O humor nos tempos de medo

Foto: Orlando Luis Pardo Lazo

De vez em quando o convidam para algum programa humorístico na televisão, porém não vive disso. Prefere que um dos restaurantes exclusivos, que começaram a brotar por toda Havana, o contrate. Salário em pesos conversíveis, um prato de comida e liberdade de rir de tudo o que queira estão garantidos nesses espaços “por conta própria”. Com o microfone na mão e ante um público seleto de pessoas prósperas, faz aquelas piadas proibidas frente às câmeras nacionais, graceja do que nunca o permitiriam num estúdio da ICRT. Arremete com sarcasmo contras as regulamentações migratórias internas e comenta – zombando – que fez “três tentativas de entrada ilegal na Capital”.

A medida que a noite avança os tragos se sucedem e sua língua torna-se mais afiada, mais mordaz. Começam as piadas políticas, veladas, porém ao mesmo tempo diretas, onde às vezes sua mão sobre o queixo indica uma barba. Prontamente inicia um monólogo sobre a pobreza do seu povoado oriental, esclarecendo que sua mãe quer se mudar para a cidade “para poder receber mais ovos no racionamento”. Parece outro, diferente daquele que apenas ri do seu próprio físico na televisão nacional. Entre as mesas e com a anuência dos proprietários do lugar, zomba também do chefe de polícia que em qualquer comunidade pequena faz às vezes de cacique com todos os poderes. Depois deriva para uma extensa – e grosseira – coleção de piadas sexistas, racistas e homofóbicas, sem meias palavras, com a mesma crueza escutada nas ruas.

Os clientes saem do lugar se perguntado se realmente será o mesmo humorista que viram no horário nobre da TV. Aquele lhes parece engraçado, porém este que acabam de descobrir sob o refúgio de um restaurante é irresistivelmente cômico, visivelmente livre. Porém quando voltarem a vê-lo em algum programa de Cubavisión ou Telerebelde notarão que do seu amplo repertório só fica a parte menos incômoda, uma parcela cuidadosa e censurada do seu riso.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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