Eu suspeito, tu suspeitas, todos suspeitamos

A professora do meu filho anunciou que entre os estudantes havia um que – incógnito – anotava numa lista os que se portam mal. Bem cedo estão experimentando estes meninos a paralisia que gera o sentir-se observado, o temor que provoca a delação. No momento, a ¨informação¨ do colega ¨cooptado¨ somente pode ocasionar-lhes uma bronca ou um castigo, porem um dia chegará em que poderá custar-lhes o emprego, a possibilidade de viajar, os pequenos privilégios alcançados em liberdade.

Para nós que temos convivido desde pequenos com todas essas suspeitas e paranóias a confiança é um sentimento que só trás problemas. Todos suspeitamos de todos. Do que não se pronuncia, afirmamos que ¨alguma coisa está armando¨; se pelo contrário se mostra extrovertido colocamos-lhe a pecha de provocador infiltrado. Duvidamos do vizinho que nos sorri enquanto olha o que levamos na ¨jaba¨, do amigo que nos vem visitar em momentos muitos estratégicos e do parente que nos convida a falar besteiras pelo telefone. Temos receio de quem se vai, porque talvez esteja passando a cumprir ordens de fora, e nos preservamos do que critica – em casa – porque sua atitude pode ser uma isca para os incautos.

Olho ao meu redor e comprovo que as sucessivas aspersões de paranóia tem funcionado. De agentes da CIA e membros da Seguridad del Estado estão povoados nossos medos. O temido ¨topo¨ que todos podemos ser  – e do qual todos nós nos acautelamos – é mais eficiente do que as mordaças e tem sido mais eficaz e conseguido o caminho da desunião.

A solidariedade chega

Depois da avalanche de e-mails que recebi vou ter que trocar o final do meu post “Arte Blogética” e em lugar de sobrevivo porque “postei” terei que escrever “sobrevivo porque postei e porque vocês me lêem”.

A todos os amigos que por estes dias me tem escrito de tantos lugares – Equador, Argentina, Venezuela, Chile, Estados Unidos, Espanha, Itália, França, Brasil, Suécia, Alemanha, Inglaterra e até China – motivados pela nota das Reuters ou porque encontraram o link para “Generación Y”, lhes dou muito obrigado. Vou demorar um pouco no processamento e resposta de cada mensagem recebida (vocês sabem das minhas dificuldades para surfar, navegar ou “chapoletear” na Internet), assim adianto algumas respostas gerais para as perguntas mais comuns que me fazem:

Por que este Blog não tem a possibilidade de receber comentários?

Terá, só que agora se compreendem bem darão conta que não está sendo feito sobre nenhuma plataforma conhecida, nem WordPress, nem Movable Type, e sim construído letra a letra em puro HTML, porque foi a forma mais fácil que encontrei – daqui de Cuba – para fazê-lo. No fim deste mês vou refazê-lo todo, para que funcione como um Blog, com todas as suas possibilidades. Enquanto isto, paciência, que nisso os cubanos são hábeis.

Tem havido alguma repressão por escrever Generación Y?

Por este feito, especificamente, não. As “represálias” que me chegam são as mesmas que enfrentam todos os cubanos que vivem aqui (o quase nulo ou limitadíssimo acesso a internet, a dualidade monetária que nos afasta de alguns serviços como os de Cybercafé, a paranóia sempre presente de que algo seja demasiado perigoso, e o desencanto que gera a interrogação: para que?). Fora isso, ainda não me “ensinaram os instrumentos”… por enquanto.

Como coloco cada Post?

Amigos, responder isto com total sinceridade seria “queimar os navios”, transformar em cinzas os caminhos que ainda me restam. Só posso dizer-lhes que o faço, na maioria das vezes, nos poucos lugares públicos que me permitem um acesso a Internet. Trata-se de utilizar os resquícios que deixa o sistema, de transitar pela delgada linha da legalidade-ilegalidade. O resto se pode imaginar, não é verdade?

Como podem ajudar-me?

Palavras de ânimo nunca caem mal. Até se admite cruzar os dedos e tratar de projetar um futuro em que cada cubano possa bloguear e acessar a Internet como lhe pareça. Fazer links para a “Generación Y” é uma magnífica ajuda.

Pode-se publicar em outros sítios os posts da “Generación Y” e suas fotos?

Tudo aqui escrito pode ser reproduzido impresso ou referido em qualquer parte, só lhes peço que citem a fonte.

Em quais línguas posso responder seus e-mails?

Aqueles que me tem escrito em inglês sabem que os entendo ainda que apenas possa responder no mesmo idioma. Saio-me melhor em alemão (surpresa!!!). de toda forma vou responder-lhes, se tem a paciência de esperar que um amigo corrija meu pobre english.

Por que “Generación Y”?

Porque carrego a culpa da geração do silêncio, da passividade e do consentimento tácito. Creio que já é a hora de que minha geração se faça ouvir, em todas sua pluralidade  e desencanto.

Outra vez, obrigado pelas palavras de ânimo, pelas recomendações e até pelos insultos, que sempre vem bem. Esperem o próximo post de “Generación Y” se a tecnologia, os santos e os censores o permitirem.

Arte blogética

Esta é uma Blog a pulos, intermitente e retrasada como a rota 174 que passa pela avenida Rancho Boyeros. Se você quer subir neste ônibus e percorrer com ele o emaranhado caminho que necessita cada post antes de chegar a estar online, então adiante. O advirto que pode chegar a enjoar de tantas voltas e gritar que lhe abram a porta, que queres sair, que assim não há quem faça uma viagem. Se o disse…

Comecemos por definir porque se move, ou seja, por que posteo. Que razão me leva a empregar minhas energias e recursos em escrever estas “desiludidas vinhetas da realidade”? Pois termina que depois de tentar com o silêncio e a evasão, não há resultado (fiz yoga, pratiquei Tai Chi e até tentei com a academia, porém nada). Tão pouco funcionaram os úteis conselhos dos amigos, sempre chamando a cautela e a espera.

Não creia, contudo, que me inspiram motivos nobres. Confesso, este é – na realidade – um exercício de covardia. Cada novo post impede que a pressão aumente dentro de mim estoure de forma comprometedora. De maneira que os kilobytes devem arcar com minha impotência cívica, com minhas poucas possibilidades de – na vida real – dizer tudo isto.

Na medida em que você vá no trepidante ritmo do ADSL e da Internet por cabo, eu me movo na velocidade do ônibus que conecta a Mulher perversa com linha e G. Cada post  depende de uma inumerável cadeia de feitos que normalmente não articulam bem. Do meu isolado PC a memória flash e daí ao espaço público de um Cybercafé ou de um hotel. Isto, sem entrar a detalhar as complicações, o elevador que não funciona, o porteiro que me pede que mostre meu passaporte para sentar-me ante o computador ou a frustração ao comprovar a não-velocidade que impõem os Proxy, os filtros e os keylogger.

Como típico exemplar desta geração dos ipsílones(Y), o mesmo me desanimou que tenho minhas fraquezas. Passo do “vamos lá” ao “não vale a pena”. Assim não se assuste se um bom dia se encontra aqui um desses cartõezinhos de “fechado para manutenção”, “estamos em avaliação” ou “troca de turno”. Tão pouco se surpreenda se a catarse sobe d tom, se me torno incendiária ou que “me sale a veta” do pessimismo.

No momento sigo nisto, posteo e sobrevivo, ou melhor, sobrevivo porque posteo.