Compartimentos estanques

Há dias para a desunião e outros para a confluência. Momentos em que parece que a estratégia de nos enfrentarmos funciona, porém também minutos em que conseguimos saltar sobre os reduzidos limites em que nos querem encerrar. A noite foi, precisamente, um desses instantes de ponderação, de identificação e de correspondência. Em Estado de SATS encontramos pessoas de tendências muito variadas, como os integrantes de Omni Zona Franca, o líder do grupo Puños para cima e os organizadores do festival Rotilla, recentemente sequestrado pelas instituições oficiais.  Ali falaram num local repleto, em meio ao calor no pior estilo de agosto e com muita necessidade de entender porque a censura os importuna. Creio que ontem algum perspicaz da Segurança do Estado deve ter perdido seu trabalho, porque entre abraços, perguntas e goles de chá deixaram para trás meses e meses de difusão profissional de intrigas – intrigas para enfrentar e desqualificar esses atores da sociedade civil.

 O método é simples e não tem nada de novo. Chamam alguém e lhe dizem que não lhe convém falar com outro, enviar-lhe um simples SMS ou responder um cumprimento. Para justificar o distanciamento esclarecem que aquele músico de hip hop, este blogueiro ou aquele produtor musical são da CIA ou foram treinados pelo Pentágono. Não precisa acreditar, basta somente que a intimidação e o medo penetrem o suficiente e poucos se aproximarão do estigmatizado. Para sustentar tal rivalidade torna-se imprescindível manter ambas as partes distanciadas, pois pode ocorrer que se encontrem e descubram – oh, surpresa! – que nenhum dos dois tem tentáculos, suásticas pintadas na roupa ou uma arma saindo do bolso. Manter distantes os “compartimentos estanques” erigiu-se durante muito tempo como uma estratégia vital para o controle.

 Por isso desfrutei tanto do abraço de Luis Eligio, o sonoro beijo de Raudel do Eskuadrón Patriota, a saudação afetuosa dos integrantes de Matraka e do Talento Cubano. Escutei-os também como quem ouve uma história conhecida: o longo padecimento da satanização que vivi em minha própria carne. Quando deram a palavra ao público perguntei-lhes se tinham a consciência de que haviam sido jogados no saco dos inconformistas e que a partir de agora qualquer coisa poderia lhes ocorrer. Alguém me respondeu que já éramos tantos dentro desse saco que agora o problema era de quem tinha ficado de fora. Fui feliz para casa por ter comprovado como já se tornaram ineficazes as maquinações da polícia política, como se lhes está tornando difícil manter distanciados esses compartimentos estanques.

 Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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