Cansaço

Óleo de José Luis Fuentetaja (1971)

Era muito cedo, as olheiras do locutor eram vistas como duas contusões e o sol, contudo, não castigava em demasia na Praça Máximo Gómez. Sobre assentos macios um pequeno grupo assistiu ao vivo o ato pelo 26 de julho na província de Ciego de Ávila. Enquanto o resto da praça sentava-se em cadeira de plástico ou ficava de pé, simplesmente. Do lado de cá da tela os poucos telespectadores acordados nessa hora, fazíamos um esforço para não voltarmos a dormir. O evento era tão chato e tão previsível em sua trama que por momentos parecia à retransmissão de algum ano anterior. Nem sequer uma brisa espontânea mexia o cabelo dos assistentes. Até a mosca obstinada em sair na câmera, sobre o rosto do orador principal, era vista de maneira irreal.

Porém a monotonia maior veio com as palavras de José Ramón Machado Ventura. Uma hora depois de havê-las escutado era difícil lembrar o que havia dito o mais encanecido de todos os vice-presidentes, o mais dogmático dos ortodoxos. Durante as pausas programadas do discurso alguém gritava uma palavra de ordem que depois era repetida pela multidão. Os aplausos também eram ouvidos convenientemente administrados, sem arroubos não autorizados, sem explosão. Uma credencial enorme pendurava-se do pescoço dos que desfrutavam de uma cadeira. Desmentindo, com tal excesso de papel e plástico, os chamados à eficiência e ao fim da burocracia que saiam do pódio.

Num momento que deveria ter sido o final, ainda que pudesse ter sido somente um intervalo no roteiro, Raúl Castro se foi sem haver dirigido a palavra à multidão. Levantou-se de sua cadeira e andou, seguido bem de perto por um leal guarda-costas que tem mais desempenho televisivo que alguns ministros. A praça começou a esvaziar-se rapidamente enquanto o locutor tentava encerrar com certos lemas que uma vez já mobilizaram paixões. Isto é o que sobra? Pensei com pena alheia. Com esta coreografia de esgotamento pretendem mobilizar paixões? Apaguei a televisão na metade de uma frase e voltei a conciliar o sono. Lá fora o sol já estava esquentando varandas, secando charcos e revelando rachaduras.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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