Poucos cabelos grisalhos e muitos sonhos

Quero fazer uma homenagem neste Blog ao jornalista Reinaldo Escobar, que recentemente chegou aos 60 anos. Umas invejáveis seis décadas que em uma vida normal dariam material para cerca de duzentos anos.

Trabalhou como jornalista, nos meios oficiais, até que no ano de 1988 o expulsaram da profissão porque seus artigos “não se ajustavam com a linha editorial do periódico Juventude Rebelde”. Daí – e se virando – terminou como mecânico de elevadores para sobreviver. Tomou os tropeços com a mesma sabedoria que o fizeram conselheiro de muitos e pai adotivo de centenas. Com sua máxima de “isto nos acontece porque estamos vivos” evitou o ostracismo, a calúnia, as freqüentes visitas e pressões dos “serviçais do aparato” e as suspeitas de não poucos.

Macho, como o chamam seus amigos, viu nascer em sua própria casa uma geração de trovadores, nas míticas festas de “Macho Rico” que se faziam nas últimas sextas-feiras de cada mês nos anos mais duros do período especial. Sobre a mesa da sala, um torrão de açúcar dava as boas vindas a todos que – depois de subir quatorze andares pelas escadas – necessitavam energias para cantar, ler ou tocar sua guitarra.

Com algo de Behique – que suas características taíno confirmam – tem a excelente capacidade de poder explicar quase tudo. Sempre pronto a meter o bedelho em qualquer projeto, os jovens o buscam para que ele lhes sugira idéias mais loucas e atrevidas do que as que eles lhe propõem. Reinaldo Escobar coleciona amigos, dicionários e projetos, nos recorda a cada momento que o importante “não é o que acontece e sim como o percebes”.

Macho, com quem compartilho minha vida e meus projetos desde há 14 anos, é o exemplo – doloroso para muitos – de que se pode chegar com poucos cabelos grisalhos e muitos sonhos aos 60.

Desfrute-os, meu amor!!!!

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Vim e fiquei

Por estes dias faz três anos que fiz minhas malas em Zurich e junto a meu filho – naquele tempo com 8 anos – decidi regressar e ficar em meu país. Até aí pode parecer uma simples história de regresso de uma emigrante a sua terra natal, senão fosse pelo detalhe de que ambos tínhamos saído definitivamente. Não vou explicar o que encerra este deformado conceito que começa a cumprir-se uma vez passados os 11 meses de estadia no exterior, pois todos – os de dentro e os de fora – conhecemos muito bem.

Uma vez tomada a decisão de tornar para a ilha, compramos bilhetes de ida e volta, enviamos nossos passaportes ao consulado em Berna, para que colocassem o recém liberado selinho da habilitação do passaporte, e tomamos o avião com escala em Paris. No aeroporto cubano as conhecidas perguntas do motivo da viajem, as quais meu filho e eu respondemos com aprendido roteiro de “viemos por duas semanas para visitar a família”. Nos escassos 20 kilos de cada bagagem vinham todos os nossos pertences pessoais, precavendo que nenhum mostrasse que se tratava de uma viagem sem retorno.

Passaram-se as duas semanas previstas no bilhete e com certeza nossos nomes ressoaram nos alto falantes do aeroporto José Martí, sem que chegássemos nunca  a ocupar  os assentos comprados. Começou então a busca de informação, para conhecer os riscos e possíveis resultados do “entusiasmo de ficarmos”. A todos que perguntava se sabiam de algum outro caso que me pudesse servir de referencia para atuar, abriam os olhos e me diziam “tu estás louca”. Pois sim, de uma loucura unusual, pouco vista, raramente documentada……porem delírio ao fim.

Meus amigos acreditaram que lhes fazia uma piada, minha mãe se negou a aceitar que sua filha não vivia na Suíça do leite e do chocolate, e meus vizinhos acreditaram que regressava de Mata Hari da Europa. A chave me deu alguém com quem me encontrei: “O que tens de fazer é rasgar seu passaporte, sem passaporte não podem colocá-la obrigada no avião”. Com este ato pude experimentar por uns meses o que é estar não documentado no próprio país.

Justamente em 12 de agosto de 2004 me apresentei na imigração provincial para avisar “Sou eu, ainda que não tenha documentos que o provem vim para ficar”. Tremenda surpresa quando me disseram, pede o último na linha dos “que regressam” e diz ‘a tenente Sarahí que te de o modelo para solicitar a carteira de identidade. Assim que encontrei, repentinamente, outros “loucos” como eu, cada um com sua cruel história de retorno. Um senhor que regressava da Espanha com sua esposa e filha, depois de cinco anos vivendo lá, me disse: “Não te preocupes, vão forçar-te a ir porem tens que te negar”. “O mais grave é que tenhas que estar duas semanas detida, porem o cárcere é aqui mesmo e os colchões estão melhores”. Respirei aliviada… Ao menos o de dormir estava garantido.

Fizeram-me um recurso de “permanente”, me advertiram que “nunca mais voltaria a sair do país” e me esclareceram que iriam ser condescendentes porque havia um menino no meio. Não cheguei a experimentar os famosos colchões, pois não podiam incluir um menor de idade junto comigo e tão pouco deixá-lo na rua. A chave, para que tudo “caminhara” mais rápido dava-se ao fato de que nunca havia tido propriedades – que foram confiscadas com minha saída – (quem de “Geração Y” tem alguma propriedade em Cuba?) e que alem disso contava com a possibilidade de ser novamente acolhida no núcleo familiar de onde havia saído. Cada semana devia me apresentar na Imigração para um controle de rotina, assim até outubro do mesmo 2004, nos forneceram novamente novos documentos de identidade. A cota de racionamento tivemos de volta em meados de dezembro… Já tudo estava outra vez como antes.

Não quero com esta história explicar os que muitos seguem qualificando como um ato insensato, e sim dizer a eles que alguma vez pensaram em fazer, quem é possível. Não é tão irrealizável nem tão unusual como os inextrincáveis decretos e leis imigratórias nos querem fazer crer. Durante meses – desde Zurich – naveguei na Internet em busca de um testemunho que me dissesse: “se pode”, só encontrei palavras de estranheza, suspicácia e negativa. Assim pensando em outros dementes como eu que estão considerando a idéia de disparar e ficarem escrevi esta “crônica de um regresso”.

Internet por sinais

Novas medidas reguladoras da Internet se expandem pelos centros de trabalho vinculados aos meios educacionais cubanos. Yahoo e Gmail levam a pior parte, junto a um travesso Google que guarda – acessivel desde seu cache – até as páginas que os filtros ideológicos não deixam passar.

Os poucos “Café Internet” que ficam na cidade de La Habana, tão pouco permitem muitas possibilidades de real navegação. A lentidão, a deterioração de uma boa parte dos computadores que apesar disso funcionam, somados ao preço que oscila entre 5 e 6 cuc (pesos conversíveis) por hora, fazem que a rede das redes seja um luxo com sabor amargo. Uma boa parte dos hotéis restringiu o serviço de conexão somente para hóspedes, e nos denominados “correosdecuba.cu” a gente toma cuidado com o que escreve ou recebe.
Se os usuários o tem como desagradavel, o que será então para aqueles que querem programar ou desenhar para a web. Fazer um upload de um megabyte leva ao redor de dez minutos, o protocolo ftp (File Transfer Protocol) não funciona em lugares públicos e na maioria das vezes é impossível descarregar até pequenos programas. Os bloggeros escasseiam e bater papo se converte num pesadelo.

Proponho então, para pular todas estas dificuldades, que voltemos ao sinais de fumaça, ao toque de tambor para nos comunicar… ( eu o transmitirei de modo extremamente dificil pois tenho o ouvido quadrado) e ao “cobo”* com a ponta perfurada para transmitirmos as notícias. Não extranhe leitor, se o próximo post de “Geração Y” lhe chegar em forma de espiral ou com tons de repique.

*Cobo = concha (búzio soprado que produz sons)