Eu suspeito, tu suspeitas, todos suspeitamos

A professora do meu filho anunciou que entre os estudantes havia um que – incógnito – anotava numa lista os que se portam mal. Bem cedo estão experimentando estes meninos a paralisia que gera o sentir-se observado, o temor que provoca a delação. No momento, a ¨informação¨ do colega ¨cooptado¨ somente pode ocasionar-lhes uma bronca ou um castigo, porem um dia chegará em que poderá custar-lhes o emprego, a possibilidade de viajar, os pequenos privilégios alcançados em liberdade.

Para nós que temos convivido desde pequenos com todas essas suspeitas e paranóias a confiança é um sentimento que só trás problemas. Todos suspeitamos de todos. Do que não se pronuncia, afirmamos que ¨alguma coisa está armando¨; se pelo contrário se mostra extrovertido colocamos-lhe a pecha de provocador infiltrado. Duvidamos do vizinho que nos sorri enquanto olha o que levamos na ¨jaba¨, do amigo que nos vem visitar em momentos muitos estratégicos e do parente que nos convida a falar besteiras pelo telefone. Temos receio de quem se vai, porque talvez esteja passando a cumprir ordens de fora, e nos preservamos do que critica – em casa – porque sua atitude pode ser uma isca para os incautos.

Olho ao meu redor e comprovo que as sucessivas aspersões de paranóia tem funcionado. De agentes da CIA e membros da Seguridad del Estado estão povoados nossos medos. O temido ¨topo¨ que todos podemos ser  – e do qual todos nós nos acautelamos – é mais eficiente do que as mordaças e tem sido mais eficaz e conseguido o caminho da desunião.

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