A sombra de um "almendrón"*

Para la Havana? me grita o chofer como se a esquina de Boyeros e Tulipán onde estou parada não pertencesse à cidade em que nasci e vivo. Eu respondo com um gesto do dedo em direção à esquerda e confirmo: “Sim, para a Fraternidad”, porque gosto de fazer esta homenagem diária ao parque da Celba (tipo de árvore) – essa que se conta que tem debaixo, um presente que foi enterrado por Machado e que nos condena a eterna infelicidade nacional.

Subo no almendrón e me acomodo entre outros passageiros que olham em direção a parada que deixamos para trás e parecem aliviados de estar “aqui” e não “ali”. Os dez pesos me pulsam no bolso, porem a lembrança do novo onibus articulado com mínimas janelas me devolve a convicção de ter feito o melhor. O carro tem licença, e capacidade para oito passageiros, dois junto ao chofer, tres no meio e outros tres atrás onde uma vez foi o bagageiro. Me cabe o assento que deve ser dobrado cada vez que alguem tem que sair do carro quando chega ao seu destino. Não importa, nada é pior do que mão boba num “camello”.**

Passamos em frente a um controle policial, que fazem seu “agosto” justamente com os transportadores privados. Estamos com sorte, não nos param. O chofer conta então seu último encontro com a policial que lhe custou dez chavitos.***

Os passageiros opinam, contam histórias iguais nojentas e pouco a pouco vamos nos introduzindo num tem, onde todos tem algo a dizer. Aquilo parece um encontro de “neuróticos anônimos” explicando as causas de seus desiquilíbrios.

A cumplicidade foi criada. O mágico espaço deste Chevrolet anos 40 conseguiu fazer falar o nosso descontentamento. Os temas se sucedem, passando pelos subterfúgios, a asfixia dos produtores privados, a excessiva repetição de certos temas na televisão nacional e terminam como um ponto em uma frase que minha vizinha de assento joga em cheio na cara: “Sim, porem ninguem faz nada!”.

Chegamos a um lado do Capitólio e todo o efeito termina. O carro volta a seu ponto de taxi e ouço o chofer que grita “!Vinte, até Santiago de las Vegas!”, a senhora do meu lado me ignora por completo e toma outra direção. Eu seguro firme a Ceiba cercada que uma vez se semeou alí com terra de todas as repúblicas deste continente e murmuro entre dentes: Que bem que nos fizeste.

*Antigos carros americanos que servem como taxi.

**Tipo de onibus em que a cabine do motorista fica separada da dos passageiros – como os antigos papa-filas de São Paulo.

***Gíria para pesos cubanos conversiveis – CUCs (criados num dia que Hugo Chavez estava na ilha).

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Quando vejo a televisão

Esta semana fazemos uma terapia anti-televisão em nossa casa. Começamos gradualmente e estamos agora na etapa de ligar o “gordito autosuficiente” porem sem som. É interessantíssimo o que se consegue. Ante nossos olhos passam imagens, que de tão previsíveis a própria imaginação lhes põem voz e som. Se aparece um campo semeado, ouço dentro de mim um conhecido locutor que anuncia uma superação na produção de batatas. Se, em seu lugar, o que vemos são imágens de pessoas vestidas com jalecos brancos, então imediatamente emerge na minha mente o discurso sobre médicos cubanos que oferecem seus serviços na Bolívia ou Venezuela.

O que nunca ocorre é que ao ver, sem som, uma dessas reportagens, surja de mim algo cotidiano e realista  que se pareça ao que ouço cada dia na rua.  Nossa televisão nos mostra “o que devíamos haver sido” ou, pior ainda, “o que devemos crer que somos”. Assim é que o locutor que todos levamos dentro nunca diz algo como “os preços estão nas nuvens”; “na policlínica só restam 17 médicos, porque todos os demais se foram em missão”; “se não roubo no trabalho não posso viver” ou “onde estão as malditas batatas que não chegam?”.

A televisão se parece tão pouco com a minha vida, que chego a pensar que a minha existencia é que não é real; que as caras aumentadas que vejo na rua são atores que mereceriam um Oscar ( ou um Coral); que as centenas de problemas dos quais me esquivo para alimentar-me, transportar-me e simplesmente existir, são somente parágrafos de um roteiro dramático  e que a verdade, de tanto que insistem, deve ser a que me conta o jornal Granma, o Noticário Nacional de Televisão e a Mesa Redonda.

Os filhos da espera

Li há alguns dias no jornal Granma que a população decresce e que no ano de 2006 houve uma diminuição aproximada de 4300 habitantes em comparação com o ano anterior. A notícia não me surpreende, pois já havia podido notar que aquilo de vinte estudantes por aula nas escolas primárias obedecia mais a uma realidade demográfica, que a aplicação de algum moderno metodo pedagógico.

Sem embargo, entre amigas e amigos de minha geração há um verdadeiro boom de gravidez e nascimentos. São os filhos que foram postergados com os argumentos de espaço, imigração ou a situação economica; porem que seus pais – já trintões – se vem compelidos  a ter agora.

Meus amigos imaginaram a chegada de seus bêbês de outro  modo. Sonharam em resolver seus problemas habitacionais antes de virem as crianças à sua vida. Alguns viram-se a si mesmos como pais de filhos que passeavam em trenó e falavam duas línguas; enquanto que outros projetaram que em seu próprio pais com seus salários poderiam custear as fraldas descartáveis, as mamadeiras e os presentes na festa dos Reis Magos.

A vida normalmente zomba das previsões, assim que aí estão minhas amigas já a ponto de parir ou balançando meninos em uma poltrona e meus amigos sufocados tratando de dividir o pouco espaço em que habitam na casa dos avós, fazendo calculos que não podem cumprir com seus exiguos salários e sonhando se todavia haverá espaço no “trineo”, agora que são mais para levar.

Novo símbolo de status

Vivo equidistante dos mercados agropecuários, onde os camponeses, cooperativistas ou seus correspondentes intermediários vendem e o outro que está a cargo do Exercito Juvenil do Trabalho (EJT). No primeiro há quase de tudo, frutas, vegetais, alimentos e até carne de porco. O estatal poucas vezes tem algo mais do que batata doce, pimentão, cebola ou mamão papaya verde e quando chega algum produto de carne as filas aumentam. A diferença fundamental entre estes dois “agros” não está na variedade senão no preço, tanto é assim que meus vizinhos chamam o mercado dos camponeses de “o agro dos ricos” e ao do EJT de “dos pobres”.

O certo é que para conseguir uma comida medianamente balanceada há que se passar pelos dois. Primeiro se deve inspecionar os estrados repletos dos mesmos produtos que abundam na grande área pertencente ao EJT e depois permitir os desejos e os caprichos de qualidade com os lustrosos tomates do mercado dos “guajiros”.

As vezes, quando o desejo e a nostalgia me picam, vou comprar uma pinha no “agro dos ricos”. Tenho o cuidado de levar uma bolsa de tecido para guardar a rainha das frutas e esconder dos olhares o obsceno símbolo de status que ela representa.