Cola louca

se_reparan

Gritam de uma varanda para outra e num primeiro momento penso que se insultam, porém não. A do edifício da esquina diz para outra senhora que obtiveram “cola louca” na lojinha de Boyeros e Tulipán. Ambas abrem os olhos, gesticulam, “acontece que estava sumida”, “não havia em nenhuma parte”, afirmam. Rio-me entre dentes enquanto olho a ponta do meu sapato, necessitada também dessa colagem instantânea que as vizinhas anunciam como se houvesse carne de vaca disponível pelo cartão de racionamento. Se chegar a tempo de conseguir um tubo da cola mágica, poderia colar a tecla do computador que anda dando voltas por aí e a campainha da porta que escutamos apenas quando alguém bate.

Em meio à lista de coisas quebradas, pergunto-me se haveriam estatísticas de quanta cola louca se consome por ano nesta Ilha. Não é um produto básico, porém intuo que há uma relação entre a necessidade de consertar nossos pertences e o grau de crise econômica em que o país vive. Se não, por que todo mundo está correndo atrás de uma cola que é anunciada como capaz de consertar tudo? Frequentemente tenho pedaços de borracha no cotovelo ou sobre a roupa depois de fazer um desses consertos aos quais a cotidianidade me obriga. Na última vez em que me dediquei a essas fainas, meu dedo indicador e o polegar ficaram grudados, até que, com água quente, consegui separá-los perdendo um pedaço de pele no intento.

Em muitas lojas, quando são abastecidas com esse “cimento de contato”, parece que há liquidação. As pessoas compram dezenas de tubos como se o seu grande poder aderente pudesse colar uma realidade fraturada pela frustração. Não somos um povo excessivamente austero que não quer descartar o inservível, senão que entre nós é difícil fazer caso da data de validade colocada pelos fabricantes. Quando algo quebra raramente tem substituto. Por isso faço este post aqui e vou comprar minha porção de cola louca, minha dose necessária de remendo instantâneo. Talvez umas gotas sirvam para juntar os pedaços desse futuro que caiu no chão, espalhando pedacinhos por todos os lados.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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