Claria, do rio ao esgoto

Parte do documentário realizado por Fabián Archondo e a Fundação do Novo Cinema latinoamericano.

Meu filho está nessa idade em que poderia comer as colunas da casa se não o vigiarmos. Abre e fecha a porta da geladeira acreditando que este eletrodoméstico pode produzir – por si próprio – comida. Seu apetite é tão insaciável e tão difícil de satisfazer em meio à escassez e aos preços elevados dos alimentos que apelidamos Teo com o voraz qualificativo de “a claria”. Sua avidez nos lembra essa espécie que algum inteligente introduziu em nosso país para potencializar a piscicultura e que hoje é uma praga nos rios e nas represas. Claro que se trata só de uma brincadeira familiar, pois nosso ansioso adolescente é incapaz de digerir as coisas que entram pela boca do peixe que caminha.

De bigodes pronunciados, cor cinza-azulada e com capacidade de sobreviver por até três dias fora da água, as clarias já fazem parte da nossa paisagem rural e citadina. São dos poucos animais que sobrevivem no contaminado Rio Almendares e que conseguiram deslocar outras espécies saborosas dos frigoríficos das peixarias. Contudo, nem sua capacidade de adaptação nem sua fealdade alarmam tanto como seu comportamento extremamente predador. Comem de roedores e frangos até filhotes de cachorro e todo tipo de peixes, rãs e pássaros.

Como solução dos problemas alimentares do Período Especial nossas autoridades importaram esta espécie estrangeira e criaram com ela um dano colossal ao ecossistema. Irresponsabilidade parecida já havia ocorrido com a entrada de tilápias e tencas (peixe de água doce europeu), porém os resultados têm sido incalculavelmente mais dramáticos com esta criatura escura e escorregadia que hoje reina em nossas águas. Mergulhada na lama, saindo pelo esgoto no meio da cidade ou se arrastando pela margem da rodovia, sua propagação coloca em evidência a fragilidade da natureza frente as diretrizes ministeriais. Ficará por longo tempo junto a nós – não tenho dúvidas – inclusive quando os que a introduziram no país sejam só uma lembrança, parecida com uma fugaz migalha de pão na boca de uma claria.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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