O Cajú: a fruta proibida do paraíso socialista

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O sulco estendia-se infinitamente frente aos nossos olhos. Nesse dia também não se cumpriria a regra, porém quem se importava? Naquela escola de campo nós realmente nos exercitávamos numa prática muito difundida por todo o país, a de fingir que trabalhávamos. Quando os professores nos observavam, dobrávamos as costas e fingíamos arrancar as ervas daninhas que rodeavam os altos pés de tabaco. Se se iam, voltávamos à posição horizontal para falar da nossa principal obsessão de adolescentes que, surpresa, não era o sexo, mas sim a comida.

Nessa manhã a máquina de irrigação estava parada em meio ao terreno e parecia um albatroz de vastas asas atolado sob o sol. Minhas amigas e eu entramos na cabine vazia, mexemos nas alavancas, nos botões e no volante. Pulamos sobre o assento remendado e fantasiamos que aquele pedaço de metal chilreante iria começar a andar e molharíamos todos os estudantes com seu irrigador. Ríamos por antecipação, porém nem uma só gota saiu dos longos tubos que se estendiam de ambos os lados. Contudo, enquanto metíamos o nariz aqui e ali topamos com uma lata com umas frutas raras. Tinham a forma de um pimentão, porém a cor ia do amarelo ao alaranjado intenso e uma castanha se projetava para fora. Jovens urbanas, tolhidas entre as carências do racionamento e o colapso agrícola, não havia modo de que soubéssemos que aquilo era um caju.

Fincamos-lhes os dentes imediatamente. Doce, suave e depois quando a boca começou a ressecar, pensamos que nos tínhamos envenenado. Corremos horrorizadas, gritando. A gargalhada do professor durou longos minutos. Quando a sensação adstringente passou, ficou o desejo de morder outra vez essa textura que já havia sido cantada nas canções camponesas, mencionada por nossas avós e pintada por alguns pincéis do século anterior. Fiquei impressionada por aquela fruta proibida do nosso paraíso socialista. Passariam quase vinte anos até que voltasse a encontrar.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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