante alguns dias, divertir-se não significará tornar-se o harakiri.

Notas:

Chavito: Peso conversível (CUC ou chavito), moeda de uso corrente em Cuba, criada na década de 90 para substituir o dólar.

Malecón: Passeio público na orla de Havana.

23 e a G: Movimentada esquina da cidade.

Adaptar-se ou mudar

No meu elevador soviético, da época de Brezhnev, começou a cair uma gota de graxa da saída de emergência no teto. A persistente persistente chuvinha não destoa do estado técnico do restante do elevador, pelo contrário, está de acordo com o piso descascado, os grafites obscenos e os ruídos terríveis que fazem as portas ao se abrirem. Vários vizinhos tiveram suas roupas estragadas ou o cabelo sujos de graxa pela caprichosa substância; mas a solução que encontramos é ceder-lhe espaço para que ela caia à vontade. Há cerca de dois meses, já não é possível entrar seis pessoas no deteriorado aparelho, pois há um espaço reservado para a graxa que cai.

Da mesma maneira que nos recolhemos diante da caprichosa gota, nos adaptamos ao fato de que um cinema com seis belas portas de cristal, tenha somente uma delas aberta. O conformismo nos leva a aceitar que ao final do filme, todos os espectadores devam se apertar para passar por uma folha do que, antes, foi uma fileira de imponentes portões. Do mesmo modo, nós nos acostumamos com que os vendedores das lojas nos tratem mal, que os produtos venham adulterados e que os serviços percam qualidade pouco tempo depois de terem sido inaugurados. Tudo isso com a mesma complascência bovina com que vimos diminuir nossos direitos cidadãos.

Ser indolente está na moda. Por isso meus vizinhos e eu começamos a crer que a graxa do elevador é boa para fazer crescer o cabelo e que as manchas que provoca na roupa as tornam mais bonitas. Se espera uma ação de nossa parte, pode viver tranqüila a gota de meu elevador soviético: desejamos que caia em paz. Quem vai cair no ridículo de tentar mudar as coisas?

Penumbra forçada

Há dois anos bateram à porta os trabalhadores sociais. Vinham para trocar as lâmpadas incandescentes por outras mais econômicas, em meio a uma campanha bombástica chamada Revolução Energética. Eu gostava da luz cálida e amarela que vinha da lâmpada da sala, mas numa rápida inspeção os adolescentes treinados detectaram a dispendiosa lâmpada e tive que entregá-la. Me deram outra que projetava uma luminiscência pálida e que durou três semanas. Meus olhos se alegraram da curta vida da lâmpada econômica, pois à noite não havia forma de distingüir os detalhes sob sua luz mortiça.
Para repor a lâmpada quebrada, tive que recorrer às lojas de moeda corrente, onde tampouco voltaram a vender as satanizadas lâmpadas convencionais – aquelas que durante toda a vida havíamos tido em nossas mesas de cabeceira. Me resignei a comprar as efêmeras lâmpadas econômicas ou as outras – chamadas de “luz fria” – que dão à minha sala uma aparência de centro cirúrgico. Mas há dois meses nem sequer essas são encontradas. Não há nenhum tipo de lâmpada nas lojas de Havana.

Como um chiste, os vendedores me dizem que o barco que as trazem “não chegaram da China” e me anunciam que numa pequena loja do Cerro compraram algumas, em meio a um grande tumulto. Um rápido exame no meu apartamento indica que as zonas apagadas já superam as iluminadas. De forma que se os caprichos da distribuição se mantêm, terei que melhorar meu sentido táctil ou tropeçarei nos móveis.

O que ninguém sabe – e é desses segredos que só escrevo num diário privado como este – é que consegui esconder, dos trabalhadores sociais, um exemplar das lâmpadas perseguidas. Uma redonda e dispendiosa, que tem me acompanhado por mais de cinco anos com a amarelenta luz que emitem seus 40 watts. Não é que eu aprecie desperdiçar electricidade, mas necessito crer que ao menos posso decidir sob que tipo de luz leio, janto ou vejo à TV.

Me agarro à lâmpada fugitiva, como se com ela pudesse iluminar e clarear não só minha sala, mas também a torpeza dos comerciantes e o voluntarismo das campanhas energéticas.